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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

64ª SEMINCI – “Espiga de Ouro” para “Öndög”, filme produzido na Mongólia, realizado pelo chinês Wang Quan’an

José M. Bastos
Crítico de cinema

Terminou na noite de sábado passado, na cidade espanhola de Valladolid, a 64ª edição da Semana Internacional de Cinema. “Öndög” (O Ovo de Ouro), filme realizado na Mongólia pelo chinês Wang Quan’na foi o grande vencedor do certame ao conquistar a ‘Espiga de Ouro’, o prémio para o melhor filme da secção oficial.

Esta obra de um dos mais destacados cineastas chineses da actualidade já tinha competido no Festival de Berlim e vencido no Festival de Ghent (Bélgica). “Öndög” passa-se numa inóspita planície mongol e é uma mistura de vários géneros – drama, comédia, romance, policial… – mas tudo isso contado num clima de grande serenidade e isolamento, numa terra onde o tempo parece não passar. Com uma pastora como figura central, uma mulher determinada, independente e senhora do que quer para o seu futuro, o filme apresenta ao espectador paisagens nuas mas de grande beleza que, com enquadramentos perfeitos, servem de cenário a uma trama lenta mas que suscita o interesse de quem a vê.

Por isso, o júri oficial da SEMINCI decidiu também atribuir o prémio para a melhor fotografia a Aymerick Pilarski, o director de fotografia de “Öndög”.

 

“A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, do brasileiro Karim Aïnouz, em grande destaque no palmarés

Vencedor da secção “Un Certain Regard” do Festival de Cannes, “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” foi muito bem acolhido em Valladolid, tanto pelo público como pela crítica. Esta é a história de duas irmãs (filhas de um casal de portugueses) que, separadas no final da juventude,  lutam para  concretizar   os seus sonhos. Isto numa sociedade carioca dos anos 50 do século XX, conservadora e patriarcal. Adaptação da obra literária homónima de Martha Batalha é uma história de mulheres que desafiam o seu tempo. Um retrato de uma sociedade, afinal não muito afastada no tempo, em que às mulheres era vedado qualquer sonho de emancipação, realização profissional, planeamento da maternidade e muitos outros.

O estigma da condição de ‘mãe solteira’ é também um dos pontos centrais deste filme que tem como banda sonora dos créditos finais (infelizmente não traduzida na cópia que vimos e ignorada pelo público que teima em não ver os filmes até ao fim) a voz de Amália Rodrigues cantando a sua “Estranha Forma de Vida”, como que comentando o filme que acabáramos de ver.

“A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” conquistou a ‘Espiga de Prata’ (o prémio para o segundo melhor filme da competição), o prémio de interpretação feminina (ex-aequo, para as duas principais actrizes do filme, Julia Stockler e Carol Duarte) e o Prémio FIPRESCI, da crítica internacional. Recebeu ainda o Prémio Sociograph para o filme que provoca maior impacto emocional nos espectadores, medido através de aparelhos instalados num grupo de pessoas presentes nas sessões.

 

“Le Jeune Ahmed”, dos irmãos Dardenne, distinguido com dois prémios

Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne eram, a par com Goran Paskaljevic e Grímur Hákonarson, candidatos a repetir a conquista da ‘Espiga de Ouro’ da SEMINCI. Não o conseguiram. Contudo, os cineastas belgas viram o seu filme “Le Jeune Ahmed” ser distinguido com o prémio Miguel Delibes para o melhor guião,     da autoria dos realizadores. A história de um rapaz muçulmano que, entrando pelos caminhos da radicalização, planeia matar a sua professora é o tema do filme que obteve ainda o prémio para a melhor montagem (prémio José Salcedo), de Marie-Helèna Dozo e Tristan Meunier.

 

Outros prémios da secção oficial

Rúnar Rúnarsson, realizador de “Bérgmal”/Echo

Levan Gelbakhiani, actor de “And Then We Danced”

Mouina Meddour, realizadora de “Papicha”

O prémio (Ribera del Duero) para o melhor realizador foi para o islandês Rúnar Rúnarsson com “Bérgmal” / Echo, já premiado em Locarno. Apontado durante grande parte da Semana como favorito para a ‘Espiga de Ouro’ este curioso mosaico-retrato da sociedade islandesa, com mais de meia centena de pequenas histórias passadas no período entre o Natal e o Ano Novo, acabou por ter um lugar destacado no palmarés. Depois de em 2015 ter obtido a ‘Concha de Ouro’ em San Sebastián, Rúnar Rúnarsson volta a sair de um festival espanhol com um importante prémio.

Levan Gelbakhiani, intérprete de “And Then We Danced” recebeu o prémio para o melhor actor. No filme de Levan Akin este actor e bailarino representa o papel de um jovem componente da Companhia de Dança Nacional da Geórgia. Na sua estreia perante as câmaras Levan Gelbakhiani encarna a figura de alguém que, enquanto persegue o seu sonho no mundo da dança, fica divido entre o afecto pela sua namorada (e seu par nos ensaios da Companhia) e a descoberta da sua homossexualidade aquando da chegada de um novo bailarino seu competidor no acesso à situação de bailarino principal.

Num festival fortemente marcado pela presença de mulheres realizadoras e por múltiplas abordagens da condição feminina em geografias muito variadas, o prémio para o melhor novo realizador da secção oficial, que até tem nome de mulher cineasta – Pilar Miró, distinguiu alguém que veste esses dois papéis: Mouina Meddour, autora de “Papicha”.  Baseado na própria experiência vivida pela cineasta nos anos 90, no início das confrontações que tiveram lugar na Argélia, “Papicha” é a história de um grupo de raparigas que vivem num ‘campus’ universitário e que, em busca da concretização dos seus projectos de vida, se vêem confrontadas com o auge do fundamentalismo islâmico. Foi este o filme vencedor do Prémio do Público.

Os prémios das curtas-metragens

‘Espiga de Ouro’ – “The Physics of Sorrow”, de Theodore Ushev

‘Espiga de Prata’ – “Movements”, de Dahee Jeong

Foram três as curtas-metragens premiadas na secção oficial. Todas filmes de animação. A ‘Espiga de Ouro’ foi para “The Physics of Sorrow”/Física da Tristeza, de Theodore Ushev (Canadá) e a ‘Espiga de Prata’ para “Movements”/Movimentos, de Dahee Jeong (Coreia do Sul).

A brasileira Camila Kater esteve presente no anúncio do palmarés e posou entre o júri e os jornalistas

Especial destaque merece o vencedor do prémio para a melhor curta-metragem europeia. Na verdade um filme brasileiro, mas europeu porque tem co-produção espanhola. Falamos de “Carne”, de Camila Kater. Outro filme de mulheres, feito por mulheres e sobre mulheres. “Carne” regista a experiência de cinco mulheres (entre elas, Helena Ignez, cineasta ícone do cinema marginal brasileiro) que contam o modo como se relacionam com o seu corpo e como essa percepção vai mudando ao longo da vida.

“O Fim do Mundo”, de Basil da Cunha, venceu na secção ‘Punto de Encuentro’

“O Fim do Mundo”, um filme suíço passado na Reboleira. Basil da Cunha quando recebia o prémio.

Basil da Cunha é luso-suíço. Vive na Reboleira. “O Fim do Mundo” é um filme de produção suíça mas tudo nele é português, ou melhor, luso-caboverdeano. Venceu o prémio para a melhor longa-metragem de secção “Punto de Encuentro” da SEMINCI, a área da programação reservada às primeiras ou segundas obras dos seus autores.

“Bik Eneich: Un Fils” de Medhi M. Barsaoui (Tunísia / França / Líbano / Qatar) recebeu uma menção especial e “Stay Awake, Be Ready” de Pham Thien Na (Coreia do Sul / Vietname / E.U.A.) foi a melhor curta-metragem. Ainda no âmbito desta secção, o prémio ‘La Noche del Corto Español’ foi para “Solsticio de Verano” de Carlota González-Adrio.

 

Outros filmes do palmarés

The Cave” de Feras Fayyad (Síria/Dinamarca/Alemanha/E.U.A./Qatar) e “Colectiv” de Alexander Nanau (Roménia), curiosamente ambos destacados no texto que publicámos sobre esta secção ‘Tiempo de História’ foram distinguidos com o primeiro e segundo prémios de longas-metragens. A curta distinguida foi “Frissons d’amour’ de Maxence Stamatiadis.

Na secção ‘Doc. España’  o vencedor foi “La Libertad es una Palabra Grande” de Guillermo Rocamora e “El Cuadro” de Andrés Sanz, também destacado em texto anterior, recebeu uma menção especial.

De referir ainda os prémios seguintes:

  • Espiga Verde – “Honeyland” de Ljubo Stefanov e Tamara Kotevska (Macedonia do Norte)
  • Espiga Arco-Iris – “And Then we danced”, de Levan Akin (Suécia/Geórgia/França)
    • menção especial: “Let  There be Light “ de Marko Skop  (Eslováquia / Rep. Checa)
  • Prémio da Juventude (secção oficial) – “The Farewell”, de Lulu Wang (E.U.A.)
  • Prémio da Juventude (secção ‘Punto de Encuentro’) – “Le Miracle du Saint Inconnu”, de Alaa Eddine Aijem (Marrocos / França / Qatar)
  • Prémio do Público (secção ‘Punto de Encuentro’) – “Bik Eneich: Un Fils” de Medhi M. Barsaoui (Tunísia / França / Líbano / Qatar)
  • Prémio SEMINCI Jovem  – “My Extraordinary Summer with Tess” de Steven Wouterlood  (Holanda)
  • Prémio ‘Blogos de Oro’  – “Intemperie”  de Benito Zambrano (Espanha / Portugal)
  • Prémio ‘Dunia Ayaso’  – Belén Funes por “La Hija de un Ladrón” (Espanha)
  • Prémio ‘Castilla y León en Corto’  – “Muedra”  de César Diaz Meléndez

 

Apreciação final

A edição de 2019 da SEMINCI teve, em nossa opinião, um balanço muito positivo. Se é verdade que na secção oficial não houve obras que se destacassem muito, o nível geral foi bastante aceitável e as decisões do júri não mereceram, desta vez, grande contestação. A principal ausência no palmarés é, em nosso entender, ‘Kiz kardesler’ / Uma História de Três Irmãs, (Turquia), de Emin Alper que nos pareceu merecer outro reconhecimento.

De resto, a registar uma programação muito vasta e diversificada, uma afluência de público assinalável com destaque para a acção que a SEMINCI vai fazendo paulatinamente entre os mais jovens (SEMINCI JOVEM e MINIMINCI) e os espaços de encontro e debate proporcionados pelo festival. Ainda sobre a programação de realçar o espaço crescente dado ao cinema feito por mulheres e sobre a sua situação em muitas sociedades marcadas pelo conservadorismo social e religioso.

Temas como as dificuldades sociais e económicas, os conflitos laborais, as guerras, os refugiados e a liberdade de criação e de pensamento passaram também pelos ecrãs da SEMINCI, um certame atento aos problemas do tempo em que vivemos. Ficamos à espera do que nos trará a próxima edição.

 



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