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Sábado, Novembro 27, 2021

A pandemia da irracionalidade

Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Quase todos tentam interpretar os números que vão surgindo todos os dias, de todos os países do mundo.

Muitos números. Os infetados, os suspeitos, os que aguardam análises, os assimtomáticos, os internados, os que lutam pela vida nos cuidados intensivos, os mortos.

Depois os números subdividem-se. Há infetados que recuperam. É preciso medir-lhes os anticorpos, para lhes testar a imunidade. Há suspeitos que passam a duvidosos, o resultado da análise foi incerto. Dos que aguardam análises, formam-se dois sub-grupos: os positivos, os negativos. Os positivos passam para a listagem do número de infetados. Os negativos saem da lista de suspeitos para a qual podem voltar a entrar se tiverem febre ou tosse. Os assimtomáticos? Estão na calha de espera_ vão continuar assim ou vão aparecer com sintomas.

Neste momento as diferentes colunas de pessoas/números começam a dançar em frente dos meus olhos e de forma aleatória procuram padrões. Deixou de ser uma análise trivial e talvez esteja a começar a ser uma análise complexa.

A mim ainda parece cedo para tirar conclusões.

Há o fator comportamento humano. Há o fator comportamento do vírus. Há fatores sociais. E haverá conclusões.

 

Fator comportamento humano

Claro que a arrogância de uns, a obediência a que estão obrigados/condicionados outros, a indisciplina civil a que se habituaram quase todos, faz com que milhões de habitantes do planeta urbano sintam que o que vale é “cada um por si” e “que se lixem os outros”.

Isto mais um sentimento de omnipotência “o mal só acontece aos vizinhos”.

Mais profundo, haverá, talvez, sentimentos contraditórios de fé/desconfiança na ciência, porque quem faz ciência mostra um “poder do conhecimento” que cria antipatia, se não mesmo inferioridade a quem é obrigado a reconhecer frente ao espelho e pela calada que “disto não percebe nada”.

Ou seja, as pessoas gostariam de ser “livres” no pior dos sentidos: livres de responsabilidades. Gostariam de ser livres, mas sentem-se dependentes. Dependentes das decisões de Autoridades de Saúde mundiais e nacionais, dependentes da informação que estas autoridades transmitem aos políticos que tomam decisões.

Os políticos que elegeram ou foram eleitos, por uma maioria, a que o indivíduo assustado não pertence.

As pessoas costumam votar, para exercer a sua opinião, ou a sua raiva, ou a sua frustração. Vão deitar o voto na urna contra alguém, contra uma ideia. Ideias não têm nenhumas, portanto não votam a favor de nada. Votam contra tudo. Votam contra um sentimento de vazio, de insegurança difusa, irracional, uma insegurança veiculada por milhões de informações que não conseguem digerir e lá no fundo as faz sentir iletradas, incapazes. Num dado problema, de que neste texto é o problema pandemia, quanto maior o número de variáveis em causa mais complexo ele se evidencia.

 

Fator comportamento do vírus

Aqui começa a quadratura dentro da triangulação do círculo.

Antes da pandemia quem é que sabia o que era um vírus?

Quem sabia o que era uma bactéria, o que eram anti corpos, o que era imunidade individual ou de grupo?

Quem era mesmo capaz de dizer o nome ou o numero das doenças que as vacinas do Plano Nacional de vacinas evitam a doença e a morte em Portugal.

Quantas pessoas sabiam o que era a vacina BCG? Ou seja, as pessoas iam aos serviços de saúde públicos fazer as vacinas aos seus filhos na base de uma confiança nas decisões da Direção Geral de Saúde, decisões que afetam a vida dos seus filhos, sem colocarem grandes dúvidas. Penso que nem sabiam, na grande maioria que tipo de imunidade estas vacinas conferem.

Agora confrontam-se com um VÍRUS novo. Um vírus muito agressivo. Para o qual não estão protegidas. O vírus é invisível, ameaçador, e coisa estranha: lavar as mãos, coisa tão simples, impede-o em grande medida de nos atacar. Como acreditar em tal coisa, do domínio da magia?

Depois há um objeto chamada máscara. Máscara cirúrgica ou máscara com nomes mais eruditos.

O vírus continua invisível. Mas há quem diga que a tal máscara protege. E há quem diga que a máscara protege, “mas”… Até há quem diga que o vírus não é um ser vivo. Problema filosófico, teológico, transcendental só equivalente à questão da existência de Deus.

 

Fator comportamento humano

As pessoas queriam certezas. O comportamento do vírus é imprevisível. As pessoas gostariam que as Autoridades de Saúde, os investigadores, os cientistas, os virologistas, os infecciologistas dessem opiniões unânimes. Mas claro, toda esta caterva de profissionais tem visões pessoais, vigorosas e rigorosas, ligeiramente diferentes. Parecem tão imprevisíveis como os vírus. E ainda pior, os políticos! Os políticos ouvem ou não ouvem os cientistas. Quais? Aqueles com quem cada um concorda, depois de os ouvir a serem entrevistado na televisão, ou aquele outro cientista que aparece citado em artigos ditos “científicos” mas de origem ignorada?

 

Fatores Sociais

Cada país tem a sua realidade em termos de saúde. Cada país tem um plano de vacinação diferente. Cada país tem determinado os fatores de risco mais relevantes para a sua população. Cada um tem o seu serviço nacional de saúde, mais ou menos extenso e inclusivo, ou mais minimalista de acordo com o orçamento que lhe pode atribuir. Países ricos, não têm serviço nacional de saúde nenhum. Quem quer saúde paga-a sob a forma de seguros.

Portanto as decisões perante a pandemia têm de ser diferentes e adequadas à realidade do sistema de suporte do serviço de saúde, nuns casos mais centrado nos serviços básicos, noutros casos centrado em serviços mais caros e diferenciados.

Há países em que a população confia nas autoridades e obedece às instruções dadas para conter a pandemia. Há países em que a população NÃO confia nas autoridades e NÃO obedece às instruções dadas para conter a pandemia.

As causas e consequências desta confiança e desta desconfiança da população face às diretivas das autoridades terá de ser estudada. Ainda é demasiado cedo para tirar conclusões.

É mais o momento para observar, anotar, registar, estudar.

Conclusões?

Quase nenhumas. Hipóteses? Muitas.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90



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