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João de Sousa

Sábado, Junho 15, 2024

A política e o circo

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

No rescaldo das eleições ucranianas

A expressão ‘Pão e Circo’ terá sido criada com um sentido aristocrático de denominação pejorativa da plebe, a quem caberia apenas contentar-se com pão e circo, enquanto a aristocracia se dedicava às questões realmente importantes, começando necessariamente pela política, mas não se ficando necessariamente por aí.

1. Enquadramento

A questão foi depois lida de forma substancialmente diversa, como o dever dos governantes assegurar o sustento e o conforto intelectual popular, dever que pode ser materializado de formas diversas, desde o do puro clientelismo ao da gestão de um sistema que possibilite o acesso universal ao pão e circo.

E se o clientelismo num sistema democrático pode ser o instrumento para fornecer sustento – e a democracia é frequentemente acusada de se transformar num sistema clientelar – ele é menos equacionado como instrumento de fornecimento da segunda parte da equação, ou seja, do circo, mas não é contudo menos importante nesse papel.

A componente circense da política sempre existiu. Margaret Thatcher, Tony Blair ou mesmo Nigel Farage são excelentes oradores que conseguiram teatralizar de forma expedita a sua mensagem política, e devem a essa capacidade o seu sucesso, coisa que, com algumas reservas, podemos também dizer do actual Presidente da República português.

O que me parece substancialmente diferente é o de personalidades que apenas existem no domínio teatral e que daí se ergueram como líderes políticos. Creio que essa novidade no primeiro plano da política mundial se deu com Ronald Reagan.

2. A revolução reaganiana

Retrato Oficial do Presidente Ronald Reagan, 1981

Ronald Reagan licenciou-se em Economia pelo Eureka College no Ilinois de onde é natural, e daí passou ao comentário desportivo, a actor de cinema, dirigente sindical do ramo e porta-voz da General Electric, que foi a plataforma de onde foi propulsionado para Governador da Califórnia e daí para a presidência dos EUA.

Ronald Reagan foi pioneiro na penetração conservadora das classes trabalhadoras até aí identificadas com correntes progressistas ou liberais, criando o termo de ‘democratas Reagan’, com a instauração do que se convencionou chamar de neoliberalismo e com uma política de prioridade absoluta ao confronto com a URSS que seria a principal responsável pelo colapso desta última.

Ronald Reagan foi literalmente o porta-voz do ‘big-business’ americano e da sua crença na necessidade de limitar o crescimento do Estado social, normalmente identificado com a criação do ‘neoliberalismo’. Ele é também identificado com uma política de confronto com a União Soviética.

Na verdade, aquilo que é normalmente designado de neoliberalismo pode ser melhor caracterizado como o ‘consenso de Washington’, termo criado em 1989 e resultante de um consenso emergente das elites internacionais sobre a política económica a seguir. A prioridade absoluta de confronto com a URSS – e nomeadamente a aliança com o fanatismo islâmico e a estratégia de acelerada competição tendo em vista a exaustão de recursos – tornou-se política oficial quando da invasão russa do Afeganistão no mesmo ano, precedendo portanto a eleição de Reagan.

Ronald Reagan limitou-se a ser o transmissor das prioridades de ambas as elites financeira e de segurança dos EUA, mas desempenhou esse papel melhor do que qualquer intelectual que se situasse no mesmo quadrante político, por ser mais popular e por constranger menos as elites que ele representou. Conseguiu nomeadamente teatralizar essas políticas de tal forma que passou a ser identificado como o seu criador, não apenas pelo povo mas também por académicos, apesar de isso não corresponder à verdade dos factos.

3. O triunfo de Volodymyr Zelensky

De Reagan aos nossos dias tivemos numerosos casos de personagens do espectáculo que saltaram para a política, inclusivamente em Portugal, embora com sucesso mitigado entre nós. Com o novo presidente ucraniano temos algo de mais impressionante: temos alguém que criou uma telenovela que gira à sua volta como cidadão que se torna presidente; e que literalmente conseguiu adaptar a realidade política à telenovela, ganhando as eleições presidenciais tendo a telenovela como quase única base programática.

Volodymyr Zelensky

O sucesso de Zelensky é assim substancialmente mais espectacular do que o de Reagan, embora o seu país não tem a mesma importância do seu contraponto americano. Estou em crer que não estamos perante um caso isolado e menos ainda perante uma pretensa idiossincrasia do Leste europeu, mas antes perante uma tendência que se vai afirmar no mundo inteiro: o político/actor.

E do desdenhar o parlamento dizendo dele que ‘é um circo’ temos perante nós o problema inverso: será que o parlamento consegue ser um circo, ou se quisermos, um teatro, ou ainda uma telenovela ou melhor ainda um ‘reality show’ à altura das aspirações populares?

Zelensky é apesar de tudo alguém com uma educação e cultura mais sólidas do que Reagan, embora parta apenas do palco para seguir os rituais administrativos ou políticos, mas nada nos diz que não viremos a ter grandes actores intelectualmente nulos de enorme poder e pouca capacidade para entender os reptos que enfrentam.

Zelensky tem pela frente o enorme desafio de suster a invasão russa, contando para isso com alguns trunfos assinaláveis, nomeadamente o de ele mesmo ser russófono e capaz de falar ao coração russo, num jogo em que contudo os actores externos continuarão a ser decisivos.

É talvez a mais importante e interessante experiência política europeia que temos pela frente.


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