Diário
Director

Independente
João de Sousa

Domingo, Novembro 28, 2021

A corporação monopolista que provocou a Revolução de 4 de Julho de 1776

Nélson Abreu, em Los Angeles
Engenheiro electrotécnico e educador sobre ciência e consciência. Descendente de Goa, nasceu em Portugal, e reside em Los Angeles.

As acções de desobediência civil lideradas por Gandhi antes da independência da Índia são bem conhecidas. Na altura, foram comparadas a um acontecimento simbólico do dia 16 de Dezembro de 1773 que será para sempre recordado como o instigador daquela que foi a primeira Revolução Liberal da história da humanidade.

O Boston Tea Party, em português, a Festa do Chá de Boston, funcionou como uma forma de protesto contra o poderio de uma mega- corporação monopolista, protegida pela coroa inglesa, sob as colónias norte-americanas. Ainda hoje, o café é mais popular do que o chá.

Há quem acredite que os endividados do sul da Europa, oprimidos pelo poderio das mega-corporações financeiras e monopolistas e seus governos comprados, deveriam reclamar a violação dos seus direitos defendidos em papel mas não em realidade, afirmando a sua dignidade e liberdade com as suas próprias “festas do chá,” livres de violência, mas cheios de simbolismo e desobediência.

Hoje, o método princípio de abuso é a forma como o dinheiro é criado e investido. A dívida que resulta do sistema bancário por design, das rendas de monopólios e de risco de investimentos à “casino” cai sobre os contribuintes. Entretanto, os lucros em grande parte vão para o ultra-ricos que compram legislação para pagar menos impostos, mesmo que signifique cortes para o 99% porque “não há dinheiro.” Aqueles que mais precisam de investimento para realmente produzir e contribuir, não não têm acesso ou só com um custo proibitivo – em cima das dívidas e taxas pesadas. Aqueles que menos precisam, tem acesso quase ilimitado para apostar com o que não é deles sem sofrer consequências.

O Tea Party de hoje poderá ser uma moeda digital paralela, que é controlada por um conselho descentralizado dos cidadãos, com consulta a especialistas, nem nas mãos de políticos, nem em mãos mega-capitais, que pode regular a criação, empréstimo e investimento desta moeda digital que pode ser usada dentro de determinadas regiões, países ou alianças de países. Na Escócia já se considerar algo assim. Com ou sem Festa do Chá, vale a pena lembrar 16 de Dezembro de 1773.

1773: A Festa do Chá em Boston

No dia 16 de Dezembro de 1773, os habitantes das colónias norte-americanas rebelaram-se contra uma decisão arbitrária da metrópole inglesa, atirando 45 toneladas de chá ao mar no porto de Boston.

Há mais de 250 anos, várias regiões do nordeste da América do Norte ainda eram dominadas pela Inglaterra. Os imigrantes das colónias gozavam de poucos direitos, e o produto do seu trabalho servia a um único objectivo: enriquecer a metrópole. A Inglaterra cobrava impostos das colónias sobre produtos como chá, açúcar, vinho, papel e tinta.

Os imigrantes se perguntavam na época se era legítimo deixar-se comandar pela coroa dessa forma, mesmo sem estar representado no Parlamento inglês. Vários deles começaram então a exigir a extinção dos impostos enquanto não pudessem ter representantes participando das decisões governamentais [“No taxation without representation” – “Não aos impostos sem representação”].

Boicote

A resistência contra a metrópole crescia a cada dia. Em 1768, John Dickinson escreveu a primeira canção patriótica dos Estados Unidos, a Liberty Song (“Canção da Liberdade”). Na época, foi iniciado um verdadeiro boicote aos produtos ingleses. As mulheres norte-americanas, por exemplo, começaram a tecer seus próprios panos, deixando de comprar tecidos ingleses.

Os imigrantes passaram a evitar até mesmo o consumo do chá e do açúcar vindos da Inglaterra. O comércio era dominado em grande parte pelos traficantes, como o famoso John Hancock, que obviamente não cobravam impostos. O governo inglês, por sua vez, forçado a reagir rapidamente, decidiu em 1770 extinguir todas as taxas especiais cobradas das colónias americanas. Restaram apenas os impostos sobre o chá inglês.

Principal produto de consumo da sociedade norte-americana da época, o chá era apreciado não só pela elite, mas por todas as camadas da população. Exactamente por isso, a insistência da metrópole no imposto sobre o chá causou grande irritação entre os imigrantes nas colónias. Essa irritação cresceu ainda mais quando o governo inglês, em maio de 1773, deu à Companhia da Índia Oriental (East India Company) permissão para vender sua produção de chá sob condições especiais à colónia.

Privilégios

Interessada em ajudar a companhia, a metrópole inglesa permitiu que ela deixasse de pagar taxas alfandegárias, em função das dificuldades financeiras em que se encontrava. Outros comerciantes das colónias temeram que a Companhia da Índia Oriental pudesse passar a monopolizar o mercado e opuseram-se então, por razões económicas, à entrada desse chá no país.

Enquanto os navios da companhia aportavam em Nova York, Filadélfia, Charleston e Boston, os comerciantes locais organizavam movimentos de resistência. Em duas cidades, os navios foram obrigados a retornar ao destino de origem.

Apenas em Boston, o governador conseguiu fazer com que o chá fosse desembarcado. Na noite do dia 16 de Dezembro de 1773, cinco mil pessoas reuniram-se na cidade para protestar contra a decisão oficial.

Protestos

Um grupo de 50 a 100 homens, fantasiados de índios, foram até o porto de Boston, esvaziaram os navios e atiraram cerca de 45 toneladas de chá ao mar. George Hewes, um dos participantes da acção, descreveu mais tarde o ocorrido: “De manhã, depois que nós atiramos o chá ao mar, descobrimos que ainda havia grandes quantidades boiando sobre a água. Para evitar que qualquer pessoa pudesse pegar esse chá para uso pessoal, foram enviados três pequenos barcos a todos os lugares onde ele ainda podia ser avistado. Ali, os homens empurravam o chá com remos, até que ele ficasse completamente molhado e, com isso, inaproveitável.”

O acontecimento ficou conhecido em todo o país sob o nome de Boston Tea Party (Festa do Chá de Boston). Os homens que lançaram o chá ao mar foram imitados em várias outras cidades do país e acabaram ficando conhecidos como os primeiros heróis do movimento pela independência dos Estados Unidos.

Segundo explica o alemão Hartmut Keil, especialista em assuntos relativos à América do Norte, “a maioria desses homens era de trabalhadores braçais, entre eles operários da construção civil, pintores e carpinteiros. Alguns intelectuais estavam também presentes – um professor e um médico, por exemplo –, o que prova o alcance da manifestação”.

Após o ocorrido, o governo inglês puniu severamente os habitantes de Boston, fechando o porto da cidade e delegando aos militares o direito de ocupar casas de civis.

Em resposta, 12 das 13 colónias uniram-se naquele que ficou conhecido como o Primeiro Congresso Continental. Durante a reunião, discutiram alternativas, entre as quais o boicote ao comércio britânico, e escrevem uma carta ao rei George III, denunciando as injustiças e o grau de excessividade das medidas tomadas.

Sem o apoio do rei, as colónias voltaram a reunir-se em 1775, no segundo Congresso de Filadélfia. Foi neste encontro que Thomas Jefferson escreveu a famosa Declaração da Independência dos Estados Unidos, promulgada um ano depois no dia 4 de Julho de 1776.

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -