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João de Sousa

Domingo, Outubro 24, 2021

A deriva venezuelana portuguesa

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Como aconteceu com as restantes ondas populares revolucionárias inspiradas na revolução bolchevique, a revolução bolivariana de Hugo Chávez partiu com as melhores intenções sociais.

  1. A revolução bolivariana

Como aconteceu com as restantes ondas populares revolucionárias inspiradas na revolução bolchevique, a revolução bolivariana de Hugo Chávez partiu com as melhores intenções sociais. Vinda de um país que tem das maiores reservas mundiais de petróleo e coincidido no tempo com a subida do seu preço, a revolução bolivariana pode manter alguma popularidade e adiar a imposição de medidas ditatoriais por mais tempo que as suas congéneres passadas.

Reivindicando-se simultaneamente de Bolívar e Marx – passando portanto por cima do facto de Marx ter esconjurado explicitamente Bolívar – o ‘chavismo’ nunca teve qualquer pretensão à consistência doutrinária, permitindo-lhe por isso estabelecer uma sólida aliança com a extrema-direita iraniana, mantendo apenas o apego ao poder e o antiamericanismo.

Tendo conseguido levar à ruína a exploração petrolífera e conduzido o povo à fome e à miséria, sobrevive à custa de uma ditadura sanguinária sobre a população e ao apoio dos seus aliados, sobretudo o Irão, país que mantém com a Venezuela uma profunda união estratégica.

Tendo estagiado com as FARC antes de ser eleito, Chávez fez de Cuba o seu primeiro aliado e do Irão o segundo, com a Líbia de Khadafi ou a Bielorrússia de Lukashenko aliados de ocasião, tendo mantido com a Rússia e a China importantes parcerias.

A imbricação da Venezuela com o Irão é quase total, passando pelo petróleo, tráfico de droga e alimentação de grupos armados na América do Sul e no mundo árabe, tendo mesmo o cargo de Vice-Presidente da Venezuela chegado a ser ocupado por um representante do Hezbollah.

Na divisão de trabalho entre o Irão e a Venezuela, esta última assumiu o primeiro plano nas relações com o mundo ibérico.

  1. Os negócios

Sendo Jaime Gama Ministro dos Negócios Estrangeiros, Portugal agraciou em 2001 Hugo Chávez com a Ordem do Infante D. Henrique quando este visitou Portugal, no contexto de uma viagem que o levou também ao Irão e outros países, como a Síria e a Líbia.

Daí em diante, e até 2018, a Venezuela ocupará um lugar central mas pouco conhecido nas relações externas portuguesas a tal ponto que só por mero acaso elas vêm a lume, como se deu com o célebre episódio do ‘pernil de porco’.

Do que é conhecido, há a destacar o papel da Venezuela (e do Irão) no negócio de contrapartidas dos submarinos; o negócio petrolífero com a Petrogal de 2010 a 2012 (uma vez mais paralelo ao negócio iraniano); a contratação da construção de 50.000 casas e enormes relações financeiras que começaram pela CGD e que se centraram depois no BES, incluindo uma soma de mais de 5 mil milhões de euros que desapareceram para abrigos fiscais sem registo.

  1. De Portugal para Espanha

Foi notícia de primeira página na imprensa do jornal vizinho a acusação pelas autoridades espanholas a um antigo embaixador espanhol em Lisboa e Caracas que teria subornado pela empresa estatal venezuelana (PDVSA) no contexto da conclusão do contrato com a Petrogal.

Em Portugal, recebeu apenas destaque o pagamento por esse mesmo embaixador a dois políticos dos dois maiores partidos, algumas centenas de milhares de euros.

Na verdade, tudo indica que se esteja aqui a falar de meras migalhas em negócios que envolvem subornos muito mais volumosos feitos em Portugal e, muito mais importante do que isso, contrapartidas em contratos a empresas (como o dito cujo pernil e a habitação social) e sobretudo, a importantes negócios financeiros.

Estou mesmo convencido que se trata aqui dos mais significativos esquemas de corrupção em Portugal tanto quanto às consequências económicas, políticas e financeiras como, tanto ou mais importante do que isso, geopolíticas, com o enfeudamento de Portugal ao eixo irano-venezuelano.

Pouco depois destas notícias, deu-se em Espanha o chamado ‘Delcygate’ que foi silenciado entre nós. Contrariando a legislação europeia de direitos humanos que proíbe os dirigentes venezuelanos directamente responsáveis por crimes humanitários de pisar solo europeu, o Governo espanhol, através do Ministro dos Transportes, recebeu-a no aeroporto de Madrid, havendo notícias do trânsito de malas não inspeccionadas.

O tema foi debatido no parlamento espanhol e foi levado ao Parlamento Europeu onde se transformou num típico circo direita-esquerda que passou por cima de todas as questões essenciais. Se em Portugal todo arco governativo está envolvido na teia irano-venezuelana, em Espanha, trata-se do Podemos e do PSOE, o que quebra o pacto de silêncio que existe em Portugal mas esvazia o debate de conteúdo real.

O tapete vermelho estendido pelas autoridades espanholas não é seguramente alheio à nova presença do Podemos no Governo. O Podemos é um partido inventado e financiado pelas autoridades venezuelanas e de que o seu dirigente foi funcionário da televisão estatal iraniana e cuja agenda é abertamente alinhada com Teerão.

Na mesma altura, o regime venezuelano acusou a companhia aérea portuguesa de transportar material explosivo para a Venezuela, presumivelmente para desencadear acções armadas. Trata-se de uma acção típica do regime iraniano, copiada aqui pelo seu aliado, que pressiona as suas vítimas acusando-as de fazer o que ele tem a intenção de vir a fazer.

Veremos se o Governo de António Costa terá a coragem para resistir à chantagem. Melhor ainda seria se tivesse a coragem de desmontar toda a teia de corrupção e de interesses irano-venezuelanos que minaram a sociedade, a economia e a política portuguesas, mas isso é seguramente pedir de mais.


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