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Quinta-feira, Dezembro 1, 2022

Historiadora revela colaboração entre Associated Press e regime nazi

nazi
Um artigo académico publicado por uma investigadora alemã defende que a agência noticiosa Associated Press (AP) colaborou com o regime nazi de Adolf Hitler na década de 1930. A agência fornecia jornais com material produzido e seleccionado pelo ministro da propaganda nazi, de acordo com arquivos até agora desconhecidos e que foram revelados por Harriet Scharnberg, historiadora, num artigo da revista Estudos de História Contemporânea, citado pelo jornal britânico The Guardian.

Em 1933, quando os nazis chegaram ao poder, um dos seus propósitos imediatos era o de controlar não só a imprensa alemã mas também a internacional. O Guardian foi banido no espaço de um ano, e em 1935 agências noticiosas inglesas e norte-americanas como a Keystone e a Wide World Photos foram forçadas a fechar os seus escritórios no país, por terem jornalistas judeus nas suas equipas.

A Associated Press, que se auto-intitulava “o Marine Corps do jornalismo”, foi a única agência ocidental a manter-se em solo germânico durante o regime de Hitler, até à entrada dos EUA na guerra, em 1941.

Scharnberg afirma, no seu trabalho académico agora publicado, que a AP só o pode fazer porque fez um acordo de “benefício mútuo” com os nazis: cedeu controlo da sua produção noticiosa ao aceitar a “Schriftleitergesetz” (lei do editor) e ao prometer que não publicaria qualquer material “que enfraquecesse a forma do Reich no estrangeiro ou internamente”.

Ao abrigo dessa lei, a AP teve de contratar repórteres que também trabalhassem na divisão de propaganda do partido nazi; Franz Roth, um dos quatro fotógrafos recrutados naquela época, era membro da unidade de propaganda das SS nazis, cujos fotógrafos eram escolhidos pelo próprio Hitler. A AP removeu todas as fotos de Roth do seu site desde que a historiadora publicou o seu trabalho.

 

Manipulação noticiosa: casos práticos

O regime nazi teve ainda acesso ao arquivo fotográfico da AP para a sua propaganda anti-semita. O The Guardian menciona dois exemplos: a brochura “Der Untermensch” (“Os Sub-Humanos”) é ilustrada com fotos da AP e o livreto “Die Juden in USA” (“Os Judeus nos EUA”) tem uma fotografia do mayor de Nova York, Fiorello LaGuardia, com o propósito de mostrar a decadência dos judeus naquele país.

The Nazi party booklet ‘The Jews in the USA’ used an AP photograph of New York mayor Fiorello LaGuardia. Photograph: AP
“Os Judeus nos EUA” Fonte: AP

Este acordo permitiu aos nazis ocultarem alguns dos seus crimes. Scharnberg, historiadora na Halle’s Martin Luther University, afirma que a cooperação da agência com o regime de Hitler permitiu que se mostrasse uma guerra de extermínio como se fosse uma guerra convencional.

Outro exemplo da manipulação noticiosa está relacionado com a invasão da cidade ucraniana de Lviv, em Junho de 1941, pelas tropas nazis, que descobriram provas de matanças em massa pelas tropas soviéticas e organizaram “pogroms de vingança” contra a população judaica.

As fotos de Franz Roth dos mortos dentro das prisões de Lviv foram seleccionadas por ordem de Hitler e distribuídas para a imprensa americana através da AP. A historiadora revelou ao jornal britânico que “em vez de imprimir fotografias dos pogroms de Lviv, que duraram dias, com os milhares de vítimas judias, a imprensa americana teve apenas acesso a fotografias que mostravam as vítimas das forças soviéticas e os ‘brutais’ criminosos de guerra do Exército Vermelho”, frisou. “É justo dizer que estas fotos tiveram um papel em ocultar o verdadeiro carácter da guerra levada a cabo pelos alemães”, afirmou a historiadora.

 

Associated Press nega “colaboracionismo”

Confrontada com estas declarações, a Associated Press afirmou, num comunicado, que o artigo de Scharnberg “descreve pessoas e as suas actividades antes e durante a guerra que a AP desconhecia”, e que se encontra a rever os documentos nos seus artigos para “compreender melhor aquele período”.

Um porta-voz da agência disse ao Guardian que “à medida que continuamos a investigar o assunto, rejeitamos qualquer noção de que ‘colaborámos’ deliberadamente com o regime nazi”, acrescentando que em rigor, tanto a AP como outras agências noticiosas “foram sujeitas a forte pressão do regime nazi desde o ano em que Hitler chegou ao poder, até à expulsão da AP da Alemanha em 1941. A gestão da AP resistiu à pressão enquanto trabalhava para recolher notícias vitais, objectivas e rigorosas no tempo perigoso e obscuro”, insistiu.

Estas novas descobertas ocorrem a poucas semanas do 170º aniversário da AP, que se assinala em Maio, e levantam questões não só sobre o papel da agência na ocultação da verdadeira face do regime nazi na Alemanha nos seus primeiros anos, como também na relação entre a AP e regimes totalitários nos dias actuais.

Desde que a AP se tornou a primeira agência noticiosa ocidental a abrir escritórios na Coreia do Norte, em 2012, levantaram-se questões sobre a neutralidade da sede em Pyongyang. Em 2014, o site noticioso NK News afirmou que executivos de topo da agência tinham concordado, três anos, antes, em “distribuir propaganda norte-coreana produzida pelo Estado através da AP” para ter acesso ao muito rentável mercado de distribuição de fotos fora do estado totalitário.

Um rascunho de um acordo, divulgado por esse site, mostra que a AP estava, aparentemente, disposta a deixar a agência noticiosa do país a nomear um jornalista e um fotojornalista da sua unidade de propaganda para trabalhar nos seus escritórios. A AP reagiu: “seria presunçoso pensar que esse rascunho tem algum significado” e escusou-se a dar mais declarações.

Factos com significado relatados nos media ocidentais, como a ausência pública durante seis semanas de Kim-Jong Un (líder norte-coreano) em 2014, ou problemas de fome na província de Hwanghae, no sul do país, não foram cobertos pelos escritórios da AP em Pyongyang.

Quando a agência francesa France-Presse assinou um acordo para abrir escritórios na capital norte-coreana, o ex-chefe dos escritórios da AP, Jean Lee, comentou que era um sinal de que o regime estava a confiar cada vez mais na “capacidade de manter jornalistas estrangeiros sob controlo”. Porém, a AP negou ter-se submetido a censura. “Não publicamos histórias da agência de notícias da Coreia ou de algum oficial do Governo antes as revermos. Ao mesmo tempo, os oficiais são livres de dar ou negar acesso a entrevistas”, lembrou.

O antigo correspondente da agência no Camboja, Nate Thayer, disse ao Guardian que “parece que a AP aprendeu muito pouco com a sua própria história”. “Alegar, tal como eles fazem, que a Coreia do Norte não controla o que sai, é um absurdo. Existe naturalmente o argumento de que qualquer acesso a estados secretos é importante. Mas, no fim de contas, é importante revelarmos aos nossos leitores se o que estamos a relatar é baseado em fontes independentes e neutrais”, lembrou.

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