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Quinta-feira, Dezembro 1, 2022

A frieza, distanciamento e a falta de compaixão de uns

Beatriz Lamas Oliveira
Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

A solidariedade de outros
A leitura dos acontecimentos

O número de infeções por coronavírus está fora de controle, falta de material para tratamento e para proteção quer de doentes, quer do pessoal de saúde, faltam ventiladores, em alguns países faltam kits de teste, máscaras cirúrgicas, até mesmo camas de isolamento sob vigilância e/ou tratamento e outros equipamentos essenciais de saúde para lidar com a pandemia.

Donald Trump continua a narrativa do “Virus Chinês”, talvez no intuito de focar a atenção dos menos letrados no perigo amarelo. Sendo o diabo estrangeiro a ter a culpa, talvez o supremo aureolado queira passar a mensagem, aos pobres americanos, de que estão a sofrer um ataque inimigo. Para lutar contra esse ataque só cascatas de biliões de dólares podem esconder o perigo.

No entanto o grande publico sente que o único país que pode ajudar é a China.

Perante a pandemia, o desespero de profissionais de saúde em todo o mundo, com particular incidência na Europa e nos Estados Unidos, governos irresponsáveis acordaram tarde, fiaram-se em estratégias sem base científica ou economicistas e deixaram a população vulnerável ao ataque do vírus, que esse não, não é racista. Qualquer ser humano lhe serve para se reproduzir.

Depois de ter enfrentado o primeiro embate da epidemia com alguma confusa hesitação, a China soube lidar com a emergência. Agora que no Celeste Império a situação de risco deixou de ser fulgurante, governo e grandes empresários chineses investem no envio de médicos e equipamentos para os países europeus mais atingidos, para o Irão, o Iraque abandonado à sua sorte, para as Filipinas do louco Duterte, e ironia das ironias, até para os Estados Unidos.

“O governo chinês tem tentado projetar o poder estatal chinês além de suas fronteiras e estabelecer a China como líder global, não muito diferente do que o governo dos EUA vem fazendo há quase um século, e a distribuição de assistência médica faz parte do esta missão”, disse o Dr. Yangyang Cheng, associado de pesquisa de pós-doutorado da Universidade Cornell, que escreve a coluna de ciência e China da SupChina.

Até agora, as respostas mais eficazes à pandemia parece ter sido a de países que investiram fortemente nos testes diagnósticos para o Covid-19. Será o caso da Coreia do Sul. O país conseguiu fazer 15.000 testes por dia, achatando sua curva e o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, aprovou a estratégia da Coreia do Sul.

Tem repetido a “Nossa mensagem principal é: teste, teste, teste”.

A mim parece-me que a estratégia de testar, testar, testar, que também é defendida por exemplo pelo biólogo português Vasco M. Barreto, que escreve:

“Se todos os grandes institutos decidirem avançar, asseguramos os testes que for preciso fazer”, afirmou este biólogo doutorado em Imunologia do Centro de Estudos de Doenças Crónicas (Cedoc), da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

Em todos estes testes, tanto os do stock como os que aí virão da encomenda, está-se sempre a falar de testes que detectam o material genético (ARN) do próprio vírus, usando a técnica da reacção em cadeia da polimerase (PCR). Só dão resultado positivo durante a infeção.

Repito, parece-me que a estratégia de testar, testar, testar, teria resultados ao minimizar a difusão da infeção, por isolar os já infetados, permitisse o regresso gradual ao trabalho produtivo dos curados.

Testar, só para enviar para quarentena domiciliária os positivos sem sintomas ou os positivos com sintomas ligeiros, isso já estamos todos a fazer!

Washington e a administração Trump não conseguem entender nenhuma mensagem. Entre decisões confusas e contraditórias ,e a tentativa patética de resolução de uma pandemia com cascatas de biliões de dólares,Trump chamou o teste da OMS de “um teste muito mau” num dos múltiplos briefing ou twittings.

Nos EUA os serviços de saúde mais especializados para tratamento de infeções respiratórias graves vão ser submersos por doentes assustados, desorientados, confusos em poucos dias.

Mas falta tudo: máscaras, luvas, ventiladores, material de desinfeção.

A China enviou 500.000 kits de testes e 1 milhão de máscaras para os EUA, que serão distribuídos pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Mesmo assim há medicamentos foram bloqueados pela guerra comercial de Trump com a China.

A China e os EUA entraram numa guerra de palavras. Guerra de palavras que continua entre Trump e diversos governadores de estados, como por ex o de NY.

O secretário de Saúde dos EUA, Alex Azar, disse aos jornalistas que não divulgaria o número de ventiladores existentes no país por razões de segurança, numa tentativa de esconder a vulnerabilidade de um país que não tem serviço nacional de saúde.

“A solidariedade europeia não existe. Foi um conto de fadas no papel ”, disse o presidente sérvio Aleksandar Vucic a repórteres em entrevista coletiva no domingo. Vucic anunciou que enviou uma carta ao seu “irmão e amigo” Xi Jinping, presidente chinês, pedindo ajuda médica, afirmando que “o único país que pode nos ajudar é a China. Pelo resto, obrigado por nada. Os primeiros kits de teste da China desembarcaram em Belgrado na noite de segunda-feira.

Ao presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, foi pedida a criação de um instrumento de dívida comum para combater o impacto devastador que a crise do coronavírus ameaça causar na economia da Europa. O pedido veio dos nove países que se consideram em maiores dificuldades.

Mas o primeiro ministro holandês Mark Rutte defendeu o ponto de vista do seu ministro das Finanças Wopke Hoekstra e deu mostras da sua insensibilidade total face às vulnerabilidades que vão surgindo nas tentativas de controlo e de tratamento desta epidemia. Hoekstra também enfureceu alguns outros Ministros das Finanças Europeus esta semana, quando sugeriu que Bruxelas “investigasse” porque é que algumas economias, como a italiana e a espanhola, não tinham feito reformas fiscais para combater uma recessão.

A Fundação chinesa Jack Ma vai enviar “20.000 kits de teste, 100.000 máscaras e 1.000 roupas de proteção e escudos” para todos os países da África e o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, “assumirá a liderança na gestão da logística e distribuição”. A Etiópia tem escassez de ventiladores, no entanto, e até agora “ninguém os forneceu”, disse ele.

Enquanto governos e empresas privadas em todo o mundo aumentaram sua fabricação de testes, a falta de ventiladores será um desafio mais difícil de resolver. O Reino Unido, depois de ter andado a encanar a perna à rã da pandemia com a ideia peregrina da imunização de grupo e da seleção natural por exemplo, instou agora, que a desgraça lhe caiu em cima, todas as indústrias a apoiar a produção de 20.000 ventiladores para complementar os 5.000 que atualmente possui o Serviço Nacional de Saúde.

A péssima gestão da crise pandémica por parte de Washington, assim como a do governo Boris Jonhson ajudou a melhorar muito imagem autoritária, sim, mas também solidária do governo chinês, que depois da fase inicial de denegação da crise, a tomou em mãos e a dominou.

Mesmo sentindo que temos de estar agradecidos à China, não podemos esquecer os direitos humanos de cidadãos chineses pertencentes a minorias étnicas e religiosas.

Mas talvez as liberdades e direitos dessas minorias possam ser agora melhor defendidos quando a China sentir que deixou de ser olhada como o Perigo Amarelo ou a Maléfica Mãe do Corona Vírus.

 

Isolamento, Ilustração de Beatriz Lamas Oliveira


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90



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