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João de Sousa

Quinta-feira, Janeiro 27, 2022

Aquele começo (quase) demolidor…

Luís Fernando, em Luanda
Jornalista, correspondente do Tornado em Angola

Sérgio Inocente soube pelas notícias daquele dia que a coisa tinha sido um arraso. Uma espécie de bomba, não de efeito retardado, mas uma bomba quase ao estilo da Litlle Boy, largada sobre Hiroshima, já lá vão mais de 70 anos.

Teve de ir até à varanda e lançar um olhar para o horizonte. Precisava ter a certeza de que lá continuavam as casas, os parques, as ruas, as árvores e, sobretudo, o movimento frenético de munícipes e automóveis numa cidade que adora o caos.

E tudo por causa de um comício em que o adversário que mais teme «entrou a matar». Sabia, por comentários dos membros da sua equipa de campanha, que Joni Lô poderia não ser um adversário fácil e previsível. Por várias razões.

Mas confiante que é na sua própria intuição, não deu ouvidos ao staff. Nem sequer quis saber que razões poderiam ser aquelas.

– Vamos lá a ver o que é o que homem pode vir a dizer. Lugares-comuns, justificações…coisas dessas – supôs.

– Marido, olha que desta vez, sendo o candidato alguém que mal conhecemos todos, talvez seja melhor ouvires mais os outros – arriscou Zumba, a mulher, definitivamente chateada com a intuição do esposo-candidato, que parece resultar cada vez menos. Há anos que não há palácio para ninguém, por teimosia quase malvada do homem que ama.

Joni Lô, o candidato do partido Vitória Certa, fez uma estreia digna de um campeão de boxe dos que vencem ao primeiro assalto. Quando todos esperavam que fosse atacar pela direita, surpreendeu com um gancho esquerdo bem colocado.

– Não há flanco que os adversários possam aproveitar para esboçar um contra-ataque – ouviu-se na TV, pela voz de um analista dos mais reputados.

– Pode ser que essa gente tenha razão – admitiu, quase conformado, o candidato Sérgio.

E lá se pôs a fazer um inventário mental do que julgava ser o seu pacote de trunfos para o duelo que imaginava para dali a um mês. «Joni Lô já falou da corrupção, diz que a vai cercar de forma apertada; Joni Lô diz que vai trabalhar duro para haver autossuficiência alimentar; Joni Lô diz que a excessiva centralização do poder atrapalha o desenvolvimento…». E eram todas ideias com que pensava fazer furor dali a um mês, no lançamento da sua campanha.

– Não será que estes gajos que me assessoram são uns infiltrados que me roubam as ideias, Zumba? – gritou, desvairado.

– Marido, fala mais baixo – implorou Zumba, meio assustada – sabes que horas são? Ainda acordas os miúdos!

– É verdade meu amor, quase duas da manhã – penitenciou-se Sérgio Inocente, todo sem jeito.

– Queremos vencer, sim, mas não à custa do sono dos kandengues. Eles não têm culpa da tua falta de tino, marido – atacou Zumba.

Dizem que as mulheres, à madrugada, dão sempre mais ouvidos ao seu instinto maternal.

– Sirvo-te uma sopinha meu bem? Preocupa-te com o Joni Lô depois do próximo comício, que este já está. Pontos para eles! – aconselhou Zumba, com a lucidez de uma vida em ponto alto.

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