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Elle podia mesmo ser o Joker da Palma de Ouro

Os dois últimos filmes em competição têm muito em comum

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A Selecção Oficial para o concurso da Palma de Ouro com o sugestivo nº 69 completou-se com dois títulos tremendos: Elle e Le Client/The Salesman, respectivamente do holandês Paul Verhoeven e do iraniano Asghar Farhadi, que aterraram em Cannes para baralhar as contas.

Talvez nem tanto, pois já esperávamos esses “bombons”, para compor o palmarés final. O que não contávamos era que fossem dois filmes com muito em comum. Farhadi embrenha-nos numa narrativa densa de culpa e redenção, ao passo que Verhoeven regressa a Cannes, 24 anos depois de Instinto Fatal, a mostrar que o seu cinema de provocação e mulheres de garra está em grande forma. Sim, Isabelle Huppert também. E nem precisa de descruzar as pernas…

Espera, vimos ainda o novo filme de Sean Penn, The Last Face, uma espécie de cinema ONG, com Charlize Theron e Javier Bardem em missão humanitária na Libéria. Só que o resultado é tão insonso, linear e politicamente correcto que nos abstemos de o comentar. Até porque para falar dos danos colaterais em África, que deixam impotentes os capacetes azuis da ONU, tivemos Beasts of No Nation, com Idris Elba. Penn introduz o romance aflitivo entre Theron e Bardem, mas desajustado e inconsequente. Será que foi por isso que o casalinho se separou?

O trauma da violação

Curiosamente, ou talvez não, Elle e Le Client abordam ambos o tema da violação e da vingança. Mas enquanto o iraniano trata o tema com o devido peso da alma, já o holandês ensaia uma sibilina comédia negra dentro de um processo lúdico, de jogo. Literalmente.

Em nosso entender, haveria alguma justiça num prémio de melhor guião para o iraniano ao passo que a Palma de Ouro teria ficado muito bem a Elle, de Paul Verhoeven. Apenas por uma questão de bom senso.

Mal terminam os créditos iniciais e logo temos um raccord com os gritos de uma mulher a ser violentada com alguma violência. Paul Verhoeven não está com paninhos quentes e apresenta-nos assim Michele (Isabele Hupert no seu melhor), dorida, no chão.

A cena é curta mas acabará por ser recorrente no filme. Não só porque vai ser recordada, mas também porque haverá de reincidir. Aliás, não é ela que anuncia aos seus colegas e amigos num jantar, com um ar neutro: acho que fui violada.

De resto, a adaptação do romance de Philipe Djian por David Burke permite acentuar o seu lado de mulher de armas, gestora de um videojogo. Não será ela a personagem da amazonas que derrota o Orc final?

Elle é, na verdade, um dos melhores filmes do festival. A par de Aquarius, se bem que um mais ácido e atrevido e o outro mais realista e comovente.

Michelle já viu tudo, digamos assim. É uma verdadeira dama de ferro. Ficaremos a saber que Michelle vive sem dificuldade e que recebeu também na herança o trauma do pai, um serial killer famoso nos anos 70 que passará a vida na prisão. Bem mais robusta que o filho de personalidade frágil e forçado a trabalhar numa loja de fast food.

E não será mesmo uma violação que a irá abalar. Nem duas. Como se percebe, este é material que nas mãos do autor de Instinto Fatal e Showgirls lhe permite trabalhar os contornos do género thriller, deixando pelo caminho várias sementes do seu sentido de humor sardónico. Um deles, embora involuntário, não deixou de nos fazer sorrir, pois ao receber uma mensagem anónima intimidante, como que comunica directamente com o falhado Personal Shopper, de Olivier Assayas, também em competição. No entanto com resultados totalmente diversos.

Ao perceber que o violador poderá estar mais perto, ou fazendo mesmo parte dos seus conhecidos, Michelle toma algumas precauções e acaba mesmo por saber a sua identidade.

Sem revelar qualquer indício, apenas diremos que o filme adquire um novo fôlego, uma nova inspiração, talvez nem uma vingança mas algo com que ela própria saberá lidar melhor do que ninguém.

É como o tal videojogo que ela produz e que incita os programadores a colocar “mais sangue” na tela.

E não é de um jogo que se trata? Claro que sim. Sempre tratado com o mesmo ritmo, num registo de género, bem captado pelo director de fotografia Stéphane Fontaine e ambientado pela banda sonora de Anne Dudley , embora sem nunca se sobrestimar. Só não foi uma grande surpresa do festival, porque aguardávamos o melhor de Verhoeven. Felizmente, isso foi concretizado.

Grande performance de Isabelle Hupert, por duas vezes vencedora do prémio de interpretação feminina, em Cannes (em 1978, por Violette Nozière, e em 2001, com A Pianista), que não deixou de ser também uma forte candidata à 3ª Palma.

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Numa base tonal diametralmente oposta, Farhadi oferece um drama familiar em Forushande, um filme que oferece uma leitura cruzada, desde logo nas possibilidades das traduções conhecidas. O título inglês The Salesman, refere-se à proximidade que o filme tem com a peça Death of a Salesman (Morte de Um Caixeiro Viajante), de Arthur Miller, e cuja trama acaba por ter alguma influência no decorrer e desfecho do filme, ainda que a peça seja apenas aflorada de uma forma muito ténue; já a tradução francesa, Le Client aborda um aspecto mais ligado ao filme e que se lida mais de perto com a violação que já antecipámos, mas também não dissemos se existiu ou não.

É precisamente isso que trata o filme. Que começa com a necessidade de um casal sair de casa devido a uma derrocada eminente, graças a obras no terreno contíguo, forçando-os a habitar um apartamento emprestado, onde vivera uma prostituta.

Ela é Rana (Taraneh Alidoosti ), uma actriz numa companhia de teatro, e o marido Emad (Shahab Hosseini), professor, mas também actor na mesma companhia. Numa noite Rana abre a porta a alguém que não sabia dos novos inquilinos… Não sabemos exactamente o que aconteceu, mas entre Rana e Emad as personagens de marido e mulher que interpretam na peça confundem-se com as da vida real num novelo inesperado e que resultará numa nova aresta do conflito familiar.

Afinal de contas houve ou não uma violação? Foi premeditada ou tratou-se de um engano? São essas as nuances sobre as quais Farhadi se debruça, mas são também elas que reforçam mais essa componente de um guião que se sobrepõe à acção, como de resto sucedeu com o brilhante Uma Separação (2011) e anteriormente em About Elly (2009) e mais recentemente com O Passado (2013), apresentado aqui em Cannes.

A partir do momento em que a vida das personagens na peça é afectada pela realidade, passamos a viver numa espécie de limbo entre Miller e Farhadi, mas também entre todo o peso moral da classe média iraniana actual. Que apesar de viver já com algum conforto, percebe os seus limites morais, bem como os da censura que é referida de uma forma subtil, ainda que directa.

Mesmo assim, sentimos que alguns momentos são apenas ocupados com alguns diálogos menos imprescindíveis que em Uma Separação, ou quando um filho do casal entra em cena e passa a ser o alvo na nossa atenção.

Elle inicia com uma violação, Le Client, com o anúncio de que o prédio onde vivem está em risco de ruir por uma obra que faz uma escavação no terreno contíguo.

De um lado está o rastilho para o tal ambiente de comédia negra; do outro, a reverberação de algo que pode abalar os nossos pilares.

Físicos ou morais. É essa a diferença entre ambos.

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