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João de Sousa

Quarta-feira, Fevereiro 8, 2023

A bomba suja

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Para responder a estes desafios, o Ocidente precisa de reforçar o apoio à resistência ucraniana, precisa de conseguir vencer a guerra da comunicação e acima de tudo de dirigentes determinados, informados, inteligentes e firmes.  

  1. Varrer a desinformação

A desinformação – lembremos que como explica Vladimir Volkov, se trata de uma expressão criada pelo KGB, a ‘dezinformatsiya’, que se aplicaria, claro, à CIA, não ao KGB – submerge a agressão imperial russa.

Assistimos a três explosões quase simultâneas de gasodutos russos para a Europa com o Kremlin – e aqui encontrando eco não só no lobby putinista mas também nos serviços de informação franceses – de que se tratava obviamente de um atentado contra a Rússia mas, curiosamente, quando assistimos a um novo atentado múltiplo, no Mediterrâneo e no Mar do Norte, cortando cabos submarinos com fibra óptica, ninguém se lembrou de dizer o contrário.

Tanto num caso como noutro, irá ser difícil chegar a conclusões probatórias indesmentíveis, e mesmo se isso for feito, a desinformação sobre os ataques já produziu o seu efeito, pelo que iremos ter de nos contentar com conclusões probabilísticas de pequenos efeitos públicos.

Temos agora a ‘bomba suja’ que, claro, seria um maquiavélico plano ucraniano de autodestruição posto a nu pelos serviços de informação russos herdeiros do KGB.

Bomba suja é o termo que se aplica a um dispositivo com carga explosiva convencional aplicada a material radioactivo sem a intenção de fazer com que este seja o agente da explosão. Existe muita literatura de ficção sobre o assunto, na sua esmagadora maioria feita para esconder o óbvio: a forma mais simples de fazer uma bomba suja é provocar uma explosão convencional junto de um dispositivo nuclear civil, em especial junto dos imensos depósitos de lixo nuclear que lhe estão associados.

Apesar de isto ser fácil de entender, as autoridades europeias apenas em 2016 começaram a dar atenção ao assunto, na sequência da onda de atentados em Paris e Bruxelas (ver aqui, por exemplo) e só em 2022 é que as autoridades belgas proibiram, finalmente, a fotografia de centrais nucleares.

Nos manuais de defesa relativos à guerra nuclear ignora-se também este facto, fazendo-se uma catalogação de armas nucleares como tácticas e estratégicas passando por cima da constatação de que antes de umas ou outras, o primeiro e mais simples passo é o de provocar uma explosão junto de um reactor civil ou de um dos imensos depósitos de combustível usado ou por utilizar que lhe estão associados.

A razão pela qual também no Ocidente se escondem os riscos colocados pelas centrais nucleares, que podem ser facilmente transformadas em bombas sujas por grupos terroristas e mais facilmente ainda por Estados apostados na guerra nuclear, é a de defender os interesses da indústria nuclear.

  1. A declaração de Chernobyl

Interpretei a tomada da central nuclear de Chernobyl, primeiro alvo da invasão começada em fevereiro, como uma ameaça de utilização da bomba suja (Tornado, 2022.03.14), e vi no bombardeamento e tomada subsequente da maior central nuclear europeia – a de Zaporizhzhia – a confirmação dessa intenção.

Apesar da relativa clareza da ameaça, o Ocidente fez de conta que não ouviu e veio de resto a valorizar uma possível referência a armas nucleares tácticas, algo que no plano estritamente militar não faz sentido, pela pequena concentração e distância das forças em confronto, e a desvalorizar as permanentes referências a uma guerra nuclear de responsáveis russos.

Aparentemente, o objectivo russo era mesmo o de tentar criar o pânico perante essa possibilidade, dado que a Rússia gritou agora mais alto a sua ameaça (claro que culpando o adversário, como é costume), levando a questão ao Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A utilização de uma bomba suja no presente cenário de guerra – a menos que o alvo seja em território da União Europeia, por exemplo, em Tihange, perto de Bruxelas, como planeavam os jihadistas em 2016 – implica, entre outras coisas, um grande desprezo pela vida humana das suas forças no terreno, e foi isso mesmo que a Rússia demonstrou ao pôr os seus soldados a cavar trincheiras em terra altamente contaminada de Chernobil.

Numa invasão em que a mentira tem sido a norma, a atenção desmesurada e o entendimento literal das declarações russas não faz sentido, trata-se antes de saber responder de forma clara como se reage à ameaça de desencadear uma guerra nuclear com bombas sujas por parte da Rússia.

Quando da penúltima ameaça nuclear feita pela Rússia, o Presidente Macron declarou que não reagiria – o que é um convite para uma guerra nuclear – enquanto a Administração Biden reagiu de forma difusa. Valeu na circunstância o General Petraeus – que tem na matéria apenas estatuto moral – que garantiu que em caso de guerra nuclear, as forças russas seriam varridas da Ucrânia pelos EUA.

Trata-se agora de dizer de forma tão frontal quanto o fez o General Petraeus qual a retaliação dissuasora programada para o desencadeamento de uma guerra nuclear por bomba suja. Para fazer face a Putin, é necessária clareza e firmeza, não declarações que revelem pusilanimidade.

  1. O prolongamento da guerra

Na última campanha imperial, a Rússia surgiu como o aliado providencial das brigadas internacionais dos Guardas Revolucionários Islâmicos comandadas por Teerão. A oposição democrática síria tinha sido esmagada, tendo passado a ser dirigida por grupos islamistas de várias tendências, apoiados pela aliança entre a Turquia e o Qatar.

O poder convencional russo revelou-se determinante na aliança com o Irão e o ditador local para esmagar a população, levando à fuga ou à morte de metade da população do país, e foi a reprodução dessa vitória que a Rússia tentou obter na Ucrânia.

Posto isto, convém lembrar que a guerra da Síria se arrasta há mais de dez anos, que a Rússia mostrou um total desprezo por convenções internacionais sobre a guerra e pelo enorme sofrimento que causou à população, bem como pelo facto de a sua vitória ter deixado um país em ruínas onde não se vislumbram sinais de recuperação.

A derrota na primeira fase da guerra, os enormes prejuízos económicos, diplomáticos e políticos da Rússia sofridos nesta fase prévia à entrada em campo dos Guardas Revolucionários Islâmicos iranianos, não significa por isso que a Rússia se considere derrotada.

Se é claro para todos que no plano convencional o exército russo não tem qualquer hipótese de vencer o seu adversário, a questão é que não é necessariamente aí que se trava o essencial da guerra.

Os mísseis de cruzeiro russos e os drones iranianos fustigam a população e as infra-estruturas, confiando na lógica apaziguadora ocidental que não permite à Ucrânia responder do mesmo modo ou, em alternativa, responder eficazmente ao ataque. A determinação da resistência ucraniana leva a crer, contudo, que esta campanha de terror não vai ser vitoriosa.

Com a guerra do gás, a Rússia tentou vencer economicamente a Europa, mas tudo aponta para o falhanço dessa arma, mesmo após a explosão dos gasodutos.

A escalada nuclear, a aliança com os guardas revolucionários islâmicos e uma eficaz campanha de desinformação aliada à subida do espírito de rendição são a única forma como Putin pode aspirar a inverter o rumo dos acontecimentos.

Para responder a estes desafios, o Ocidente precisa de reforçar o apoio à resistência ucraniana, precisa de conseguir vencer a guerra da comunicação e acima de tudo de dirigentes determinados, informados, inteligentes e firmes.

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