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Terça-feira, Julho 23, 2024

A “Grande Derrota” de Marine Le Pen

José Mateus
José Mateus
Analista e conferencista de Geo-estratégia e Inteligência Económica

Foto de Alex Bordalo“Ufff… Que alívio! Lá escapámos de boa… Derrotámos a Le Pen, foi uma grande vitória da Democracia!”

Nada melhor, para problemas bicudos, do que respostas redondas. E prontas, de véspera. Para quê entrar no desconforto de ir ver o que realmente se passa quando se pode tapar o sol com uma peneira… “Prontes”, ela perdeu, foi derrotada e a República foi salva! Além de não dar trabalho, esta resposta é também um bálsamo. Uma espécie de “pomada do tigre” que faz desaparecer as angústias e dores dos dias anteriores e dá uma óptima sensação de felicidade.

A Le Pen e a sua Frente Nacional são o quê? Fascistas, claro. Uma irrupção dos anos trinta do século passado nos nossos dias deste século XXI. Para quê cansar neurónios a estudar o assunto se assim ele se resolve de uma penada… Mas como é, então, possível que mais de um terço do eleitorado francês vote em tal coisa? Que a FN seja o partido com mais votos no eleitorado jovem? E também no eleitorado popular? Simples, são analfabetos.

Mas, então, como explicar a explosiva curva da evolução das votações na FN nos últimas 10 ou 20 anos? Pela “explosão” do número de analfabetos? E, por último mas não menos importante, como explicar que haja na FN mais ex-comunistas militantes do que os que estão (ainda) inscritos no PCF…?

É claro que é legítimo que se considere que a FN é “o pior da política e a política pior”. A socialista Anne Hidalgo teve aqui o trocadilho do ano. Só é pena que não tenha explicado como é possível que as propostas económicas da FN se situem à esquerda das do PS… E sejam consideradas pelo “patronato” as mais “marxistas”, “utópicas” e “perigosas” de toda a campanha eleitoral. De facto, o programa económico da FN é a transposição para o discurso político das propostas teóricas do mais conhecido dos economistas marxizantes  de França: Jacques Sapir.

cabeca

A um discurso económico de esquerda, bastante radical, a Le Pen junta o discurso da retoma da soberania. Fá-lo, porém, não com as velhas gangas nacionalistas dos anos 20 e 30 do século passado (todas oriundas da “revolução nacional-bolchevique” alemã de 1919) mas com base num moderníssimo discurso geopolítico (de natureza “continentalista”…) estruturado pelo mais conhecido (e mais jovem) dos teóricos franceses da geopolítica: Aymeric Chauprade.

Marine Le Pen não pratica um mero discurso “anti-europeísta” e “nacionalista”, a advogar a saída do euro e o fecho das fronteiras. Não. O discurso dela é “pós-europeísta”, continentalista e soberanista (nesta última componente, ela reencontra, aliás, a ala esquerda e chevenementista do PS…).

Da combinação das propostas económicas marxizantes de Sapir com a teorização por Chauprade da recuperação da soberania, num quadro “pós-europeísta” e continentalista (coisa que Putin foi o primeiro a perceber…) resulta um discurso político-eleitoral que seduz todos os desesperados e outros “deixados por conta” da formação social francesa. Que são cada dia mais…

Não, não são os eleitores que são analfabetos. O analfabetismo político é de quem, sendo dirigente político ou líder de opinião, insiste em não ser capaz de ler a realidade. E, portanto, não ser capaz de identificar os verdadeiros perigos e de onde vem a sua força.

Marine Le Pen teve agora, na segunda volta das “regionais”, a sua maior votação de sempre. Mais que triplicou o número de eleitos nos “conselhos regionais” (onde tinha entrado pela primeira vez nas anteriores eleições) passando de 118 para 356 representantes. Confirmou a FN como o primeiro partido de França e obrigou Sarkozy e Hollande a uma “santa aliança” para lhe barrarem o caminho e aproveitou, imediatamente para denunciar esse conúbio dos “globalistas contra os patriotas”, dando assim início à sua campanha para as “presidenciais” de 2017.  Mas o mais fácil e balsâmico é dizer, simplesmente, que ela perdeu… E esperar poder dizer o mesmo em 2017. Até um dia…

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