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João de Sousa

Terça-feira, Maio 24, 2022

E se houver um terramoto em Portugal?

Os sismos estão longe de ser ficção criada por engenheiros. Em Itália, três fortes abalos em dois meses espalham a destruição e trazem o tema para a ordem do dia.E por cá, o que sucederia ao País se a terra tremesse como em 1755? Para já, a certeza é que a história pode voltar a repetir-se. Ninguém sabe é quando.

Se hoje ocorresse em Portugal um terramoto como o de 1755 morreria mais gente num minuto do que a guerra colonial matou em 13 anos. Esta é apenas uma das previsões avançadas por especialistas em sismologia. Facto é que só na cidade de Lisboa, mais de 200 mil pessoas correm sérios riscos. A maioria dos projectos das novas construções continuam a negligenciar os planos anti-sísmicos e as estruturas antigas foram adulteradas.

Consequências devastadoras

Para o engenheiro civil João Appleton, especialista em reabilitação de edifícios, é certo que um sismo de idêntica violência ao ocorrido naquela manhã do primeiro de Novembro terá “consequências devastadoras” nas zonas mais povoadas do Algarve, da costa alentejana, da península de Setúbal e de Lisboa e vale do Tejo. O grau de vulnerabilidade sísmica de quase todo o edificado faz “temer o pior”: “milhares de mortos, milhares de milhões de prejuízos, perdas irreparáveis de património.”


O pacote ‘low cost’ da reabilitação é um logro que me envergonha”

Ninguém poderá antever a ocorrência de um sismo em Portugal idêntico ao de 1755. E as consequências, essa são previsíveis? 
Evidentemente, não é possível prever com exactidão o que irá suceder no caso de ocorrência de um sismo com características similares ao de 1755. No entanto, é certo que as consequências serão devastadoras, designadamente nas zonas mais povoadas do Algarve, da costa alentejana, da península de Setúbal e de Lisboa e vale do Tejo.

Quando acontecer, que cenário antevê?
A deficiente conservação dos edifícios mais antigos, as alterações descuidadas neles realizadas e a falta de qualidade de projectos, fiscalizações e obras de construções recentes, fazem temer o pior: milhares de mortos, milhares de milhões de prejuízos, perdas irreparáveis de património.

Quais são, para o engenheiro, as maiores vulnerabilidades quando falamos de construção e de edifícios públicos?
Um dos grandes problemas com que nos defrontamos reside no facto de desconhecermos, de facto, o grau de vulnerabilidade sísmica de quase todo o nosso edificado, designadamente daquele que tem maior valor estratégico, como é o caso de muitos edifícios públicos.

Continua a faltar um plano sísmico para a Área Metropolitana de Lisboa?
O que existe são estudos muito genéricos, nomeadamente na região de Lisboa, que permitem ter a percepção do risco mas que, na verdade, não dizem nada às pessoas. Os portugueses estão muito longe de estar sensibilizados para estes problemas, com excepção da população açoriana que convive regularmente com a acção dos sismos.

Não há, portanto, uma verdadeira consciência dos riscos de uma catástrofe?
Com alguma ironia, eu diria que a maior parte das pessoas, em Portugal, acha que os terramotos são História e que os engenheiros os usam para justificar estudos, projectos e obras caras. Infelizmente, julgo que é um problema cultural, que dura gerações a resolver, a não ser que apanhemos um susto “valente” que nos acorde.

E como avalia o papel que a Autoridade Nacional da Protecção Civil tem tido no assunto?
Qual papel? Não tenho visto nada de relevante que possa considerar-se como contributo valioso para progressos efectivos nesta matéria.

O chamado “pacote low-cost” para a reabilitação urbana entrou em vigor em Abril de 2014, depois dos avisos de vários especialistas em medidas anti-sísmicas, que apelaram, inclusive, ao veto de Cavaco Silva. Que implicações está a ter este novo regime, que não prevê a obrigação de reforço anti-sísmico dos edifícios?
O pacote “low cost” da reabilitação é um logro que me envergonha e um fiasco na sua aplicação, já que qualquer promotor sensato não aproveita os “benefícios” que ele concede, porque conduzem a um desastre do ponto de vista comercial.

Quanto à questão sísmica ele nem é inovador, porque infelizmente os regimes jurídicos da urbanização e da edificação e o da reabilitação urbana, já contemplam essa iniquidade que é permitirem uma operação de reabilitação sem melhoria das condições de segurança estrutural, corrente e sísmica, mesmo em situações em que seja patente a debilidade das estruturas existentes.

Com alguma ironia, eu diria que a maior parte das pessoas, em Portugal, acha que os terramotos são História e que os engenheiros os usam para justificar estudos, projectos e obras caras” Ironiza João Appleton

Além do mais, esse regime foi apresentado com argumentos falsos, como sendo factor de grande dinamização da reabilitação e com poupanças quantificadas que são um autêntico logro. Os técnicos que participaram na elaboração desse documento prestaram um péssimo serviço ao País.


9h45 da manhã. Primeiro dia de Novembro de 1755. Um forte abalo de terra é sentido na cidade de Lisboa. O epicentro não é conhecido com exactidão: inicialmente aponta-se para uma zona junto ao Banco de Gorringe, actualmente calcula-se que terá sido mais junto à costa, na Falha Marquês de Pombal, entre 150 a 500 quilómetros a sudoeste de Lisboa.

O sismo de magnitude aproximada de 8.5 faz ruir edifícios e espalha destroços pelas ruas. Atinge com violência o Litoral do Algarve e Setúbal. Pouco depois das 10 horas parece que ondas de 20 metros invadem a baixa. Minutos mais tarde, novo sismo é sentido. As velas e as lareiras acesas pela cidade criam labaredas em cenário apoteótico. As estimativas divergem: entre 20 mil a 90 mil pessoas terão morrido no país. Assim reza a história daquele dia frio do século XVIII.

E se acontecesse hoje um terramoto como o de 1755?

  • De acordo com o simulador de danos sísmicos da Protecção Civil de Lisboa, o número de edifícios afectados poderia chegar aos 20 mil, e o de mortos ultrapassaria os cinco mil.
  • Já para o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), a estimativa é mais elevada. Em 2005 calculou que um terramoto de grandes dimensões pode matar entre 17 mil a 27 mil pessoas, já que a falta de resistência sísmica da maioria dos edifícios portugueses é uma realidade.
  • Segundo a Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPEC), a vulnerabilidade das construções não poupará hospitais, escolas, ministérios e grande parte de habitações privadas. Um dos poucos edifícios públicos com obras de reforço anti-sísmico foi a Assembleia da República (AR), em 2008.

Para os especialistas da SPES, um dos grandes problemas dos edifícios que nasceram depois do terramoto de 1755 reside nas transformações que estes sofreram, assim como no envelhecimento sem conservação adequada. A construção pombalina das estruturas de gaiola de madeira em triângulo foram sendo posteriormente destruídas por obras realizadas. E as construções novas não respeitam exigências regulamentares.

Vídeo publicado em 2014, pelo Smithsonian Channel da CBS, recriou a catástrofe do dia de Todos os Santos, a 1 de Novembro, de 1755

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