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João de Sousa

Sábado, Outubro 16, 2021

A Europa entre duas Alemanhas

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

A Alemanha – mas naturalmente outros países como os Países Baixos – têm de saber para onde querem ir neste domínio, tendo a perfeita consciência de que a tentativa de repetição de políticas austeritárias para o Sul da Europa tornará inevitável a quebra da solidariedade europeia e tornará irresistível para muitos o apelo das autocracias.

  1. Presidência alemã

A presidência alemã rotativa da União Europeia teve início a 1 de Julho e prolongar-se-á até ao final do ano. Despojada pelo ‘Tratado de Lisboa’ da importância que já teve, ela é mais simbólica do que real, mas pode tornar-se mais relevante quando, como é o caso, é assumida pela principal decisora política europeia, a chanceler Merkel.

A generalidade da imprensa destacou a circunstância de a ‘Presidente semestral’ ser ‘companheira’ da ‘Presidente quinquenal’, ou seja, a Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen. Na verdade, von der Leyen, em várias posições, foi a Ministro que permaneceu mais tempo nos governos da chanceler Merkel (14 anos!) e não têm sido postas publicamente em evidência divergências essenciais entre elas.

Posto isto, tendo em conta que a questão política mais decisiva no mundo da actualidade é a posição a adoptar sobre a China, silenciada embora pela opinião pública, a divergência de posições entre as duas é mais do que óbvia para quem olhe com imparcialidade para os factos.

Como assinalei aqui há duas semanas, von der Leyen foi a primeira política ocidental a afirmar cara a cara ao Presidente Chinês que ‘os ciberataques a hospitais europeus no auge da pandemia e a campanha de desinformação destinada a promover o pânico desenvolvidos pelas autoridades chinesas são intoleráveis. Aviso claro e inequívoco publicado em comunicado de imprensa no mesmo dia da cimeira’.





Na posição diametralmente oposta na Europa está a chanceler Angela Merkel, que não tem poupado esforços para menorizar qualquer confronto com a China e a pregar uma posição de ‘equidistância’ entre os EUA (supostamente os aliados na OTAN) e a China.

De resto, os 14 anos de parceria de Angela e Ursula no governo não reflectem qualquer ‘amizade’. O actual Presidente do Parlamento alemão, que foi o superior hierárquico de Merkel no partido antes de ela lhe ter passado à frente (e sendo a política o que é, provavelmente de forma não inocente) e que esteve sempre nos governos de Merkel até ser chutado para a sua posição actual, é notoriamente um rival político desta.

Churchill, a quem lhe perguntava se os seus inimigos políticos eram os que se sentavam nas bancadas à frente das suas, terá famosamente explicado que esses eram meros adversários, os inimigos, sentavam-se antes atrás dele, e creio que a máxima de Churchill é de aplicação às ‘amizades’ cristãs democratas alemãs.

Em política, contrariamente à famosa máxima do Doutor Salazar, penso que o que parece raramente é.

  1. As duas Alemanhas

Deixando de lado as presumidas amizades, a verdade é que tudo diferencia as duas senhoras que presidem hoje à Europa.

Angela Merkel, apesar de ter nascido em Hamburgo, emigrou com semanas de vida para a Alemanha Oriental. Licenciada na Universidade Karl Marx de Leipzig e doutorada na Academia das Ciências de Berlim Oriental dedicou-se inteiramente à política depois da queda do muro, subindo na hierarquia do partido, primeiro à sombra de Helmut Kohl (a sua alcunha era a de ‘Miúda do Khol’), e depois como número dois de Schäuble, tendo abandonado o primeiro na sequência de um escândalo de financiamento ao partido e sucedido ao segundo ainda por força do mesmo escândalo.

Acusada de ser a responsável pela ‘Agitação e Propaganda’ da ‘Juventude Alemã Livre’ no instituto onde se doutorou em Berlim-Leste, Angela Merkel sempre manteve que não foi membro do partido nem aceitou ser informadora por conta do partido.

Ursula von der Leyen, nascida Ursula Albrecht, em Bruxelas, filha de um funcionário europeu de nacionalidade alemã, vai para Hanover com a família apenas aos treze anos. O pai, Ernst Albrecht, irá presidir ao Estado da Baixa Saxónia vários mandatos e torna-se num dos mais importantes dirigentes nacionais da CDU.

Estuda na ‘London School of Economics’ onde adopta provisoriamente o nome de Rose Ladson, sendo este o nome da sua bisavó americana. Acaba por estudar Medicina em Hanover e casar numa das mais aristocráticas famílias alemãs que lhe dá o seu nome actual, tendo vivido quatro anos com o marido em Stanford, na Califórnia, período em que se dedica inteiramente à família (é mãe de sete filhos).

Como vemos aqui, tudo diferencia as duas dirigentes políticas alemãs, e na verdade, essa diferença de perfis é a mais provável razão para a conveniência da convivência das duas; enquanto uma poderá ser uma mais-valia para um eleitorado ocidentalizado, aristocrático e cosmopolita, a outra sê-lo-á para um eleitorado mais oriental, popular e enraizado, e é assim que funcionam muitas vezes os partidos, mantendo personalidades de perfil diferente em lugares cimeiros para maximizar a penetração no eleitorado.

  1. Os dois caminhos abertos à Europa

Angela Merkel abandonou nominalmente a direcção do partido e tem repetidamente anunciado que não pretende recandidatar-se a chanceler. Mas mesmo que isso se confirme, a sua política de ‘pragmatismo mercantil’ terá necessariamente seguidores.

A política alemã está no centro de uma enorme turbulência e não é ainda claro o que mudou, porque mudou e por força do que mudou. Que eu tenha visto, apenas o Economist ensaiou uma tentativa de explicação baseada na análise das tendências do que escrevem os economistas alemães, aproximação interessante que não creio contudo determinante.

Ainda há pouco mais de dois meses, no auge do pânico viral europeu, a decisão do Tribunal Constitucional Federal Alemão de rejeitar a jurisdição do Supremo Tribunal Europeu sobre o programa de compras do Banco Central Europeu (BCE) pôs em dúvida a continuidade da moeda única e no limite, do processo de integração europeia.

Quem assume a direcção de uma moeda, como é o caso dos EUA com o dólar, não pode ter uma lógica mercantilista de gestão sob pena de fazer naufragar todo o sistema monetário em que assenta. Esta é uma verdade que há dez anos não foi entendida em Frankfurt ou Berlim. Mas eis que neste mês de Julho, em que se iniciou uma presidência europeia da Alemanha, tudo, ou quase tudo, parece diferente.

As autoridades alemãs deram o seu assentimento à participação do Banco Central Alemão no programa europeu de compras de títulos, depois de as instituições europeias e alemãs terem encontrado um compromisso de cavalheiros sobre o diferendo que deixa intocada a orientação política do BCE.

O BCE aumentou mesmo a dimensão do seu programa de injecção de dinheiro na economia e, mais importante do que isso, dirigiu as suas compras para os países mais necessitados, como a Itália. As autoridades alemãs abriram os cordões à bolsa, introduzindo na economia mais de 13% do seu produto, e deram o seu aval a financiamentos líquidos muito importantes ao futuro orçamento europeu.

Tudo isto acontece quando as contas externas alemãs, pela primeira vez em oito anos, se tornaram deficitárias no primeiro quartel do ano, e quando veio a lume um escândalo financeiro de grandes proporções com a falência da Wisecard numa história em tudo semelhante às da banca portuguesa, especialmente o BES, com armas, agentes de políticas autocráticas externas e fraude financeira em larga escala.

Em dois meses, a Alemanha das ortodoxias financeiras, da acumulação de excedentes, dadora de lições aos meridionais europeus transformou-se a tal ponto de ser dificilmente reconhecível, e tudo isto sem mudança de partidos nem sequer de rostos no governo.

Uma atitude económica e financeira mais homogénea na Europa torna possível uma harmonização de atitudes políticas que era até agora impensável, mas convém ter presente o quão longe estamos ainda de termos equacionado a forma de ultrapassar os grandes problemas europeus.

A mudança de atitudes da Alemanha não foi acompanhada ainda em toda a Europa, como se tornou evidente pelo fracasso da cimeira europeia do passado fim-de-semana. É matéria que vai necessitar de maior ponderação e compreensão de tudo o que está em causa, e que passa por repensar a política fiscal europeia mas que não dispensa a compreensão das divergentes reacções perante a pandemia.

Em todo o caso, trata-se de saber se esta surpreendente transformação política é madura, duradoura e acima de tudo se vai ser seguida por uma alteração da diplomacia mercantilista por uma relação estratégica com os seus aliados, baseada em valores comuns, o que não é menos importante e decisivo para a sobrevivência da construção europeia.

O grande embate é agora o da China. A Alemanha – mas naturalmente outros países como os Países Baixos – têm de saber para onde querem ir neste domínio, tendo a perfeita consciência de que a tentativa de repetição de políticas austeritárias para o Sul da Europa tornará inevitável a quebra da solidariedade europeia e tornará irresistível para muitos o apelo das autocracias.


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