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João de Sousa

Quinta-feira, Dezembro 2, 2021

A Vida Invisível – o filme e o romance

A Vida Invisível é o sétimo filme realizado pelo cineasta cearense Karim Aïnouz. Mas certamente é o mais conhecido pelo fato de ter recebido o melhor prêmio na mostra Un Certain Régard no Festival de Cannes, de ter a presença festiva de Fernanda Montenegro e de ser o escolhido para representar o Brasil no Oscar de Melhor filme estrangeiro, entre outros pontos.

Ouvi num comentário de um blog que A Vida Invisível tem bastante chances de chegar a ser um dos concorrentes ao Oscar, porque ele foi ‘adotado’ pela Amazon – e esta tem um grande (não sei o nome em inglês para dizer) estofo para trabalhos desse tipo.

Assisti ao A Vida Invisível num cinema de arte da avenida Rosa e Silva, no Recife, e confesso que perdi muito dos diálogos. Foi uma visão incompleta. Então, para compensar, li o livro de Martha Batalha, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Fiquei meio tonto, sem saber o que fazer. Isso porque, do ponto de vista da construção estética, são dois produtos quase inteiramente diferentes. E eu naturalmente me liguei muito mais ao livro.

Gosto muito do cinema de Karim Aïnouz, particularmente de O Céu de Suely e também de Madame Satã. São dois melodramas sátiros. Olham a vida com um certo sarcasmo. Porém, esse lado satírico não encontrei em A Vida Invisível. E também não encontrei uma visão do Rio de Janeiro. Ouvi numa entrevista Karim elogiando a luz do filme. Fez justamente essa luz muito distante do que é, e poderia ser a luz do próprio Rio de Janeiro.

Ele também afirma que não quis fazer um filme realista, mas um filme sublinhado por uma aura. Não consegui encontrar isso. O que me parece é que Karim ficou muito subordinado à produção – e, nesse aspecto, à parte alemã da produção. Deixando que o filme fosse mais europeu, ele assim poderá agradar mais ao espectador europeu e do resto do mundo. E talvez até do Brasil. Mas deixou de lado a verdade que tem de existir numa obra de arte. E existe em seus filmes que eu conheço.

Gostei muito do romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Claro que é um trabalho de uma iniciante, mas é de alguém que naturalmente tem o que dizer ao público. O final do romance é o mais antissucesso, é até mesmo simplório, e não tem nada que se aproxime da apoteose da presença de Fernanda Montenegro aos 90 anos comemorados. Certo. Confesso que ao ler a última página da novela chorei. Talvez pelo fato de sentir um trabalho verdadeiro. A presença da repórter que Martha Batalha foi está intacta, mas também a da futura grande escritora.

O Rio de Janeiro que não senti no filme está bem presente no romance. Tanto mais o Rio que começa na Tijuca ou mesmo em Santa Tereza quanto um pouco do Rio da Zona Sul de Ipanema e Botafogo. No livro, os homens estão quase totalmente escanteados, mas não acontece como no filme, onde o papel dos homens é de verdadeiros verdugos. Os anos 40 e 50 estão presentes no livro com inteireza. No filme, não há essa verdade.

Para Karim, a estória não teve nada a ver com o Rio de Janeiro, poderia ter acontecido em qualquer cidade do mundo. Martha Batalha conheceu como repórter a vida dos anos 50 particularmente e mostrou com o romance a sua visão. “Esqueceu” os homens quase totalmente para mostrar algumas mulheres. A Vida Invisível de Eurídice não é uma vida inexistente. Eurídice tem uma vida cheia de momentos de plenitude. Porém, todo mundo “esquecia” que ela estava querendo viver – e mostrar para os outros sua vida.

Certamente Martha botou o título em torno de Eurídice porque foi em torno dessa moça que ela construiu o seu livro. E deixa claro que tudo o que Eurídice escreveu está justamente no livro que ela Martha escreveu. A autora se transforma na personagem, e esta se transforma na autora.

Enfim, temos dois produtos diferentes, embora o filme tenha se “inspirado” no livro. O filme tem muito mais acabamento técnico-estético do que o livro, é verdade. Mas o livro tem sua autonomia e a jovem jornalista que nasceu no Recife e se criou na Tijuca mostrou que tem garra para ser uma grande escritora. Ela, aliás, já tem outro livro lançado, Nunca Houve um Castelo.


por Celso Marconi, Crítico de cinema, referência para os estudantes do Recife na ditadura e para o cinema Super-8  | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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