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Segunda-feira, Julho 4, 2022

A invasão russa da Ucrânia e a parábola do escorpião e do sapo

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Racionalmente, o caminho teria sido o de jogar a carta da identidade étnica, cultural e linguística para seduzir os ucranianos a manter relações privilegiadas com os seus vizinhos. É de resto o que acontece em regra em situações semelhantes. A natureza do putinismo mostrou, no entanto, ser outra: a da pura imposição pela força!

  1. Racionalidade e ideologia

A parábola do escorpião e do sapo é apresentada por Livraghi como máxima apropriada para ilustrar a estupidez – fazer mal aos outros prejudicando-se a si mesmo – mas pode ser também reinterpretada como o poder da ideologia sobre o da racionalidade.

Na parábola – que de acordo com Livraghi, ninguém sabe de quem é a autoria – o sapo aceita dar boleia ao escorpião, porque o escorpião se afogaria se ousasse picar o sapo durante a travessia do rio, mas o escorpião mata mesmo o sapo, afogando-se em consequência, não sem antes explicar que o faz por que a sua natureza é a de matar.

Mais do que estupidez, o que aqui temos é o confronto entre racionalidade e irracionalidade, aqui descrita como ‘natureza’, mas que poderia bem ser descrita como ideologia, no sentido de uma visão não objectiva da realidade, numa das várias leituras do termo.

O exemplo mais recente de materialização da fábula foi talvez o do bota-abaixo do governo pelo PCP. A generalidade dos observadores (eu incluído) ficou espantada quando viu o PCP e o BE reclamarem que o bota-abaixo do governo teria sido uma maquiavélica conspiração de António Costa para obter a maioria absoluta. Aqui a posição do PCP merece uma atenção especial, porque foi o PCP que mudou de posição, o BE, já tinha votado contra orçamentos anteriores.

O raciocínio ganhou alguma notoriedade porque António Costa, contrariando a generalidade das outras sondagens e análises, obteve mesmo a maioria absoluta, confirmando assim a previsão feita por esses dois partidos.

O ilogismo do raciocínio consiste no facto de terem sido o BE e o PCP que votaram contra o Governo e provocaram a sua queda e, portanto, se eram da opinião que o voto contra o orçamento servia para António Costa ganhar uma maioria absoluta, desembaraçando-se do apoio desses partidos no que restava da gerigonça, não deveriam naturalmente votar contra o orçamento.

A melhor forma de compreender o comportamento destes partidos é o sugerido pela fábula em questão. A racionalidade ditava ao PCP e BE que não votassem contra o orçamento (bastava a abstenção para que o governo não viesse abaixo), mas a sua natureza, ou a sua ideologia, ditavam o contrário, e foi esta segunda a mais forte.

Na verdade, não me recordo de ter assistido a um caso em que de forma tão flagrante o comportamento de uma força política se assimile ao comportamento do escorpião da fábula. Se o PCP, de forma coerente com o seu voto, tivesse dito que iria mandar o governo abaixo a fim de reforçar as suas posições, poderíamos dizer que estávamos perante uma má análise da realidade, porque não era de todo em todo isso o que se previa e que aconteceu, mas não que estávamos perante um comportamento assumidamente irracional, como foi o caso.

Posto isto, e se a parábola, podendo aplicar-se como caso limite, que raramente se observa na realidade, fosse igualmente útil como um elemento que ajuda a compreender uma realidade mais vasta?

Dito de outro modo, e se a parábola fosse útil para entender o elemento irracional (ideológico ou da natureza) em determinados jogos de poder, sem por isso se traduzir em explicações feitas somente através da irracionalidade?

  1. A invasão do Kuwait

A desastrosa invasão iraquiana do Kuwait no Verão de 1990 é talvez um dos antecedentes históricos que mais nos pode servir para construir pistas de interpretação para a igualmente desastrosa invasão russa da Ucrânia em 2022.

Por razões várias tornei-me amigo pessoal do ex-diplomata iraquiano Sadoun al-Zubaydi em 2004. Anglófono e anglófilo, doutorado em literatura inglesa com uma tese relativa a Shakespeare obtida no Reino Unido, al-Zubaydi era visto como uma ponte natural entre o Ocidente e o seu país.

Em 1990 ele era o responsável pelos serviços oficiais de interpretação. Tendo sido Embaixador do Iraque na Indonésia de 1995-2001 (e tendo nessa qualidade conhecido Ana Gomes) voltou a Bagdade nesse ano, voltando a trabalhar directamente com Saddam Hussein. Como ele me explicou, não era Saddam quem governava o país desde 2001. Este, limitava-se a escrever romances em que ele era o herói de peças épicas de salvação do mundo árabe (inspiradas em Saladino, que por sinal, nem sequer era árabe), peças que Al-Zubaydi tratava de editar literariamente.

Quem governava o país era o chamado clã de Tikrit, um grupo de familiares muito próximos de Saddam oriundos da sua aldeia natal de Al Awja, nos arredores da cidade. Na sequência da participação de Al-Zubaydi numa iniciativa diplomática junto do Papa que tinha como objectivo parar a invasão, Al-Zubaydi será mesmo demitido de todas as suas funções nos meses que antecederam a invasão do Iraque.

Al-Zubaydi tornou-se internacionalmente conhecido por ter sido o intérprete da reunião de Saddam Hussein com April Glaspie a 25 de julho de 1990, vista por ele, e por uma parte considerável da opinião pública, como um factor determinante na invasão do Kuwait.

A história registada, tendo em conta os pormenores que ele me deu, e que animou muita conversa entre nós, é em síntese a seguinte.

Apesar de o Kuwait ter sido um dos mais importantes, senão o mais importante, dos apoios ao Iraque na sua guerra com o Irão, terminada em 1988, o Iraque virou a sua agressividade contra esse país.

Alegando que a criação do Kuwait pelo Reino Unido tinha sido uma forma de privar o Iraque do território mais rico em petróleo, o Iraque acusou igualmente o seu vizinho de extrair indevidamente mais petróleo do que lhe cabia dos poços que são divididos pela fronteira, para além de desrespeitar as suas quotas de produção, levando à queda dos preços petrolíferos.

O tom ameaçador do discurso público de Saddam Hussein e a concentração de tropas iraquianas junto à fronteira com o seu vizinho não poderiam ter escapado a ninguém, e menos ainda à maior potência do mundo, e cujo chefe da diplomacia da altura, James Baker, por sinal foi também advogado dos negócios petrolíferos da família Bush.

No entanto, para surpresa de todos os observadores – e como me explicou Al-Zubaydi, surpresa também de Saddam Hussein – os EUA mantiveram-se silenciosos na matéria, a tal ponto que o ditador solicitou uma reunião urgente com a Embaixadora dos EUA nos finais de julho para entender a posição americana.

A Embaixadora americana, April Glaspie, ia partir de férias quando chegou o pedido de audiência, numa reunião de que Al Zubaydi foi o intérprete. Al Zubaydi garante que Saddam Hussein não poderia ter sido mais explícito quanto às suas intenções de invadir o país vizinho, mas a sua interlocutora limitou-se a fazer apelos etéreos à resolução pacífica de qualquer desacordo entre os dois países, assegurando mesmo que não era intenção dos EUA interferir em ‘diferendos inter-árabes’.

A comunicação que terá enviado para a capital no final da reunião não transmitia nenhum sentido especial de alarme e, aparentemente, só terá sido lida depois de consumada a invasão uma semana depois.

Para Sadoun Al-Zubaydi, o sentido das palavras da diplomata era claro: os EUA não iriam reagir em caso de invasão do Kuwait! Mais, armaram mesmo uma cilada, fazendo crer a Hussein que ele poderia impunemente invadir o seu vizinho para seguidamente lhe infligir uma esmagadora derrota.

Madeleine Albright – que irá chefiar a diplomacia americana após a derrota eleitoral de George Bush em 1992 – resolve mesmo publicamente punir a diplomata americana reunida com Saddam Hussein por supostamente ter falhado aos seus deveres, o que de certa forma corrobora a interpretação dada por al-Zubaydi aos acontecimentos.

A tese oficial das autoridades americanas (pode ser consultada no website do Departamento de Estado) é a de que a Administração de George Bush tinha com efeito adoptado uma posição conciliatória, com o objectivo de acalmar o ditador iraquiano e obviar à invasão, mas que, simultaneamente, a esquadra americana fazia manobras no Golfo, e que a mensagem deveria ter sido clara de que os EUA não tolerariam a invasão.

Dediquei muita reflexão a este episódio, cuja cabal compreensão será importante para se entender o desenrolar das sucessivas tragédias que acabaram com a invasão do Iraque.

Não conheço tema tão propício a teorias da conspiração como o da acção das autoridades americanas, de que se pensa que tudo sabem; tudo investigam e tudo preveem, e por isso de tudo são responsáveis. Na verdade, a máquina pública americana é enorme, pesada e raramente consegue actuar de forma sincronizada e eficaz, a menos que movida por um sentimento nacional construído na opinião pública.

Os serviços de informação tinham já naturalmente dado conta da enorme concentração militar iraquiana na fronteira com o Iraque e alertaram em consequência a administração para a iminência da invasão iraquiana e, em qualquer caso, não faz qualquer sentido dizer que se envia a marinha para intimidar um país ao mesmo tempo que se envia a embaixadora nesse país para férias.

É bem provável que para além da descoordenação e incompetência gerais tenham existido segundas intenções de alguns dos actores fundamentais no aparelho de Estado americano, mas a verdade é que, passada uma semana e o desconcerto inicial, a administração americana age de forma consistente e que não dá margem para dúvidas. Obtém uma resolução do Conselho de Segurança dando o prazo de janeiro de 1991 para a retirada das forças iraquianas, ao mesmo tempo que as forças americanas se instalam na vizinha Arábia Saudita e preparam de forma ostensiva uma imponente força a que obviamente o exército iraquiano não conseguirá resistir.

Ou seja, se a incapacidade ou falta de vontade da administração americana em parar a invasão do Kuwait em julho, pode ser interpretada como uma armadilha estendida ao Iraque, a partir do princípio de agosto, tudo se torna extremamente claro: ou Saddam Hussein se retira (e teria toda a margem para o fazer dizendo que tinha dado uma lição ao seu vizinho) ou sofrerá o peso implacável da maior máquina de guerra mundial. Não há aqui – contrariamente ao que se irá passar em 2001-2003 – qualquer ambiguidade.

É a natureza expansionista do regime de Saddam Hussein animada pela ideologia pan-arabista que é indispensável ter em conta para entendermos o que aconteceu, ou seja, temos aqui a alegoria do escorpião a matar o sapo, mesmo que a realidade espelhe também outros elementos a considerar para explicar o que aconteceu.

  1. A invasão da Ucrânia de 2022

A invasão da Ucrânia de 2022 foi precedida de uma cimeira presencial entre os presidentes russo e americano, realizada em Genebra, em junho de 2021, e vários outros contactos incluindo videoconferências.

Não é naturalmente possível pensar em cimeiras desta importância sem a existência de garantias de entendimento mínimo em matéria de relações internacionais. A cimeira de 1955 deu-se após a morte de Estaline, quando Nikita khrushchev procurava o desanuviamento com os EUA e a segunda, quando Gorbachev procurava o mesmo, como sabemos de forma bastante mais radical.

O que foi extraordinário na cimeira de Genebra foi o facto de ela se dar sem qualquer sinal de diminuição de tensões americano-russas, mas, bem pelo contrário, na sequência da denúncia pública pelas autoridades americanas de uma invulgar concentração de tropas russas nas fronteiras ucranianas com a Rússia e a Bielorrússia. Tão extraordinário ainda é que a cimeira tenha sido prevista sem conferência de imprensa conjunta ou declaração final.

Dois dias antes da cimeira, Biden, em Bruxelas, contraria as palavras de Zelensky sobre a viabilidade da adesão da Ucrânia à OTAN, partindo do princípio – que continua a ser defendido pelos apaziguadores mais empedernidos – de que a invasão russa se dá como reacção à ameaça da OTAN, quando a realidade é a inversa: foi a perspectiva de abandono da Ucrânia pela OTAN que incentivou a invasão russa.

De junho de 2021 até à invasão, o discurso das autoridades norte-americanas evoluiu para a invasão russa como fatalidade à qual se juntava ‘um elevado preço a pagar’, continuando a desrespeitar o presidente ucraniano, indo ao ponto de lhe dar um raspanete público por ter decidido ir à conferência de defesa de Munique, quando poderia não ter condições para voltar ao seu país. A diplomacia americana é mesmo a primeira a abandonar Kiyv, levando Zelensky a acusar os EUA de estar a criar o pânico.

A situação só irá mudar, e de forma radical, quando, já depois da invasão começada, Zelensky diz publicamente que as autoridades americanas lhe ofereceram a fuga, mas ele não quer uma boleia para fugir, ele quer armas para resistir, e as forças ucranianas no terreno mostram a sua sintonia com as palavras do seu presidente.

A situação é diferente da que precedeu a invasão do Kuwait em 1990, mas assenta igualmente na disfuncionalidade da máquina de poder norte-americana e, desta vez claramente, na lógica do apaziguamento que provoca em vez de evitar a agressão.

Do ponto de vista de Putin, haverá certamente erros crassos de análise, que são agora claros três meses depois de começada a invasão. As guerras do século XXI são guerras de mísseis pessoais de extrema precisão e potência; de robots aéreos com controlo remoto; de informação total no momento via satélite, e o modelo militar russo – como se tinha confirmado ainda o ano passado na guerra armeno-azerbeijana – está completamente desfasado dessa realidade. A capacidade e vontade de resistência ucraniana, a solidariedade europeia e americana quando confrontadas com o cenário real de guerra, foram também grosseiramente subestimados.

A questão essencial não é, no entanto, essa. Grande parte da Ucrânia, e especialmente a parte que mais sofreu com o genocídio dos anos 1930 (Sul e Leste) é russófona, ou seja, tem com a Rússia, mais do que a comunhão de um Estado no passado, uma comunhão cultural.

Essa comunhão foi certamente importante para que a ocupação da Crimeia fosse feita sem confronto e para que a resistência à invasão em 2014 (feita em nome de grupos separatistas) no Leste e Sul do país, tendo sido grande, não tenha sido total.

O que é verdadeiramente extraordinário é que a brutalidade e o completo desprezo pela vida dos ucranianos (russófonos ou não) de Putin tenha conseguido unir os ucranianos contra a invasão, como estes nunca tinham estado unidos antes.

Racionalmente, o caminho teria sido o de jogar a carta da identidade étnica, cultural e linguística para seduzir os ucranianos a manter relações privilegiadas com os seus vizinhos. É de resto o que acontece em regra em situações semelhantes. A natureza do putinismo mostrou, no entanto, ser outra: a da pura imposição pela força!

É essa a essência do que se desenrola perante os nossos olhos: a ideologia imperial e assassina do putinismo a impor-se à racionalidade dos interesses da Rússia com consequências devastadoras para o país, para os vizinhos e também para o mundo.

É o preço a pagar pela ausência de dessovietização que a realidade mostra ser uma necessidade incontornável.

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