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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

A crise sistémica global e o regresso à realidade

Arnaldo Xarim
Economista

A crise do subprime despoletada em 2008 não provocou apenas uma avalanche de falências e de desemprego como não se via há duas ou três gerações, lançou também um primeiro sinal claro do fim da supremacia mundial do Ocidente (leia-se EUA e Europa) e da premente necessidade de iniciar um processo multipolar em que o mundo e os seus problemas sejam partilhados entre actores tão diferentes como a China, a Europa ou até mesmo a África.

A crise sistémica global então iniciada tem revelado as enormes limitações de uma retórica superagressiva do Ocidente – que gasta o seu tempo a apontar o dedo aos novos poderes que, de forma despudorada e sistemática, acusa de expansionismo e neocolonialismo enquanto continua a pilhar todo o dinheiro disponível para ajudar um punhado de grandes empresas tecnológicas por intermédio dos seus mercados financeiros – que desde então tem mantido o mundo à beira do precipício. Porém, esta loucura instalada poderá estar em vias de desaparecer e o duro choque da realidade pode estar para breve.

Há uma boa dúzia de anos que o Ocidente se tem esforçado para entender a mensagem da crise de 2008, que veio revelar as fragilidades da moeda hegemónica (o dólar norte-americano), das organizações internacionais e dos mercados financeiros dominados pelo Ocidente, dos fluxos comerciais centrados nos Estados Unidos e na Europa, que aponta para a necessidade de uma rápida substituição da rede de comércio global criada durante a primeira metade do século 20 e assim evitar o colapso provocado pelas contradições que a atravessam.

Ainda que assim possa parecer, nada disto são questões de pormenor, especialmente numa óptica ocidental desejosa de manter a posição de dominância quando os EUA e a UE, com cerca de 800 milhões de habitantes, não representam, muito mais que um décimo de uma população mundial que se aproxima rapidamente dos 8 mil milhões.

O próprio Ocidente está dividido entre uma Europa que já assimilou e interiorizou a perca da posição de dominância (cujo esboroamento data da I Guerra Mundial e até parece estar a consegui-lo com algum sucesso e a mostrar que o mais importante não é a dimensão) e uns EUA que, apoiados nos seus think-tanks e noutras agências de estratégia, parecem preterir a opção por uma efectiva minimização dos prejuízos ou até um mero retorno à realidade em benefício de outra que alimenta um atrito desaforado e insensato, que em nada os ajuda, salvo no esgotamento das forças que lhes restam.

Fortes na lógica que os tem conduzido – o sonho da democratização global, a fantasia da supremacia energética e a ilusão da dominação do mundo digital – continuam a apostar nos eixos estratégicos que há décadas vêem a esgotar literalmente uma América cuja riqueza produzida é capturada pelos mega-ricos e apenas alimentou uma megalomania nacional sem qualquer retorno do seu investimento.





Uma das reviravoltas mais surpreendentes poderá rapidamente surgir numa área tecnológica onde a supremacia norte-americana sofre forte contestação, como se comprova no caso da navegação por satélite com a concorrência lançada pelo sistema europeu Galileo (para mais com a inegável vantagem deste não ser um sistema de gestão militar, como é o caso do sistema GPS norte-americano ou do GLONASS russo) ou pelo chinês BeiDou, cuja conclusão foi este ano anunciada. Outra importante área é a da transição energética (particularmente no caso dos transportes) e do efeito que poderá ter na preponderante indústria da produção petrolífera e da construção automóvel, que se apoiam mutuamente numa desesperada tentativa de sobrevivência e de manutenção das elevadas rentabilidades a que habituaram os seus accionistas.

Embora a reviravolta mais surpreendente possa ser a tecnológica, não serão de excluir efeitos, de intensidade e duração variável, nos mercados financeiros e de matérias-primas.

Mais antiga, mas não menos fatídica e deprimente, é a utopia da democratização global que não só justificou guerras e outras agressões como tem levado à erosão dos próprios valores democráticos num império americano cada vez mais maltratado e sujeito à derisão de opositores e aliados.

A sociedade norte-americana parece exaurida e a precisar desesperadamente que as suas elites se interessem e empenhem pelo seu futuro, enquanto a paz e a coexistência precisam que a antiga potência hegemónica encontre o seu lugar numa ordem multipolar reconhecida e aceite pela maioria dos membros da comunidade internacional.


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