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Sexta-feira, Junho 14, 2024

A ponte sobre o Drina

Beatriz Lamas Oliveira
Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Na primavera de 2017, um monumento foi erguido na cidade bósnia de Višegrad, em memória de um terrível assassinato em massa ocorrido duas décadas antes. Uma cerimonia sombria com a presença de dignitários locais, um monumento de aço de 5,5 metros foi erguido no topo de uma colina relvada com vista para a cidade.

Višegrad foi o local de algumas das piores atrocidades que ocorreram durante as guerras após o colapso da Jugoslávia. Ao longo de um verão de 1992, cerca de 3.000 muçulmanos foram baleados, violados e afogados nesta cidade histórica ao longo das margens do rio Drina. Um resort, o Vilina Vlas, foi transformado em um campo de concentração para mulheres jovens. Em pelo menos duas ocasiões, dezenas de idosos, mulheres e crianças foram levados para as casas de gunas sérvios e queimados vivos. Essas atrocidades são o que torna o novo memorial tão chocante. A cruz cristã ortodoxa não foi erguida em memória das vítimas muçulmanas do genocídio. Foi levantada para homenagear os autores e seus aliados: paramilitares sérvios e voluntários russos que os ajudaram a limpar etnicamente a cidade.

Passaram vinte anos desde o fim desta guerra e a Bósnia continua mergulhada no ódio que destruiu o país na década de 90. Mesmo no exterior da Bósnia o extermínio cometido contra os muçulmanos é agora um facho utilizado pela extrema direita mundial.

O extremista norueguês Anders Breivik também deixou claro em textos redigidos antes do ataque que enaltecia este extermínio. O  neozelandês que matou 51 pessoas numa mesquita também se identificava com o mesmo fascínio pelo genocídio. Ligações on line entre grupos violentos de extrema direita fazem a apologia e divulgação daquilo que consideram bons exemplos de limpeza étnica, apelando muitas vezes para as diferenças de natalidade dos diversos povos filiados que seguem as suas religiões, tentando com o medo de “invasões”.

Hoje em dia na Bósnia ou se faz de conta que nada aconteceu ou se menoriza o sucedido.

Pela primeira vez os crimes de violação de mulheres foi considerado arma de guerra. Isso mostra bem o delírio de limpeza étnica que se disseminou entre a população servia.

A Ponte sobre o Drina, de Ivo Andric (1892-1975), Prémio Nobel da Literatura em 1961 d escreve esta História centrada na famosa ponte que une Visegrad, cidade situada na fronteira entre a Sérvia e a Bósnia. Li este livro três vezes. Recomendo-o.

O Rio Drina faz a maior extensão de fronteira entre a Bosnia-Herzegovina e a Sérvia.

A ponte foi mandada construir no século XVI por Mehmed Pacha Sokolović  Grão-vizir, nascido numa família cristã e desta levado para ser educado como muçulmano. A ponte une as duas margens da cidade e por ela circulam pessoas das diferentes etnias. O ponte é um símbolo da união entre etnias, religiões e culturas do ocidente e do oriente.

Junto à velha ponte sobre o rio Drina, foi projetado pelo realizador sérvio Emir Kusturica um conjunto  cultural e turístico que presta homenagem ao livro e ao seu autor. Chama-se Andrićgrad .A cruz cristã ortodoxa levantada para glorificar os horrores da perseguição aos muçulmanos é um tenebroso contra símbolo.

Os Balcãs são descritos, muitas vezes, de forma  condescendente e estereotipada como uma região atrasada, presa a velhos preconceitos. Na realidade, sérvios, croatas e muçulmanos viveram juntos como compatriotas na ex-Jugoslávia por um longo tempo antes de violentos demagogos chegarem ao poder; foram necessários anos de esforço, no final dos anos 80 e início dos anos 90, para que líderes ultra nacionalistas aumentassem o nível de medo e ódio necessários para o início da guerra. Antes de desmoronar, a ex-Jugoslávia era um lugar relativamente moderno, com uma elite altamente instruída em suas cidades e uma sólida classe profissional”.

Lembra Murtaza Hussain um experiente e conhecedor jornalista que publica textos lúcidos e muito importantes no New York Times, The Guardian, and Al Jazeera English.

É este jornalismo de investigação que temos de procurar para não sermos confundidos com as parangonas que jornalistas preguiçosos, que aparecem nas revistecas de pseudo jet set e nos atiram com poeira para os olhos, porque é mais fácil seguir a corrente do rio Drina do que olhar para a Ponte e interrogá-la.

A ponte sobre o Drina é como a esfinge: a ela podem colocar-se perguntas de uma e da outra margem, de diferentes perspetivas.

Precisamos de Édipo e de Freud para resolver  o quebra-cabeça: O homem gatinha quando bébé, anda com dois pés na idade adulta, e usa um auxiliar, a bengala, quando idoso. Mas muito frequentemente não amadurece e não aprende nada com a História que desconhece totalmente.

Ilustração de Beatriz Lamas Oliveira


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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