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Terça-feira, Dezembro 6, 2022

Afeganistão: um ano de inferno Talibã

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Assinala-se na data de publicação desta crónica a retirada das forças dos EUA e seus aliados da OTAN de Cabul e sua consequente ocupação pela milícia islâmica denominada de Talibã. É por isso importante fazer um balanço do governo de facto do país pelo jihadismo.

  1. Fome, despotismo e misoginia

De acordo com os últimos dados publicados a 27 de junho deste ano pela secção americana do ‘Programa Alimentar contra a Fome’ das Nações Unidas (PAF-NU) – de longe, a sua principal componente – dezanove milhões de afegãos enfrentam uma situação de ‘fome aguda’, números que de acordo com o site do PAF-NU ultrapassam já os 22 milhões de afegãos, ou seja, mais de metade da população.

A actividade económica e os rendimentos do Estado diminuíram fortemente, estes últimos resumem-se praticamente às tarifas alfandegárias cobradas e aos impostos sobre a produção e tráfico de droga, único domínio que prospera.

Para além das consequências sanitárias associadas à miséria e à fome, o sistema de saúde está em queda livre, tanto por subfinanciamento – a prioridade dos talibã é a de financiar a sua força militar – como pela fuga generalizada de todos os profissionais, a começar pelos da saúde, como ainda pelo impacto da perseguição às mulheres.

Se os talibã denunciam abertamente a democracia como sistema perverso – dispensando, portanto, a farsa a que se entregam os seus émulos iranianos – no domínio dos direitos humanos e da liberdade de expressão, recuperadas completamente as estruturas repressivas, os talibã voltaram a impor a férrea ditadura que impuseram no país de 1996 a 2001. O site informativo sobre o Afeganistão, Gandhara, faz um balanço dramático dos desaparecimentos, prisões extrajudiciais e execuções sumárias tendo como alvo jornalistas e líderes de opinião e membros das forças armadas afegãs dissolvidas.

A misoginia – que é o traço mais característico de todo o fanatismo islâmico decorrente do Jihadismo moderno nas suas várias versões – voltou a impor-se plenamente no país. As mulheres são aconselhadas a permanecer fora de locais públicos, e a usar burka quando o façam, são proibidas de estudar acima do grau primário de instrução e são proibidas de exercer grande número de profissões, sendo em função disso condenadas frequentemente à fome e à miséria.

O Qatar – país onde os Talibã tinham a sua sede oficial – foi o país que usou o seu vasto músculo financeiro para vender a tese de que existiriam uns Talibã 2.0 diferentes dos originais. Na realidade, como o constata hoje a imprensa, é que a nova geração Talibã tem exactamente o mesmo programa e o mesmo quadro mental que a anterior, a única diferença é a de ter acompanhado a evolução dos media sociais.

Em particular, o Qatar conseguiu vender às elites norte-americanas a absurda tese de que o Afeganistão dos talibã 2.0 não se ia tornar na praça forte do terrorismo internacional, ao contrário do que tinha acontecido anteriormente, tese que ficou vertida no acordo EUA-Talibã.

  1. Al Zawahiri morto na varanda da sua casa em Cabul

O Presidente Biden reivindicou a eliminação no dia 30 de julho do sucessor de Bin Laden. Silenciando o facto de Al-Zawahiri estar a viver em Cabul é uma contradição flagrante ao tratado ao abrigo do qual o Afeganistão foi entregue aos Talibã, Biden tentou passar a mensagem inversa, a de que essa entrega em nada tinha diminuído a capacidade americana de lutar contra o terrorismo, permitindo mesmo que os serviços de informação americanos, que antes nunca tinham conseguido localizar o líder terrorista, o terem rastreado em Cabul no princípio do ano.

Seria na verdade extraordinário que os EUA (incluindo os serviços de informação) que desapareceram do Afeganistão o ano passado, e cuja principal operação antiterrorista que desencadearam depois disso se saldou num enorme fracasso atingindo vítimas inocentes quando era suposto matar operacionais do Califado, tivessem conseguido restabelecer-se rapidamente.

A verdade é que Al Zawahiri se mudou para Cabul, para junto de sua família, numa lógica de pré-reforma – O Centro Internacional de Contraterrorismo publicou dias antes, a 15 de julho um volumoso estudo sobre a sucessão de Al Zawahiri, dado como doente e praticamente reformado – e que não é de todo em todo improvável que alguma facção dos Talibã visse a sua eliminação como proveitosa.

A eliminação do velho jihadista tem como principal efeito o de tornar incontornável a abertura da luta pela sucessão na rede jihadista, fortemente enfraquecida depois da eliminação de Bin Laden e da consequente cisão do Califado. Recorde-se que os Talibã conseguiram esconder durante anos a morte do seu anterior líder, o mullah Omar, como forma de adiar e de esmorecer a inevitável luta pela sucessão.

O Afeganistão voltou a ser – e com a consolidação do seu poder, esse facto vai tornar-se cada vez mais óbvio – uma placa giratória de profissionais do terrorismo. Por enquanto, ironicamente, é o país que inventou os Talibã em 1996, o Paquistão, o que está a sofrer as principais consequências pelo facto, com os Talibã a recusar-se deixar de apoiar a sua secção paquistanesa. Esta, tinha há já vários anos entrado em dissidência com os poderosos serviços de informação militares paquistaneses, que para todos os efeitos, comandam a diplomacia do país.

Se os Talibã podem ter como prioridade o combate aos centros jihadistas rivais, desde o Califado até aos seus criadores paquistaneses, passando eventualmente mesmo pela teocracia iraniana, só por completa tontice é que alguém pode acreditar que a doutrina totalitária e global do Jihadismo que permanece incólume entre os Talibã não implica o choque frontal com o mundo livre.

  1. A ‘nova ordem internacional’ e os talibã

A tomada de Cabul pelos talibã foi saudada de forma eufórica por todos os inimigos da liberdade, a começar, naturalmente, pelos jihadistas, tendo mesmo o primeiro-ministro paquistanês do tempo proclamado a libertação dos afegãos das ‘algemas da escravatura’, sendo que a China manifestou também o seu júbilo, tendo na sua primeira declaração após a queda de Cabul declarado que ‘Taiwan se tornou agora indefensável’.

A queda de Cabul foi sentida como o descalabro do sistema normativo humanista e democrático e o alvor daquilo que foi sendo designado por ‘nova ordem internacional’, de forma convergente, mas em termos divergentes, por Xi, Putin ou Khamenei, naquilo que tenho designado nos últimos anos como novo Eixo, no sentido em que, tal como o eixo Alemanha-Itália-Japão, ter interesses imediatos coincidentes mas visão estratégica divergente.

A tomada de Cabul pelos talibã é um excelente indicador do que o eixo tem a oferecer ao mundo na sua ‘nova ordem mundial’. Manifestando o seu entusiasmo pelo fiasco ocidental, nenhum dos três países fez qualquer gesto significativo para menorizar a catástrofe humanitária afegã, assistindo de forma indiferente ao colapso do país.

A ‘nova ordem internacional’ é um projecto de poder que, a materializar-se, nos afastará totalmente de qualquer princípio humanitário reduzindo tudo à lei do mais forte.

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