Do avesso

De 1917 a 2017, à procura do que somos

Prometi falar dos últimos cem anos, no desejo íntimo de perceber quem sou agora. E cá estou de regresso ao tema, de regresso a nós

Volto assim a raciocínios que faço sozinho, agora exposto, deste modo, à sua companhia. À companhia de quem me lê e que deve acreditar ter alguma coisa a negar ao que vai lendo.

Por me situar sempre em 1917, matriz de toda a manifestação alcançável hoje, 2017, insisto que o faço apenas por ser o meu campo de estudo – que não para de surpreender-me e de produzir provas de que o que somos hoje estava já lá atrás a complicar-se.

A organização administrativa do nosso território (território que é na atualidade uma herança, uma geografia quase exata de um ponto de partida depois da devolução de outros espaços, isto é, dos territórios ocupados como elementos da conquista imperial, não se tendo ainda cumprido o mar, valor maior que temos mas não sabemos rentabilizar); as elites governantes que tiveram a ingenuidade de acreditar serem capazes de um rumo glorioso; as intelectuais, a maior parte fechada em redutos tristes, de autocomiseração, de lamento, de sebastianismo e messianismo ansiados e sem dúvida de muito pouca mundividência e abertura – todas eram há cem anos a incapaz capacidade de gerar uma modernidade portuguesa melhor do que a que somos.

Os princípios da soberania nacional abalaram, há 100 anos, com a ameaça da guerra, a I Guerra Mundial. A divisão dos poderes abalou-se nas suas contradições – de um regime democrático frágil, com um governo reeleito, o de Afonso Costa, o seu terceiro Governo, a uma ditadura sangrenta e débil, a do Major (autointitulado general) Sidónio Pais. O centro-político do Estado-Nação abalou-se, ao confinar-se a gabinetes do Poder e esquecendo o povo, assustado pelas sucessivas tentativas de tomada de poder pelos protagonistas do novo regime – a República, implantada em 1910 -, pelos opositores da Monarquia deposta e, mais, assustados pelo que entendiam ser a perseguição à sua fé (a separação entre a Igreja e o Estado, apesar de estimular o aparecimento, a afirmação e o regresso de muitas confissões religiosas, assustava-os por ser um confronto direto com a igreja católica, a predominante no território português e com tradição de séculos. Como resposta, o povo teve as aparições de Fátima, onde cumpriu a vontade de um diálogo com o céu que a terra lhe impedia.

Mas a elite queria outras verdades

Progressivamente, caminhando-se para o Estado Novo, longa caminhada de velhos que durou quase meio século, o País definiu três patamares onde se acolher e sossegar.

Um, nacional, que traria do nacionalismo a aura e no colonialismo a expressão mais intensa (que conduziria a uma guerra com milhares de mortos e dívidas impagáveis).

Outro, regional, onde a pobreza era generalizada e os sonhos adiados, onde não havia água canalizada, luz elétrica, saneamento, pão ou paz, nem educação, onde a mortalidade infantil era das maiores da europa e onde o povo se escudava nas suas dores e numa cultura resistente que tinha as tradições antigas como cama e a linguagem da fé como fino cobertor.

E a última, paroquial, onde a igreja se reorganizava, estabelecia e consolidava, na procura, mais uma vez, de restaurar valores perdidos e de grande extensão material e intelectual, até espiritual, embora esta última não fosse a sua prioridade.

A sociabilidade, a par disto. cria um país assente em manifestações concretas: grémios, casas regionais, associações, congressos, partidos políticos com lógicas clientelares, movimentos militantes (como será exemplo a Cruzada Nun’Álvares) e político-intelectuais (como o Integralismo Lusitano) – que contribuem para a estruturação ideológica mas sobretudo territorial do poder que o Estado Novo controlará, com mão de ferro em brasa (limitando as liberdades, temendo as concentrações, censurando as palavras, proibindo a militância política, criando um partido único e um beco sem saída para onde se convergia a menos que se quisesse passar o resto da vida nas prisões, nos cemitérios – ou na emigração, solução que os regimes oferecem àqueles que não cuidam, na hora de lhes mostrarem a sua mediocridade política e desinteresse pelo humano.

Incapaz de ser um lugar ético, o Estado Novo procurou ser um lugar étnico, com a tónica na ideia de uma (amarga e impossível) “sociabilidade natural”, ideia que vinha de certa monarquia e de certos defensores da mesma como aqueles que integrava o movimento político e ideológico do Integralismo Lusitano.

Lá para trás, anos antes, Alexandre Herculano tinha dado o ponto de partida para essas ideias, que o novo regime atualizou, conferindo-lhe uma cosmética assente numa paleta de cores muito pouco variada mas intensa: a argumentação biológica e a argumentação psicológica, colhidas numa ciência a afirmar-se então, mas colocando os detalhes sob a proteção divina, messiânica, do providencialismo católico e, sobretudo, sob a ideia de cumprimento de uma «missão»: a missão político-espiritual do Império (em suma, a via portuguesa para o autoritarismo e para o corporativismo), que nos fechou o País a cadeado.

Cem anos depois, enfermos dessas musculações ideológicas, somos a evidência: pequenos como grão de arroz, desacreditamos em quase tudo, e desconfiamos das sombras e até das imagens que, ao espelho, nos devolvem a figura sinistra do que criámos e permitimos criar para nós.

Esperamos um Messias qualquer, desde que nos sirva – e temos muitas dúvidas sobre qual será, realmente, a nossa missão.

Este artigo respeita o AO90

Leia a primeira parte desta reflexão: Nós todos em 2017. Cem anos depois

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores.

Alexandre Honrado

Alexandre Honrado

Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

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