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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

A esquerda e os desafios ambientais

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

A social-ecologia deve estar no centro das nossas atenções e ser livre, informada e responsavelmente tomada em conta numa nova esquerda de futuro.

  1. A nova identidade socialista

Os socialistas franceses mudaram o seu logo para passar a ser identificados como o partido da ‘social-ecologia’! É uma transformação que necessita de ser bem acompanhada e entendida – paralelamente a outra não menos importante de demarcação do PSF em relação ao fascismo islâmico – e que a meu ver deveria ser vista como uma revolução decisiva na esquerda democrática.

Dir-me-ão que o PSF é hoje um partido insignificante. É uma verdade que necessita de ser vista no seu contexto. O socialismo italiano foi o primeiro a explodir como epicentro da corrupção da ‘Tangentopolis’; o grego desapareceu na tempestade da austeridade e corrupção; o britânico foi tomado de assalto por um ex-colaborador da televisão oficial dos guardas revolucionários islâmicos; o português está profundamente minado pela corrupção irano-venezuelana e corre o risco de vir a ser tomado pela ‘Miss-Teerão’; o espanhol caiu nas mãos do partido irano-venezuelano ‘Podemos’; o alemão caiu tão baixo como o francês sem qualquer reforma; os do BENELUX e da Escandinávia estão entre o apaziguamento do fascismo islâmico e a consensualização do Estado Providência, sendo que noutras latitudes a degeneração ou falta de presença é maior ainda.

E se muita coisa mudou em 170 anos, a visão de Marx que colocou o seu epicentro no pensamento político francês, continua de certa maneira válida e, também por isso, temos de olhar seriamente para a ‘social-ecologia’ do PSF, ou seja, para uma perspectiva política onde as questões sociais devem ser colocadas a par das visões ambientais, ou melhor, como indissociáveis.

Não, não se trata de aderir ao politicamente correcto ou de fazer suas as teses ambientais mais radicais, trata-se de entender que o desafio ambiental é de tal forma importante que não pode haver esquerda, não pode haver combate social que não o coloque no seu centro.

A preservação da biodiversidade, a reformulação dos nossos circuitos agro-alimentares, industriais e domésticos de forma a minimizar impactos ambientais negativos e promover o bem-estar humano é um desafio político central com que estamos confrontados.

  1. Agarrar o ambiente e não se tornar prisioneiro da manipulação ambiental

O respeito pelo ambiente tornou-se tão incontornável nos dias de hoje que não há praticamente ninguém que o ignore; o problema é que em vez de termos uma oposição frontal, se tornou mais fácil a pretensão de cumprir regras ambientais – o chamado green washing – em vez de olhar para a substância da questão.

O faz-de-conta assume infindáveis formas, umas mais sofisticadas do que as outras, do detergente ao compromisso político passando pelos programas informáticos instalados nas viaturas para falsificar as emissões de gases nocivos, sendo que a mais difundida e mais perigosa me parece ser a monomania climática a que tenho feito alusão frequentemente, nomeadamente nas minhas crónicas no Tornado.

Na monomania climática, não estamos perante um problema de juventude radical, porque isso não é de resto um problema, é mesmo a parte essencial para a mobilização social para a defesa do ambiente; estamos antes perante uma tentativa de desviar a energia ambiental da juventude para objectivos que nada têm de ambientais.

Não há nada que a conhecida jovem sueca diga que não esteja contido nos documentos oficiais das Nações Unidas, e por vezes, como aconteceu no discurso de Nova Iorque, até a forma de arrazoado burocrático é repetida.

Do afunilamento do dossier ambiental para a questão climática passou-se agora para a inversão dos termos, com a apresentação do dossier ambiental como mera consequência da mudança de clima. Como notei no último comentário que fiz sobre o tema, o painel científico que superintende as questões climáticas inverte a linguagem e a mais elementar lógica causal, dizendo, por exemplo, que a eutroficação das águas exacerba os efeitos da temperatura nas emissões de gases com efeitos de estufa, quando obviamente é o inverso que se passa.

Esta subversão da realidade popularizou-se e entranhou-se no discurso público, tendo eu reparado que mesmo no popular jornal francófono do metro belga, a propósito dos hábitos alimentares pouco saudáveis das crianças, se podem ler absurdos como ‘(…) as mudanças climáticas (…) incentivam o consumo de produtos nocivos à saúde’ como se as bebidas cheias de açúcares fossem resultado do clima.

A psicose climática feita de facciosismo, intolerância e dogmatismo é hoje a maior ameaça à prioridade da política ambiental racional, e quanto mais depressa nos dermos conta disso, melhor.

  1. Os desafios nacionais

O governo socialista está a promover o transporte público nos meios urbanos, penalizando a utilização das viaturas que usam combustíveis fósseis. É uma política que precisa ter em conta duas questões que ficaram de fora.

A primeira é a de que há muitas situações – especialmente meios rurais e suburbanos de cidades secundárias – em que não existe alternativa ao automóvel. A segunda, é que essas medidas deixam de fora o transporte marítimo e aéreo, que são cada vez fontes de emissão mais importantes do que a automóvel.

É bom não esquecer que o movimento dos coletes amarelos em França foi desencadeado exactamente como protesto por um quadro de medidas como este. Isso é também consequência da lógica das Nações Unidas que se limita a falar das responsabilidades nacionais ao mesmo tempo que esquece que chamou a si a responsabilidade em matéria de tráfego aéreo e marítimo, mas por isso mesmo, trata-se de algo que não pode ser escamoteado.

Depois, como tenho defendido, o grande e mais complexo e mais importante desafio que temos pela frente é o agro-alimentar, e nomeadamente o que se prende com as modernas formas de irrigação, protecção e adubação. Nada está a ser feito aqui no domínio nacional! Também aqui grande parte das responsabilidades ultrapassam o quadro nacional e têm a ver com a política agrícola comum, mas tal como no caso anterior isso é uma razão suplementar para equacionarmos bem o problema.

Em último lugar temos a política nacional de promoção de energias alternativas que, como eu defendo há muito, deveria limitar-se à investigação, desenvolvimento e disseminação de novas soluções, não a subvenção à produção renovável que, como agora se verifica, é generalizadamente concorrencial com soluções convencionais.

É preciso entender que temos de pensar em soluções energéticas revolucionárias que enquadrem todos os dados do problema e não apenas as emissões.

Não creio, por exemplo, que faça sentido dedicar exclusivamente largos espaços territoriais contíguos à produção energética a partir do Sol para a sua conversão em hidrogénio a ser utilizado na indústria química localizada no interior europeu do mar do Norte, como parece ser a intenção do governo.

O que faz sentido é trazer alguma dessa indústria dependente do hidrogénio para Portugal – eventualmente no interior de Sines – de forma a que o revestimento solar das instalações industriais possa fornecer a necessária energia.

Em qualquer caso, trata-se de não aceitar que o dogmatismo e facciosismo da ‘urgência climática’ nos condene a más soluções ambientais que poderão tornar-se muito difíceis de reverter.

Creio que a social-ecologia deve estar no centro das nossas atenções e ser livre, informada e responsavelmente tomada em conta numa nova esquerda de futuro.


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