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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Indiferença inadmissível

Isabel Lourenço
Observadora Internacional e colaboradora de porunsaharalibre.org

Comunidade internacional abandona presos políticos em zonas de conflito.

O número cada vez mais crescente de presos políticos e o facto de que os direitos mais elementares dos direitos humanos não sejam respeitados na maioria das zonas de conflito, nem a 4ª convenção de Genebra seja implementada criam uma “habituação” …

O número cada vez mais crescente de presos políticos e o facto de que os direitos mais elementares dos direitos humanos não sejam respeitados na maioria das zonas de conflito, nem a 4a convenção de Genebra seja implementada criam uma “habituação” da comunidade internacional que leva em muitos casos à aceitação da injustiça como sendo um mal existente para o qual não parece haver remédio. Esta postura leva ao desespero de quem vive na pele a injustiça e que como último recurso não violento recorre à greve de fome.

Na segunda-feira de esta semana, milhares de presos políticos palestinianos iniciaram uma greve de fome de tempo indeterminado exigindo os direitos mais básicos consagrados nos vários acordos e convenções internacionais.

Também os presos políticos saharauis, neste caso estudantes detidos em Marraquexe iniciaram uma greve de fome.

Mais de 4000km separam estes presos, mas une-os a mesma dor e a mesma injustiça.

Tanto uns como outros são vitimas de detenções arbitrárias, sequestros, torturas, violações, e períodos ilegais de detenção sem julgamento. No caso dos Estudantes de Saharauis na prisão de Marraquexe, a detenção sem julgamento ultrapassa os 14 meses.

Tanto os palestinianos como os saharauis lutam pela independência do seu país, embora de formas diferentes e em contextos históricos, geoestratégicos e políticos distintos, mas sendo vítimas do ocupante, das forças policiais, militares e paramilitares e dos colonos introduzidos nos seus territórios. A violência exercida no dia a dia de ambos os povos é sistemática e tem como objectivo a erradicação a longo prazo de cultura e povo.

A comunidade internacional e sobretudo as Nações Unidas parecem não conseguir e não querer por fim ao sofrimento destes povos permitindo a perpetuação de dois conflitos que ao longo de décadas deixam um rasto de mortos, desaparecimentos forçados, empobrecimento das populações, uma política de apartheid e um êxodo para a diáspora além de campos de refugiados.

Greve de fome, a última bala

Foto: Abbas Momani / AFP

É pois em desespero de causa que no inicio desta semana se iniciaram mais greves de fome de tempo indeterminado, com revindicações idênticas: direito a julgamento, direito a visitas, direito a assistência médica entre outros.

A greve da fome é a última bala na arma política para qualquer ativista na luta não violenta. Existem muitos ativistas em todo o mundo que usaram essa arma para resistir à opressão e alcançar seus objetivos desejados, nem sempre com êxito.

No contexto da política internacional os mais conhecidos são, Mahatma Gandhi, e Nelson Mandela, mas também o grupo de Bobby Sands (presos políticos do IRA que pagaram com a vida) e por exemplo os mais de 1000 presos Kurdos que realizaram uma greve de 62 dias nas prisões turcas.

Os palestinianos Ahmad Abu Farah and Anas Shadid terminaram em 2016 uma greve de fome após 91 dias quando conseguiram que o governo Israelita concordasse com as suas exigências. Existem no entanto grevistas que já ultrapassaram os 100 dias de greve. O facto que no mundo árabe e na Ásia as greves de fome serem mais comuns, retira o impacto que é alcançado quando as mesmas são efectuadas no mundo Ocidental.

A greve de fome tem um longo histórico político, combina sensacionalismo com revindicação, mas também minimiza danos a outros que não estão diretamente envolvidos no conflito.

A greve de fome aberta ou de tempo indeterminado só tem eficácia quando de facto é cumprida até à última consequência que é a morte ou a satisfação das revindicações.

Segundo a Professora Russel, autora do livro “Fome: uma história anitnatural”, a greve de fome tornou-se uma forma cultural estabelecida de buscar justiça no século 20, a Professora adverte que uma greve de fome precisa do oxigênio da publicidade, mas o interesse vai diminuir se a causa em jogo não resistir ao escrutínio público.

O escrutínio público tem que sentir empatia com a revindicação, o autor da greve e a justeza da luta, algo difícil de alcançar quando se trata de conflitos desconhecidos ou de culturas com o qual o mundo ocidental não se identifica.

A greve de fome só poderá ter sucesso se a pressão e opinião pública apoiam os grevistas e despertar a atenção da comunicação social. Isso foi o caso por exemplo da greve de fome da activista e ex-presa política saharaui Aminetou Haidar, que realizou uma greve de fome relativamente curta (cerca de 33 dias) mas o local escolhido um aeroporto internacional Europeu e o facto de se tratar de uma mulher chamou a atenção dos meios de comunicação social. José Saramago, prémio nobel da literatura, deslocou-se ao aeroporto para apoiar Aminetou, um entre muitas pessoas conhecidas do mundo da política e artes.

Mais uma vez estamos perante o silêncio internacional e mais uma vez estes homens e mulheres detidos sem qualquer protecção jurídica apelam da única forma que lhes resta para que o mundo os “oiça e veja”.

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