Crónicas da Banda

O Ficó

Conheci-a na praia da Cabaia, olhava saudosa para o horizonte, sorrindo de fora para dentro

tribo nhanheka humbi

Chamou-me a atenção o tom da sua pele, de cor tacula, aproximei-me e sem nada dizer apenas sorri e olhei fixamente para o infinito como ela…

Em dois tempos já estávamos a conversar intimamente, contou-me que era natural do Lubango, província da Huila localizada no Sul de Angola. Pertencente à tribo nhanheka humbi; contou-me que veio apenas passar a quadra festiva com a família e que tinha de voltar rápido porque estava marcado o ritual da sua vida, o ritual que a definiria como mulher para o resto da vida.

O “Ficó” é um ritual de iniciação feminina para a vida adulta. Início da adolescência e puberdade, acredita-se que quem não é submetida a este ritual corre o risco de enterrar todos os filhos que venha a ter e não ter sorte no amor. Pois nesta cerimónia recebem-se as bênçãos para a fertilidade e maturidade, de Agosto a Janeiro (tempo das férias escolares, preferivelmente) os pais preparados marcam o Ficó para as filhas a partir dos 12 anos. Reúnem-se cerca de 20 adolescentes.

Actualmente, por causa das controvérsias entre a tradição e a religião, o Ficó, por ser um ritual obrigatório para aquele povo, foi adaptado à religião. E ela, como católica, seria submetida à cerimónia religiosa, ou seja, aproximando-se o dia, as meninas são pegas à porta da casa de surpresa numa quinta-feira, levadas à igreja e fechadas lá; só podem ser vistas pela madrinha, um membro da família.

Com os corpos semi nus, são-lhes feitas umas tranças de feitio adulto e adornadas com missangas multicoloridas, untadas no corpo todo com argila e tapadas com panos de padrões alegres.

As muficós ficam trancadas na igreja durante 5 dias, onde recebem conselhos sobre a vida adulta.

Lá fora prepara-se o banquete para a cerimónia, para cada muficó deve-se abater um boi, e nas iguarias come-se de tudo um pouco. Para as famílias menos abastadas abate-se um cabrito.

Findos os 5 dias, elas saem da confinação e vão para casa tapadas da cabeça aos pés, quem quiser vê-las deve pagar uma multa, e elas só podem entrar em casa ao pôr-do-sol. Quando tudo termina a madrinha desmancha as tranças da muficó e ela está livre e pronta para a vida adulta.

O Sol se pôs e nem notámos, de repente uma brisa fria nos lembrava que tínhamos que voltar para casa.

A autora escreve em PT Angola

Mãe dos Setinhos, em Luanda

Mãe dos Setinhos, em Luanda

Escritora

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