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Sábado, Dezembro 4, 2021

A “Grande Reinicialização” não passa de um pretexto: O lobby

Arnaldo Xarim
Economista

Num livro recentemente publicado pelo Fórum Económico Mundial, «Covid-19: The Great Reset», vincula-se a actual pandemia a propostas de contornos futuristas de forma que aquelas sejam acolhidas com admiração. Na actual atmosfera de confusão e desconfiança, a alegria com que os autores saúdam a pandemia como prenúncio da sua proposta de turbulência socioeconómica sugere que, se a Covid-19 não tivesse surgido por acidente, podendo, teriam sido eles a criá-la…

Ao chamar para o título do livro a ideia de uma Grande Reinicialização, os seus autores. Klaus Schwab (engenheiro e economista alemão que atraiu o patrocínio maciço das grandes corporações internacionais para fundar o Fórum Económico Mundial em 1971, conclave que é também conhecido como o Fórum de Davos, localidade suíça onde se reúne anualmente e que terá a sua próxima reunião em Maio de 2021, em Singapura) e Thierry Malleret (economista de nacionalidade francesa, é o co-fundador e autor principal do Monthly Baromether, um boletim informativo de análise e previsão sobre questões macroeconómicas para decisores de alto nível, tendo anteriormente dirigido a Rede de Risco Global no Fórum Económico Mundial) sugerem uma ideia de recomeço, mas na verdade, antes que o surto de coronavírus lhes fornecesse um pretexto ainda melhor para divulgar os seus planos para refazer o mundo, já Klaus Schwab se tinha servido das mudanças climáticas como a crise detonadora para promover energicamente a sua Grande Reinicialização.

Não se estranhe, pois, que os autores tenham começado por proclamar que já não existe o mundo como o conhecíamos nos primeiros meses de 2020 e que as mudanças radicais impostas pela pandemia implicarão um novo normal, a ponto de vermos destruídas muitas das ideias conhecidas sobre como poderia ser o mundo.

Antecipando uma mudança de hábitos ditada pela novas necessidades higiénicas e que o medo do vírus irá acelerar o processo de automação que desejam, vêem na sua generalização o gatilho que levará as populações a apoiarem as mudanças radicais que imaginam e recorrem até a baboseiras tecnocráticas para anunciar que a pandemia já está a transformar a mentalidade humana para se conformar à nova realidade que consideram inevitável.

Esta será a voz da suposta governança global, em cuja cúpula os especialistas decidirão o que as massas devem querer, distorcendo os pretensos desejos populares para se adequarem aos esquemas lucrativos que já estão a tentar vender. Os seus esquemas concentram-se na inovação digital, automação massiva usando “inteligência artificial” e, no limite, até mesmo “melhorando” os seres humanos, dotando-os artificialmente de alguns dos atributos dos robôs, o que ditará a solução de problemas sem distracções éticas.

O que é exactamente o Fórum Económico Mundial senão a combinação entre uma firma de consultoria capitalista e uma gigantesca máquina de lobby a favor das novas tecnologias, da digitalização, da inteligência artificial e do transumanismo (movimento intelectual que pretende transformar a condição humana mediante o desenvolvimento de tecnologias para aumentar consideravelmente as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas humanas e ainda erradicar as formas de sofrimento causado por doenças, pelo envelhecimento ou mesmo pela morte). As previsões futurísticas são projectadas para orientar os investidores para as áreas mais lucrativas, o que Schwab chama de “Quarta Revolução Industrial (4IR)”, e para pressionar os governos a apoiarem esses investimentos através de subsídios, incentivos fiscais, aquisições e da aprovação de regulamentos e legislação mais favoráveis.

O maior poder do Fórum Económico Mundial deriva de actuar num ambiente de capitalismo de estado, onde o papel dos poderes públicos (mais nos EUA que na Europa) foi fortemente reduzido para responder positivamente às exigências do sector financeiro. Imunizados por massivas doações de campanha contra os desejos das pessoas comuns, a maioria dos políticos da actualidade depende das orientações dos lobbies para lhes dizer o que fazer.

Esta realidade é particularmente evidente naquela que é apontada como a principal economia mundial e a potência hegemónica e remonta ao período da sua própria afirmação como grande potência. Foi o sucesso económico da indústria de armamento durante a Segunda Guerra Mundial que deu origem a um Complexo Militar-Industrial, que se tornou um factor estrutural permanente na economia norte-americana e é o papel dominante daquele complexo militar-industrial e dos lobbies resultantes que mudaram definitivamente a nação de república para capitalismo de estado.

A prova dessa transformação é a facilidade com que se aprovam orçamentos militares grotescamente inflacionados e a regularidade com que se geram notícias e grupos de reflexão que doutrinam incessantemente o público na necessidade existencial de continuar a canalizar a riqueza do país para o armamento. Mesmo que os eleitores não concordem, não dispõem de meios de expressão política em eleições realizadas sob um sistema de bipartidarismo apoiante do Complexo Militar-Industrial.

Tal como aquele complexo militar-industrial o Fórum Económico Mundial pode ser visto como algo que pretende envolver governos e fabricantes de opinião na promoção de uma “4IR” que dominará a economia e a própria vida civil e se aquele é apresentado como absolutamente necessário para a protecção da nossa liberdade, a “4IR” ainda poderá vir a ser apresentada como indispensável à preservação do meio ambiente, ainda que em ambos os casos, muitas das medidas preconizadas possam ter o efeito oposto.

Mas o maior perigo da ideia da Grande Reinicialização pode até nem derivar do seu conteúdo, mas da completa ausência de qualquer oposição política séria.


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