Ponta Delgada

Roteiro histórico e cultural I

Com uma superfície de 747 quilómetros quadrados, São Miguel é a maior ilha dos Açores. E uma viagem ao arquipélago não fica completa se deixar de lado Ponta Delgada, a sua maior cidade

Vista aérea de Ponta Delgada

Ponta Delgada nasceu a partir dos núcleos piscatórios, cujos homens, a partir de 1444, aproveitaram a mais ampla enseada da costa sudoeste da ilha de São Miguel para a sua actividade. A cidade ergueu-se em basalto, a pedra negra, muito abundante, que ainda hoje domina a arquitectura dos edifícios, quer nas ruas e calçadas.

O terramoto de 1522 permitiu a Ponta Delgada ultrapassar Vila Franca do campo na liderança comercial e na recepção das naus das Índias. Tanta actividade exigia protecção. E logo na segunda metade do século XVI, em 1552, no lugar de uma ermida de São Brás, começou a edificar-se um forte com o mesmo nome.

É já uma obra moderna, ao estilo italianizante, com os muros em talude para resistir melhor ao fogo de artilharia. Protegeu a cidade contra ataques corsários, mas não só. Foi lá que a guarnição, alinhada com a nova dinastia filipina, resistiu aos ataques do prior do Crato, pretendente ao trono. Hoje é o quartel-general da Zona Militar dos Açores e também Museu Militar do arquipélago, aberto aos visitantes. Junto ao castelo, construiu-se, ainda naquele mesmo século XVI, um porto de abrigo dos ventos ocidentais. O molhe que hoje se vê é herdeiro das grandes obras públicas que aqui se realizaram em 1861.

Epicentro das festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres

O campo de São Francisco, ali em frente, era usado pela guarnição de São Brás em treinos e manobras. Foi neste amplo terreiro que se instalaram alguns dos principais edifícios religiosos da cidade. É também o epicentro das famosas festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, uma das mais impressionantes manifestações de piedade do arquipélago. Um destino anual de romaria e tempo de regresso de milhares de açorianos da diáspora.

A igreja paroquial de São José enquadra o lado oeste daquilo que é hoje a Praça 5 de Outubro, o antigo campo de São Francisco, transformado em passeio público desde 1820, com coreto e tudo. É o maior templo micaelense e pertenceu ao convento franciscano, cuja construção se iniciou em 1709, por iniciativa de Frei Gonçalo de Jesus. É um significativo exemplar do barroco açoriano, vértice fundamental do chamado barroco atlântico, que inclui também os barrocos de Portugal continental e do Brasil.

A frontaria tem linhas maneiristas, mas num registo ricamente fenestrado. Baixos-relevos da vida de São Francisco decoram a frontaria. O interior é de três naves e a capela baptismal guarda uma escultura barroca da Pietá, a Virgem com o Filho morto nos braços. Atenção ainda à abóboda rococó da sacristia e ao seu mobiliário de madeira de jacarandá.

Na perpendicular, a enquadrar a face norte da praça, a Igreja do Senhor Santo Cristo dos Milagres e Convento de Nossa Senhora da Esperança. A procissão, o ponto alto das festas, é secular. Decorre no quinto domingo após a Páscoa e é a expressão da devoção a Cristo no passo do Ecce Homo. Segundo a tradição, a imagem que nos outros dias pode ser vista na Igreja, foi oferecida pelo Papa Paulo III, a duas freiras do Convento da Caloura, em Água de Pau, Lagoa, que foram a Roma pedir uma bula para fundar este convento.

O terreno onde foi edificado pertenceu a Fernão do Quental, ascendente do poeta Antero, que se suicidou num banco de jardim deste mesmo largo, em 1891, junto à cerca do cenóbio. Daqui, deste antigo extremo ocidental da cidade, siga, junto ao mar, até às portas da cidade. Antes da construção da Avenida do Infante D. Henrique, entre 1947 e 1956, o mar praticamente chegava até elas.

Para a próxima visita…

Os três arcos serão uma das imagens mais reconhecíveis pelos forasteiros, e datam de 1753. O viajante está a poucos passos de alguns lugares que merecem atenção ou visita. O Café Royal, o mais antigo da cidade; a Câmara Municipal, um edifício modelo para as ilhas; e a Igreja de São Sebastião, construída no século XVI, contra a peste. Mas estes três lugares ficam para uma próxima visita.

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