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João de Sousa

Sexta-feira, Dezembro 9, 2022

A alternativa democrática iraniana

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Nas vésperas da Cimeira Global do Irão Livre

Uma rede de organizações não-governamentais, incluindo a “Aliança para Renovar a Cooperação entre a Humanidade” (ARCHumankind) – a associação-mãe do Fórum Democrático da Ásia do Sul – convocou a Cimeira Global do Irão Livre, que terá lugar nos dias 23 e 24 de julho.  Este será provavelmente o evento maior deste tipo desde o comício de Paris de 2018, quando um ataque terrorista liderado por diplomatas iranianos foi frustrado.

O ataque marcou um ponto de viragem no que diz respeito às operações terroristas jihadistas na Europa, que diminuíram desde então.  Simultaneamente, assistimos também a sucessivos protestos populares no país, bem como a actividades de resistência dirigidas contra os Guardas Revolucionários Islâmicos (IRGC, acrónimo em inglês) e contra outros organismos de repressão estatal. Por outro lado, a rede de organizações promovidas pelo IRGC na região deixou de se expandir e o regime clerical parece ter apostado fortemente no seu plano nuclear como a única forma de garantir a sua sobrevivência.

O Irão foi identificado, juntamente com a China e o Paquistão, como um dos países ‘cruciais na eclosão da actual tragédia afegã’ no  programa de atividades da SADF 2022.  Num futuro previsível, é pouco provável que  a posição estratégica da China  mude substancialmente. O Paquistão pode mudar de formas importantes; no entanto, no que diz respeito a algumas questões fundamentais – nomeadamente o seu apego enraizado ao fanatismo islâmico e a preservação da sua ameaça nuclear – é pouco provável que testemunhemos transformações significativas num futuro imediato.

Uma mudança estratégica no Irão, no entanto, é muito mais provável, e esta mudança pode ter impacto em todos as frentes significativas da situação global – incluindo o Afeganistão.  Poderemos assistir ao desmantelamento do aparelho fanático islâmico iraniano, à instauração da liberdade no país, ao fim da exportação de terrorismo e fanatismo no estrangeiro e ao fim do programa nuclear iraniano.

Mike Pompeo, ex-secretário de Estado e ex-diretor da agência mais conhecida dos serviços de informação norte-americanos, apoiou o Conselho Nacional de Resistência do Irão e a sua Presidente Maryam Rajavi como alternativa ao domínio clerical. Fê-lo numa visita que fez no mês passado – desenvolvendo uma posição que tinha assumido implicitamente há quatro anos, na sua qualidade de chefe da diplomacia americana.

No dia 23 de junho, foi a vez do ex-vice-presidente dos EUA, Mike Pence, fazer uma visita à sede do Conselho Nacional de Resistência do Irão (NCRI), onde declarou:

“Viajei mais de 8.000 km da minha casa no Indiana para estar aqui hoje porque partilhamos uma causa comum: a libertação do povo iraniano de décadas de tirania, e o renascimento de um Irão livre, pacífico, próspero e democrático” (Fox News, 2022.06.23)

Mike Pompeo tem sido um dos mais informados e perspicazes analistas que temos seguido nos mais altos níveis da administração dos EUA (ver o artigo anterior da ARCHumankind).  Mike Pence é um líder político americano muito influente.  Ambos consideram a alternativa democrática prevista no plano em dez pontos para o estabelecimento da democracia no Irão, um dos elementos centrais da agenda internacional.

Esta demonstração de alto nível de apoio dos EUA à alternativa democrática à ditadura iraniana surge numa conjuntura crítica para o país e merece uma atenção particular da comunidade internacional.

O programa nuclear iraniano foi denunciado há vinte anos pelo Conselho Nacional de Resistência no Irão.  No entanto, até hoje, o Ocidente continua a não aplicar o direito internacional, preferindo antes brincar às escondidas com os governantes iranianos em relação ao  programa.  Cada jogador finge não ver o que dificilmente pode ser escondido;  o último passo neste jogo foi a posição tornada pública em 8 de junho  pelo Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atómica sobre a situação do  programa nuclear do Irão.

A comunidade internacional parece ainda esperar que o tempo modere as intenções do clero iraniano. Pelo seu lado, este último aproveitou o tempo do impasse para promover a sua expansão territorial nas suas proximidades e reprimir o seu próprio povo – escusado será dizer, nunca desistindo do seu plano nuclear. Israel – declaradamente o principal alvo da agressão nuclear do Irão  – envolveu-se numa série de ataques contra as infraestruturas críticas e os principais responsáveis dos Guardas Revolucionários Islâmicos encarregados do programa nuclear, ataques que, infelizmente, atrasaram mas não descarrilaram o desenvolvimento do programa nuclear.

À medida que a resistência árabe à expansão imperial iraniana aumenta, e à medida que a farsa de um ‘acordo nuclear de não proliferação’ é cada vez mais difícil de manter, a tentação das autoridades iranianas  de construir as primeiras bombas nucleares e de as usar para intimidar os cidadãos iranianos e ameaçar os vizinhos é forte e crescente.

O regime tem beneficiado do apoio tanto da Rússia como da China, as principais potências autocráticas do mundo; no entanto, tendo em conta os consideráveis desafios envolvidos, não é claro até que ponto estas potências estão dispostas a ir a fim de preservar o regime clerical.

As autoridades iranianas enfrentam uma nova onda de protestos populares – partindo de várias questões específicas para um protesto comum contra o princípio do regime político religioso. Contrariamente ao que aconteceu no passado, quando o clero podia usar as suas fações ‘moderadas’ e ‘conservadoras’ para recuperar  o descontentamento do público em geral ou para seccionar o movimento de protesto em diferentes grupos regionais, eteno-religiosos, o clero enfrenta agora uma resistência nacional organizada em  grupos de protesto animados por pequenas células  que destroem os símbolos do poder, desde cartazes dos líderes islâmicos até às instalações da milícia integrada do IRGC, pirateando os instrumentos de propaganda do regime e expondo publicamente detalhes do sistema penitenciário.

A multiplicação de casos em que as unidades de resistência iranianas conseguem penetrar nos sistemas de repressão e propaganda do regime, bem como os sucessos obtidos pelas autoridades israelitas na sabotagem do programa nuclear e em algumas atividades terroristas, pode ter causado a queda do poderoso líder da contrainteligência do IRGC, Hossein Taeb, na sequência da visita de Lavrov a Teerão no dia 23 de junho.

Como tenho sublinhado repetidamente, o regime iraniano tem superado os seus antecessores no que diz respeito à capacidade de desinformação, tendo sido capaz de penetrar profundamente no aparelho de decisão ocidental, nomeadamente, mas não exclusivamente, com acusações absurdas feitas contra os seus opositores. Uma recente ressurreição deste tipo de velha desinformação foi recentemente publicada pela  principal publicação do Emirato do Qatar em língua inglesa.

O regime percebeu que os principais perigos que enfrenta provêm do apoio de políticos norte-americanos à sua verdadeira oposição.  Para tentar enganá-los, como tem feito através de várias operações de desinformação no passado, tem recentemente tentado impulsionar os ‘monárquicos’ – que são inexistentes como uma força de oposição significativa – para o papel de suposta oposição principal.

A julgar pelas ações e palavras de Pompeo e Pence, este estratagema pode estar a afundar-se! A Cimeira Global do Irão Livre do próximo mês pode ser mais um passo na união dos defensores da liberdade e da democracia, tanto dentro como fora do Irão, para apoiar a liberdade num país decisivo!

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