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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

O elogio da preguiça

Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Descobri Albert Cossery numa livraria francesa, a Gibert Joseph, no Boulevard de St Michel, dedicada a obras em segunda mão. Foi aí também que comprei as obras completas de Carl Gustav Jung. Os livros de Cossery em formato livro de bolso.

Depois de lido o primeiro volume que me caiu na mão, voltei à livraria, que fica perto da Rue de Vaugirard, onde ficava e fica  o meu Hôtel Paris Vaugirard. Perto do Hotel La Louisiane, bem no centro de St Germain  des Prés, onde viveu Cossery. E comprei todos os volumes , que no total são apenas oito romances de uma genialidade que me deixa invejosa. Do autor, da sua vida e da sua perspetiva.

O túmulo deste escritor está no cemitério de Montparnasse. Morreu aos 94 anos, em 2008.

Cossery foi um escritor francês nascido no Egipto. O pai era um levantino, grego ortodoxo nascido na Síria. A família tinha posses, mas pressinto que Cossery também se considerava um pobre filho de pais ricos.

Estudou e viveu a maior parte de sua vida em Paris e escrevia em francês. Aos 27 anos escreveu “Os pobres esquecidos de Deus”.

Albert Cossery

Todos os livros que escreveu, um romance em cada sete ou oito anos, têm o Egipto, ou  um país localizado  num nostálgico  Oriente Médio criado pela sua liberdade criativa. Chamaram-lhe “O Voltaire do Nilo”.

Foi amigo de Lawrence Durrel, autor do Quarteto de Alexandria, e na minha imaginação sempre pensei que de algum modo, Cossery conheceria Clea, Mountolive, Justine ou Balthazar, personagens que dão o nome a cada um dos volumes do quarteto, livros com quem convivi durante os muitos anos em que foram os meus parceiros de cabeceira, que li e reli, sempre me sentindo mais e mais uma levantina.

Viajei para Chipre, como já disse, sozinha, para voltar a sentir esse espírito muito apátrida dos que viveram entre as duas guerras do século vinte, sentindo-se com a pele de todas as raças e tendo em si sementes de ironia, de sarcasmo, de liberdade, e de não pertença.

Foi também amigo de Henry Miller.

As sua páginas simples e lancinantes homenageiam os humildes e os desajustados da sua meninice no Cairo, e fazem o elogio da preguiça  e de uma ingenuidade que, de contemporânea, só pode ter a das crianças que brincam felizes nas favelas,  ou que riem nos campos de refugiados transformando o lixo em fantasias.

Albert Cossery, quieto e simples, desmistifica  a vaidade e a pobreza do materialismo. Os seus heróis são pobres, vagabundos, ladrões ou homens elegantes e cultos mas  sem dinheiro que, só por existirem e rirem põem em causa  uma sociedade injusta.

Por exemplo no romance “Un complot de saltimbanques”, Teymour, o herói, falsifica um diploma de engenharia química, enquanto está refastelado no prazer e na luxúria do mundo exterior, e regressa depois à sua cidade de origem, onde  entra numa rocambolesca confusão com as autoridades e os ex amigos ricos.

Cossery era homossexual e invulgarmente bonito quando era jovem. Ele nasceu ainda no Império Otomano. A mim sempre me pareceu que o tinha conhecido e que é um amigo que tenho ali.

Albert Cossery sentia que os mendigos podiam ser orgulhosos, que os mais pobres podiam ter dignidade e que ainda o ser diferente podia ser uma mais valia. Carl Rogers havia de ter rido com ele!

Em 1978, “Les fainéants dans la vallée fertile” transformou-se num  filme do diretor grego Nikos Panagiotopoulos e ganhou o Primeiro prémio no Festival de Locarno. De “Mendigos e Altivos” (1991) e The Jokers (2004) foram transformados em filmes pela diretora de cinema egípcia Asmaa El-Bakry.

Para Cossery, a indolência, a preguiça, o escárnio, o afastamento, não são poses de activista político.

Ele era assim mesmo. E viveu assim.

Para mim ele foi o último anarquista consequente.

Não o conhecem? Procurem e leiam os seus oito romances.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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