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Quarta-feira, Junho 19, 2024

A arma da fome

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Em reacção a um ataque à sua frota do Mar Negro, a Rússia suspendeu no passado sábado o acordo sobre as exportações de cereais dos portos ucranianos, facto que, segundo a imprensa ocidental, gerou pronta condenação internacional e fez disparar prontamente os preços do milho e do trigo.

Enquanto a ONU e a Turquia tentam salvar o acordo de exportação de cereais da Ucrânia e a França aposta numa rota terrestre, através da Roménia e da Polónia, a Ucrânia mantém-se fiel ao habitual registo das suas declarações e, entre o tonitruante e o bombástico, acusa a Rússia de recorrer a falsos pretextos (como se alguém destruísse a sua própria marinha), insta-a a respeitar o acordo enquanto a acusa de usar a arma da “fome”.

Lendo o Relatório Global Sobre Crises Alimentares, publicado pela ONU em Maio deste ano, onde se anuncia que a fome cresceu mais de 20% no mundo e atinge 193 milhões de pessoas, comprova-se o exagero das acusações ucranianas. O problema da malnutrição no Mundo não é fruto da sua guerra com a Rússia (os dados do relatório da ONU referem-se a 2021) nem do bloqueio russo às suas exportações cerealíferas.

Claro que numa conjuntura bélica que envolve dois dos principais produtores mundiais de cereais e oleaginosas, a situação global não pode senão agravar-se, mas ouvir o lado ucraniano falar em armamentarização da fome raia o absurdo, quando este é um problema antigo, terá como origem a crescente concentração da produção e da comercialização, e o seu agravamento antecede em muito o actual conflito.

Curiosamente, ou talvez não, o que nunca se ouve referir é a verdadeira origem dos cereais retidos em território ucraniano, depois que o actual governo facilitou às multinacionais do agronegócio mundial (como a Monsanto, a DuPont e a Cargill) o acesso às ricas e férteis terras ucranianas através de grandes oligarcas intermediários, nos termos exigidos por um empréstimo garantido pela UE que obrigou a liberalização do seu sector agro-alimentar a investidores estrangeiros e ao agronegócio ocidental, num ano em que, segundo a Grain (organização internacional sem fins lucrativos que trabalha no apoio ao campesinato e á agricultura de pequena dimensão), os pequenos agricultores ucranianos que já só detinham 16% das terras agrícolas eram responsáveis por 55% da produção agrícola nacional.

Do mesmo modo que é largamente sobrevalorizada a importância global das produções agrícolas dos países envolvidos no conflito (Rússia e Ucrânia representam em conjunto, 19 % do fornecimento de cevada, 14 % de trigo e 4 % de milho do mundo, sendo ainda os principais fornecedores de colza e mais de metade do mercado mundial de exportação de óleo de girassol) para fundamentar uma subida generalizada dos preços, quando na realidade o que devia ser denunciado e combatido é a estrutura especulativa que se esconde por detrás dos mercados de futuros (no caso vertente o dos produtos agrícolas) e dos mecanismos de produção e de distribuição global, que lucram despudoradamente com a situação, a ponto de o recente anúncio da retoma do acordo de exportações de cereais não representar mais que outra oportunidade de novos lucros.

Raramente referido é também o facto das sanções económicas aplicadas pelo Ocidente à Rússia estarem a produzir efeitos na redução nas exportações de produtos agrícolas e de fertilizantes (a Rússia é o principal produtor mundial de fertilizantes), com influência directa nas produções agrícolas dos países mais pobres e nas carências alimentares que neles se podem já antecipar, embora a UE sempre tenha rejeitado a existência de sanções sobre tais produtos e a normalização desse comércio também estivesse incluída no acordo Rússia – ONU – Turquia sobre as exportações ucranianas.

A alta dos preços dos produtos agrícolas (que não surgiu depois da guerra, uma vez que os preços mundiais do trigo e da cevada já tinham aumentado 31% ao longo de 2021 e os dos óleos de colza e de girassol subiram mais de 60%) agrava ainda mais a já difícil situação dos quase 200 mil milhões de pessoas que pelo mundo fora sofrem de graves carências alimentares e todos os envolvidos no conflito ucraniano – Rússia, Ucrânia, EUA, Reino Unido e UE – são fortemente responsáveis pelo previsível agravamento daquele número, mas uma verdadeira solução para o flagelo da fome não passa pelo fim do conflito, mas principalmente pela extinção dos interesses financeiros, industriais e especulativos que cercam as economias e particularmente a produção e a distribuição de bens alimentares.

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