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Sexta-feira, Setembro 30, 2022

Após um ano, Castillo continua sem governabilidade no Peru

Ex-professor e líder sindical da zona rural do Peru, Pedro Castillo governa sob sabotagem constante da direita, com pedidos de impeachment por um lado e uma agenda de governo que não avança no Congresso. População está frustrada com o impasse.

Um ano desde sua posse, o presidente de esquerda do Peru, Pedro Castillo, continua sob o bombardeio da oposição com dificuldades de governabilidade. A desaprovação de seu governo, segundo institutos de pesquisa, chega a 70%.

Amanhã (28), o presidente deve se dirigir ao Congresso e à nação no 201º aniversário da independência do Peru da Espanha. É preciso mobilizar a seu favor uma população exaurida pela pandemia e a inflação. Ou continuará sendo difícil enfrentar a correlação de forças no Congresso e obter governabilidade. Não se sabe como Castillo enfrentará as adversidades para sobreviver aos próximos quatro anos de mandato.

A oposição articula permanentemente acusações de corrupção e improbidade administrativa contra o professor camponês e líder sindical da zona rural do Peru, para justificar um processo de impeachment. Ele já sobreviveu a dois deles. Com a agenda parlamentar concentrada em expulsá-lo do poder, Castillo não consegue aprovar seus projetos de governo.

O Congresso do Peru elegeu, nesta terça-feira (26), a parlamentar de direita Lady Camones sua nova presidente. A primeira vice-presidência do Congresso ficou com Martha Moyano, da Força Popular, liderado por Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000) e principal adversária da esquerda.

Castillo também saiu do Partido Peru Livre, por exigências dos partidários. Segundo Vladimir Cerrón, presidente do Peru Livre, ele estaria promovendo outras desfiliações para fraturar o partido. O partido também o acusa de não cumprir a agenda de esquerda prometida.

O presidente também já teve que fazer uma troca de ministros, nesse curto período de governo, que foi explorada pela oposição e a mídia como indicativo de incompetência e aprofundamento dos conflitos econômicos e políticos. Nessas trocas, o Peru Livre e outros partidos de esquerda perderam cada vez mais espaço no governo.

Castillo prometeu reescrever a constituição ditatorial do Peru, redistribuir a riqueza mineral e ressuscitar uma nação que mais sofreu com os impactos da pandemia no mundo.

O altíssimo índice de informalidade trabalhista dos peruanos tornou-os extremamente vulneráveis ao bloqueio econômico causado pela covid-19, tornando o Peru o país com a maior proporção de mortes, 6.312 mortes para cada milhão, numa nação de 34 milhões de habitantes. Para efeito de comparação, o Brasil aparece em 16o. lugar com metade desse número.

Castillo inflamou camponeses e indígenas peruanos com uma palavra de ordem simples: “Chega de pobres em um país rico”. Ao pedir a abertura de uma Constituinte, a oposição mostrou sua força e rejeitou qualquer possibilidade. Os peruanos entendem uma nova Constituição como a melhor forma de promover as mudanças necessárias.

A Carta Magna peruana foi aprovada durante o regime de Alberto Fujimori, em 1993, e não possui qualquer mecanismo que preveja sua reforma por meio de consulta popular. Fujimori assumiu o poder em 1990 e permaneceu dez anos no comando do Peru após realizar um autogolpe e, com apoio da cúpula militar, fechar o Congresso do país. O ex-ditador foi condenado a 25 anos de prisão por crimes de lesa humanidade.

Keiko Fujimori, da extrema-direita e profundamente impopular, tentava apavorar os eleitores de que as políticas econômicas de Castillo levariam o país a uma crise “semelhante à da Venezuela”. Com isso, o eleitorado exausto pelos quatro presidentes e dois congressos em cinco anos, levou a uma vitória apertada de Castillo.

Instabilidade econômica

Mas não é só o governo que está em crise. A oposição está dividida, não há nenhuma liderança política em vista para substituir Castillo, e a população está apática após tanta crise política. Junto com isso, irrompem as greves nacionais de sindicatos de caminhoneiros, ônibus e agricultores por causa dos altos custos de combustível, fertilizantes e alimentos. Os preços que prometiam cair, continuam subindo.

O presidente propôs ao Congresso uma legislação que reduziria o imposto sobre vendas de alimentos essenciais. Embora a economia do Peru esteja relativamente estável, em parte pelo robusto setor de mineração do país, inúmeros peruanos que trabalham na economia informal sentem o impacto dos preços crescentes.

Os prefeitos também protestam com a falta de recursos para financiar seus serviços.

As greves de transportes com bloqueios de rodovias são uma poderosa arma para desgastar um governo.

A grita da corrupção e lawfare

Foi só assumir o cargo para os ataques começarem com desconfianças de todo tipo sobre os indicados aos gabinetes de governo. Falou-se em inexperiência, dúvidas sobre a ficha policial, favorecimentos, afastamento do investimento estrangeiro. As acusações mais fáceis num primeiro momento.

O tema da corrupção é o único que importa num país onde o povo clama por soluções econômicas. Nada passa no Congresso, impedindo o governo de impor uma agenda positiva. Em março, ele sobreviveu a uma segunda tentativa de impeachment, conduzida por partidos de direita que citaram “incapacidade moral” e alegações de corrupção.

Em maio, avança sobre ele o lawfare. Castillo é o primeiro presidente na história do Peru a ser investigado por promotores nacionais enquanto está no cargo. O procurador-geral do Peru revelou que Castillo seria incluído em uma investigação de corrupção sobre seu suposto papel como líder de uma “rede criminosa” dentro de seu ministério de transportes, que supostamente recebia propina para contratos de obras públicas. Castillo, testemunhou perante os promotores em junho.

O presidente também esteve no centro de outras investigações criminais recentes, inclusive por supostamente pressionar a liderança militar para promover oficiais favoráveis ao seu governo.

Torcendo a faca, os promotores anunciaram na semana passada planos para investigar Castillo por suposta obstrução da justiça pela demissão de seu ministro do Interior, Mariano Gonzalez, que havia sancionado uma força-tarefa especial para localizar e prender aliados fugitivos do presidente.

Ontem (26), Bruno Pacheco, ex-conselheiro do presidente Castillo, se entregou às autoridades após meses foragido por conta de uma investigação de corrupção. O ex-ministro dos Transportes Juan Silva e o sobrinho do presidente, Fray Vasquez, ambos enfrentando acusações criminais, estão atualmente escondidos. O Ministério Público do Peru também abriu uma investigação preliminar sobre a cunhada de Castillo, Yenifer Paredes, por supostamente usar laços com o presidente para ganhar um contrato de saneamento em Cajamarca.


por Cezar Xavier | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornad

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