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João de Sousa

Quarta-feira, Junho 19, 2024

A inteligência artificial e o controle democrático

O grande perigo da IA não está nela mesma mas sim como isso afetará os modos de produção e os mecanismos de acumulação progressivos de capital.

A alavanca não substituiu os braços, as rodas não eliminaram as pernas, a automação de algoritmos de texto não substituirá os raciocínios cerebrais, mas tudo isso potencializa nossas características humanas – até mesmo as que as desumanizam.

Atualmente, desconhecer o que o “Bigdata” junto com a “Inteligência Artificial”, somados à “Internet das Coisas”, farão cada vez mais coisas e terão um impacto enorme é quase como achar que a máquina a vapor não mudaria as formas de produção.

Na verdade a IA é apenas uma máquina de “psitacismo automático” e não uma “inteligência” artificial. Não há inteligência própria a não ser a dos engenheiros e programadores que desenvolvem os algoritmos e dos curadores que alimentam o banco de dados (com trilhões de palavras) e analisam e direcionam os comportamentos automatizados.

Antigamente havia pessoas, e há relatos antropológicos disso em vários agrupamentos humanos, que achavam que a máquina fotográfica lhes “roubaria a alma”. Hoje isso acontece com os que temem que esta tal da artificial inteligência lhes roube o intelecto.

Isso fatalmente ocorrerá com inúmeros prestadores de serviços “intelectuais-braçais”, gente que faz tarefas cognitivas que possam ser automatizadas.. Como a máquina a vapor fez com vários braços de operários, como os robôs físicos e de software estão a fazer em todos os campos da produção.

O desafio é que ou entendemos como esses algoritmos funcionam ou isso será controlado por aqueles que determinam as regras de funcionamento da sociedade. Uma recusa neoludita só atrasará a organização e a luta que são imperativos para levarmos adiante.

O que precisamos debater são as formas de controle dessas técnicas automatizadas de produzir, de aumentar a escala de ganhos, de concentrar cada vez mais riquezas e de expoliar e segregar inúmeros contingentes populacionais. Identificar como fazer a gestão democrática e transparente dos usos da Inteligência Artificial especialmente em conjunto com o BigData (essa enorme quantidade de dados sobre nós mesmos que permite que plataformas saibam mais sobre cada um do que sua própria família).

Um aspecto central disso, sem dúvida é a discussão de como a riqueza socialmente produzida deve ser socialmente apropriada. Isso vale para tudo o que se tem inventado nas últimas centenas de anos, mas indubitavelmente urge mais do que nunca para as novas tecnologias.

Há muita gente achando que o ChatGPT (plataforma que está a popularizar a inteligência artificial como nunca dantes no quartel de Abrantes) é a nova Pitonisa de Delfos, outros temendo que seja um Minotauro ou uma Medeia. Gente crédula sempre alimentou videntes e especialmente os novos “vendilhões do templo”. Nada mais natural que as pessoas comecem a buscar respostas em uma “IAmancia”, uma espécie de inteligência artificial divinatória.

A inteligência artificial não é um “monstro” (só se considerarmos que tratores, aviões ou computadores o sejam), mas sim uma ferramenta muito poderosa que a educação, os sindicatos, os setores culturais, de saúde, de ciência e tecnologia, da política em geral, precisam o quanto antes aprender a usar.

O grande perigo da IA não está nela mesma mas sim como isso afetará os modos de produção e os mecanismos de acumulação progressivos de capital.

Com a sociedade da informação e do conhecimento tendo cada vez mais robôs, bigdatas e algoritmos, precisamos saber usar e direcionar as políticas para isso, senão a tendência natural é que eles sejam usados contra nós, maioria dos seres humanos.

Todas essas tecnologias (desde a alavanca, depois a máquina a vapor e agora a automação) sempre fazem quem tem força, capital e conhecimento ficar mais poderoso e mais rico. E os que são espoliados, marginalizados, explorados e enganados, sê-lo-ão ainda mais. A menos que possamos determinar e executar políticas de apropriação social da riqueza socialmente produzida.

O papel dos trabalhadores, intelectuais, artistas, educadores, é aprender isso tudo para poder ter estratégias de design das regras que queremos para este grande jogo que é a nossa vida, no tabuleiro que é este planeta e as peças que são as pessoas, os animais e as plantas.


por Carlos Seabra, Diretor da Oficina Digital, criador de jogos de tabuleiro e digitais, autor de livros de literatura infantil e juvenil. Editor de publicações e produtor de conteúdos culturais e educacionais de multimídia e internet, palestrante, consultor e coordenador de projetos culturais e de tecnologia educacional | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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