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Sábado, Outubro 23, 2021

As revelações de Assunção Cristas

Estrela Serranohttps://vaievem.wordpress.com/
Professora de Jornalismo e Comunicação

A entrevista em duas partes de Assunção Cristas ao jornal Público desfaz a imagem que muitos tinham de uma líder sólida e bem preparada. De facto, Cristas faz revelações que mostram da sua parte alguma inconsistência e imaturidade política.
Algumas dessas revelações, sendo úteis para um melhor conhecimento do funcionamento do governo Passos/Portas de que ela foi ministra, mostram que Cristas não percebeu na altura nem percebe agora as implicações do que afirma ter acontecido.

Desde logo, a afirmação de que “o Conselho de Ministros desse governo nunca foi envolvido nas questões da banca” e que “Passos só uma vez falou sobre o BES dentro do anterior Governo, bastante antes da queda do banco” e que “a banca era um assunto do Banco de Portugal”. Diz, textualmente, Cristas:

“Lembro-me vagamente de ter referido que o BES poderia ser um problema. Acho que foi por aqui. Não posso garantir tudo porque, de vez em quando, havia um ou outro Conselho de Ministros em que eu não estava, por razões de representação do ministério. Mas discussão em profundidade do problema do BES, das soluções, das alternativas, das hipóteses, isso nunca aconteceu(…)”.

Esta revelação é feita com aparente distanciamento, como se o seu partido não tivesse sido parte integrante do governo, sem a reflexão que se impunha. Cristas limita-se a justificar e a interpretar o pensamento e a decisão do então primeiro-ministro Passos Coelho como se a omissão da informação e a ausência de debate sobre a banca fossem indiferentes para si (enquanto ministra e dirigente do CDS) e para os seus então colegas de governo.

As suas palavras mostram também que ou Passos não se apercebeu da situação calamitosa em que se encontrava a banca; ou apercebeu-se e deixou andar para garantir a chamada “saída limpa”; ou não confiava nos seus ministros; ou estes não lhe mereciam crédito e não lhe interessava ouvi-los sobre o problema.

Mas Cristas também não percebeu que tão inacreditável como a omissão e o desprezo revelados por Passos face ao seus ministros é o facto de, pelos vistos, ela própria e os outros ministros não perguntarem nada nem terem a iniciativa de suscitar a discussão da banca, nem que fosse a título de mera informação. O conselho de ministros era, pelos vistos, para Passos um verbo de encher e Assunção Cristas acha isso normal.

Cristas explica também, ao Público e ontem aos microfones da TSF, as razões dos impropérios que lança ao primeiro-ministro nos debates parlamentares. Diz a líder do CDS que recebe muitos sms do seu partido a felicitá-la quando é mais agressiva, apesar de às vezes ficar incomodada consigo própria. Cristas mostra assim, na sua pureza, que precisa de agradar à sua gente, pelo que aguardamos pelas novas formas de expressão que utilizará nos debates parlamentares para obter ainda mais sms de felicitações…

Cristas veio também defender Paulo Núncio com argumentos de estarrecer. Questionada sobre as notícias que referem que Núncio está ligado ao registo de cerca de 120 novas sociedades na Zona Franca da Madeira e que também foi advogado da empresa petrolífera venezuelana PDVSA, responsável pela saída da “maior fatia” da saída de dinheiro para ‘offshore’, Cristas revelou que para ela professores e académicos não têm “vida profissional” (o que serão então, parasitas?…). Leia-se o que disse Cristas:

“No limite, se nós acharmos que ninguém pode ter uma vida profissional antes de cargos governativos, então vamos ter um problema muito grande porque só podem ser governantes professores, académicos, professores de liceu e gente que não tem uma vida privada. Vale a pena perguntar se é o sistema que nós queremos e se é essa democracia que queremos construir”.

Podia ainda continuar com as citações de Cristas sobre o que Passos Coelho lhe disse e o que ele pensa (ou o que ela acha que ele pensa) sobre as autárquicas. Presumo que o tenha consultado apesar de estar na moda para o CDS e para o PSD a divulgação de conversas e pensamentos privados (o livro de Cavaco e o caso dos sms de António Domingues e Mário Centeno são exemplos). Se o Público tivesse insistido, certamente Assunção Cristas teria mostrado os sms de felicitações que recebeu do seu partido quando chamou “mentiroso” a António Costa.

Assunção Cristas não mostra nesta entrevista um pensamento político estruturado revelando algum deslumbramento com a chefia do partido para que foi “nomeada” pelo seu criador, Paulo Portas. Cristas tem porém ainda um longo caminho a percorrer. Por agora, parece agir em função da necessidade de afirmação interna e da obtenção de efeitos mediáticos. Assim não vai longe.

Artigo publicado originalmente no blog VAI E VEM

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