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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

As balas perdidas miradas para Emily e Rebecca

Como podemos naturalizar o assassinato de duas crianças negras?

Até quando? Até quando a sociedade verá alheia o extermínio do povo preto? Até quando o Estado brasileiro negligenciará e promoverá o assassinato sistemático de crianças e jovens negros? São perguntas feitas recorrentemente, mas sem nenhum tipo de resposta.

Era sexta-feira (04), por volta das 20h30, quando Emily Victória e Rebecca Beatriz brincavam na porta de casa. Duas crianças com 4 e 7 anos de idade, respectivamente. Faz-de-conta, boneca, bola, corre-corre, “blogueirinhas” e etc. Na imaginação das crianças, as mais diversas brincadeiras acontecem. Emily sonhava com a Moana (personagem da Disney), que inspiraria o seu 5° aniversário no próximo dia 23. Ambas, Emily e Rebecca, com uma vida inteira pela frente.

O que os seus familiares e as pequenas não imaginavam é que suas vidas seriam ceifadas da forma mais violenta e cruel naquele dia. Um tiro de fuzil foi suficiente para tirar a vida das duas meninas em Duque de Caxias, Baixada Fluminense (RJ). “O que duas crianças de 4 e 7 anos fizeram para merecer este fim? ”, perguntou a tia, indignada. Dois sonhos apagados. Duas histórias interrompidas. A cor da pele? Preta! O que aconteceu? Bala perdida! Bala perdida que tem como destino os corpos negros, pois quando ocorre qualquer intervenção do Estado nessas comunidades Brasil afora, as vidas negras são o alvo principal.

Ilustração: Nando Motta

Como podemos naturalizar o assassinato de duas crianças negras? Como não amanhecemos o dia de sábado fazendo os mais diversos tipos de manifestações, cobrando não apenas justiça, mas uma mudança urgente no sistema de segurança brasileiro? Como não amanhecemos enlutados exigindo o fim do racismo? São Emillys, Rebeccas, Ágathas, Annas, Renans, Ruans, Marcos, Leônidas, João Pedros, Souzas, Silvas e tantos sonhos.

Em seu livro “Mulheres, raça e classe”, Angela Davis conta a história de Margaret Garner, mulher negra escravizada que decidira fugir, mas quando percebeu que seria capturada, matou a própria filha para que a mesma não voltasse à escravidão. Em seguida, tentou se matar, mas sem sucesso. Ela acreditava que “o inferno seria melhor que a escravidão”. Quando li esse trecho fiquei refletindo sobre a angústia, desespero e sofrimento dessa mãe a ponto de tirar a vida da própria filha, pois sentia na pele o que significava ser uma mulher negra escravizada.

O objetivo não é fazer nenhum tipo de juízo de valor sobre a atitude de Margaret Garner, mas o fato é que isso me faz refletir sobre os pais de crianças negras que vivem amedrontados em nossa sociedade, pois sabem que podem perder os seus filhos em uma esquina qualquer, na porta da rua ou dentro da própria casa, como foi o caso do menino João Pedro. Os pais das crianças negras sofrem, pois sabem do caminho longo de preconceito, violência e discriminação que seus filhos enfrentarão na vida, mas vibram felizes quando os veem entrar numa universidade – sonho que só foi possível há pouco tempo. Alcançar uma vida digna e uma carreira sólida no mercado de trabalho é mais difícil para os negros e negras, que geralmente precisam se esforçar dez, cem, duzentas vezes mais, pois o ponto de partida e as oportunidades são diferentes em comparação aos jovens brancos.

DivulgaçãoSe fizermos um paralelo com a sociedade escravocrata e a atual, veremos que pouco mudou em centenas de anos. Os corpos negros continuam sendo amordaçados, desvalorizados, criminalizados, violentados e ceifados. Nem as crianças escapam desse triste e cruel destino. Os métodos mudaram, mas não foram extintos. O chicote e a mordaça foram substituídos por fuzis e balas perdidas que vão na direção de um povo historicamente alvo do racismo estrutural.

O caminho que temos para percorrer rumo a uma sociedade livre do racismo é longo. Vamos precisar de todo mundo para encontrar as devidas respostas e mudar o sistema. Ser antirracista é uma luta necessária, que está diretamente relacionada com a sobrevivência do povo negro. Justiça por Emily e Rebecca e muita luta contra o racismo!


por Nágila Maria, Psicóloga   |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

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