Entrevista

“A extrema-direita está a crescer”

A afirmação é de Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, que repudia e condena a actuação do PNR
concentração frente ao Centro Comercial da Mouraria, no Martim Moniz, em Lisboa. Contra as políticas que violam os direitos humanos e sob o lema, “Direitos Iguais e Documentos Para Todos”, o protesto organizado pela Solidariedade Imigrante

Concentração no Martim Moniz, em Lisboa. Contra as políticas que violam os direitos humanos e sob o lema, “Direitos Iguais e Documentos Para Todos”, protesto organizado pela Solidariedade Imigrante – 13 Nov 2016

Os imigrantes que este domingo se manifestaram no Martim Moniz, em Lisboa, pela igualdade de direitos de cidadania, viveram momentos de tensão com apoiantes do Partido Nacional Renovador (PNR).

Em declarações ao Jornal Tornado, o dirigente do SOS Racismo, Mamadou Ba, repudia e condena a actuação do PNR que marcou para o mesmo local, à mesma hora, um protesto sob o lema “invasão de imigrantes, por uma justiça social para os portugueses”.

Mamadou Ba presenciou a agressão a dois jovens espanhóis e conta como desde o início da manifestação vários elementos, que se encontravam fora do cordão policial, tentavam provocar desacatos. Confessa que ele próprio foi alvo de atitudes provocatórias. “O que me choca é a polícia não ter feito nada antecipadamente”, relata ao criticar a passividade policial por não deter aqueles elementos que acabariam por ser vistos mais tarde ao lado dos agressores.

O activista defende que não se pode “isolar a actuação vergonhosa” do PNR, que “promove iniciativas que podem colocar em causa a liberdade de manifestação dos imigrantes mas também a integridade física de quem está a exercer o direito constitucional”.

“Independentemente da sua nacionalidade, portugueses ou estrangeiros têm o direito de se manifestarem democraticamente e isso não pode ser posto em causa por quem quer que seja, e o PNR fê-lo de uma forma cobarde, usando a violência e a força contra pessoas que se estavam a manifestar pacificamente e a exigir que seja reconhecida a igualdade de direitos”, acrescenta.

Avanços consolidados por toda a Europa

O dirigente espera que “o Estado actue de forma célere e consequente e que os responsáveis pelas agressões sejam punidos como manda a lei”. “Muitos acham que quando falamos na existência de movimentos organizados de racismo estamos a inventar. As agressões de ontem são a prova inequívoca de que a extrema-direita continua a actuar em Portugal e que o discurso racista continua a ser acompanhado de actos de violência gratuita, perpetrado não apenas por pessoas singulares mas por organizações que são conhecidas do Estado”, adianta Mamadou Ba.

Também para o activista, o que aconteceu este domingo demonstra que há quem tente condicionar o debate sobre a discriminação e o racismo institucional. “Há cidadãos que nasceram em Portugal mas que, por terem pais estrangeiros continuam a ser tratados como se tivessem nascido fora do território nacional”.

“As três atitudes concomitantes dizem muito sobre o que representa a extrema-direita: foram à manifestação convocada por imigrantes; agrediram pessoas que estavam nessa manifestação e ao mesmo tempo foram cercar a iniciativa de um partido (o Livre) que estava a debater a eleição de Trump”, sublinha.

Para o dirigente, não estamos perante um acto isolado. “A extrema-direita está em crescimento há mais de cinco anos por toda a Europa com avanços consolidados”, lembra ao referir que mesmo antes da chegada ao poder de Viktor Orbán, na Hungria, já o SOS Racismo alertava para o crescimento do neofascismo. “E a verdade é que até o Parlamento Europeu tem mais de 20 por cento de grupos organizados de extrema-direita”, lamenta.

Mamadou Ma critica, por fim, a esquizofrenia de rumos que se vive na Europa. “Continuamos a discutir políticas de muros e de acantonamento como em Calais, ao mesmo tempo que se desmantela o campo de refugiados”, ou seja, “temos a retórica de acolhimento e ao mesmo tempo práticas de exclusão com base na origem étnica”. “E se continuarmos a ter a generalização destes ideais podemos um dia acordar com a extrema-direita no poder em quase todo o lado, porque essa é a tendência”, finaliza.

Sentimentos proto-fascistas

Segundo o SOS RACISMO, um dos manifestantes espanhóis foi agredido, ficando com o lábio aberto e várias escoriações na face

Segundo o SOS RACISMO, um dos manifestantes espanhóis foi agredido, ficando com o lábio aberto e várias escoriações na face

Recorde-se que várias dezenas de associações de imigrantes tinham convocado para este Domingo uma concentração frente ao Centro Comercial da Mouraria, no Martim Moniz, em Lisboa. Contra as políticas que violam os direitos humanos e sob o lema, “Direitos Iguais e Documentos Para Todos”, o protesto organizado pela Solidariedade Imigrante reivindicava a alteração da lei, para que os imigrantes que descontam para a Segurança Social e pagam impostos se possam legalizar.

Durante a manifestação, dois espanhóis que participavam na iniciativa, foram agredidos por um grupo de cinco skin head. Segundo o SOS Racismo, os agressores acabaram por fugir antes de a PSP ser alertada para o incidente.

Apenas um militante do Partido Nacional Renovador (PNR), que desrespeitou a barreira policial foi levado para a esquadra, tendo saído mais tarde em liberdade após identificação, disse à Lusa o oficial de serviço da PSP.

“Até o Parlamento Europeu tem mais de 20 por cento de grupos organizados de extrema-direita”, lamenta Mamadou Ba

Também ao final da tarde, duas dezenas de elementos do PNR concentraram-se junto à sede do Partido Livre, perto da Praça do Chile, onde estava agendada uma sessão pública de debate intitulada “Como combater o trumpismo – notas e lições sobre a campanha nos EUA” e tentaram interromper o evento.

“A intolerância não é nem nunca será legítima. É urgente juntarmos forças para contrariar esta tendência do medo «do outro» e daquilo que é diferente, do regresso aos egoísmos nacionais e da rejeição do cosmopolitismo, da solidariedade e da fraternidade”, divulgou o Livre, em comunicado.

Para o partido, as iniciativas do PNR “reforçam a convicção de que os resultados das eleições americanas e do referendo Brexit, entre outros, permitiram uma legitimação de sentimentos proto-fascistas. É isto que nos deve realmente preocupar”. O documento deixa ainda a mensagem: “O crescente eco que o discurso populista e ultranacionalista consegue ter hoje junto de tantos cidadãos – nos Estados Unidos e não só – é angustiante e preocupante”.

Segundo a organização, cerca de três mil manifestantes estiveram presentes no Martim Moniz para exigir alterações à Lei de Imigração. Estima-se que em Portugal vivam cerca de 30 mil estrangeiros sem autorização de residência, apesar de trabalharem e descontarem.

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