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Quinta-feira, Abril 18, 2024

As Utopias em Novembro

Mendo Henriques
Mendo Henriques
Professor na Universidade Católica Portuguesa

utopia

Muros que caem, outros que se erguem, sonhos que se desfazem, utopias que renascem.

Quando Tomás Moro escreveu Utopia em 1516, essa sociedade numa ilha imaginada pelo personagem que lhe servia de heterónimo, o navegador português Rafael Hitlodeu, talvez não previsse que estava a criar um género literário.

Utopias

A Utopia descreve as instituições económicas, política e religiosas de uma sociedade ideal preferível à Europa do seu tempo. Na Inglaterra “as ovelhas comiam os homens”; as pastagens reservadas à criação de gado para tosquia expulsavam os camponeses para as cidades, e para a pobreza e o roubo, enquanto crescia a ganância dos grandes proprietários. Em O Capital, Marx enalteceu esta descrição.

A solução radical da Utopia é abolir a propriedade privada, raiz da soberba e do egoísmo. Se tudo fosse de todos, ninguém roubaria, nem mataria, nem faria a guerra de conquista. Tomás Moro sabia que estava a pedir o impossível. Como membro do Parlamento e primeiro-ministro inglês entre 1529 e 1534 não agiu como pedia na sua obra.

Contudo, quando chegou a hora da verdade, em confronto com Henrique VIII que queria provocar mais uma divisão na Igreja, tornar-se chefe da Igreja anglicana e expropriar o clero, Tomás Moro teve a coragem moral de se opor ao rei que todos temiam. Pagou com a vida essa oposição à vontade tirânica do monarca.

Esse exemplo admirável da sua obra e da sua morte tornou Tomás Moro um santo da Igreja Católica e do movimento comunista.

O impacto da Utopia foi tão forte que foi seguido por mais vinte utopias só no século XVI; a um século de distância veio a Cidade do Sol de Campanella, e a Nova Atlântida de Bacon. No século XVIII, As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift, o Robinson Crusoe de Daniel Defoe, as Viagens a Tahiti de Bougainville são variações iluministas sobre as sociedades ideais.

“No princípio todo o mundo era América…” é uma fórmula de John Locke que pertence a esta descrição da sociedade ideal e a ficção do bom selvagem continua nas obras de Rousseau, em O último dos Mohicanos de Fenimore Cooper e o Atala de Chateaubriand.

No séc. XIX, os desafios da revolução industrial criaram novas utopias – de Owen, Fourier, Saint-Simon e Cabet – que vieram a ser chamadas de socialismo utópico. Descreviam minuciosamente sociedades tão perfeitas que dispensavam o ser humano de um esforço de aperfeiçoamento.

Foi Friedrich Engels quem criou a expressão ‘socialismo utópico’ que considerava inferior ao ‘socialismo científico’. As propostas de ambos os sectores iriam confrontar-se, desde o comunismo soviético até Maio de 68, desde Proudhon até Marcuse, entre o esquerdismo e a ortodoxia leninista.

Distopias

Esgotada a corrente optimista da utopia, começaram a surgir as distopias. Em primeiro lugar, agitando a ameaça tecnológica. É o caso de Erewhon de Samuel Butler, da Utopia Moderna de H.G.Wells, do Admirável mundo novo de Aldous Huxley. Karel Kapek escreve a peça R.U.R., iniciais de Robots Universais de Rossum, contra a ameaça dos autómatos. Anthony Burgess apresenta a Laranja Mecânica.

Com o trunfo da Revolução Russa surgiram as distopias políticas. Eugénio Zamyatin escreveu Nós, em 1920. As pessoas não têm nomes mas apenas números e o amor é proibido. No Triunfo dos porcos (1945), George Orwell descreve a chegada ao poder dos totalitários. Em 1984 desenvolve o Nós, de Zamyatin numa sociedade em que a propaganda inverte a linguagem e a realidade e se lança à conquista do mundo.

As distopias descrevem a banalização do mal e a violência organizada do estado, dos gangs e das instituições. As novelas de Jack London e Somerset Maugham e o Joseph Conrad de Coração de Trevas desenrolam-se no mesmo ambiente, em que a vida decorre às avessas.

Heterotopias

E temos ainda as heterotopias, lugares que imaginam ou constroem um espaço diferente,em que a realidade é simulada como num museu ou jardim botânico e zoológico, ou imposta como num asilo, prisão, internato, enfermaria.

A humanidade ou sonha ou morre. Vivemos até 1989 rodeados pela força maciça dos que nos queriam libertar à força através de mundos perfeitos. Vivemos desde 1989 presos pelos vendedores de mercadorias que nos querem libertar através da imaginação aquisitiva.

Sonhar ou morrer, parece ser o nosso destino. Por tudo isto, temos de repensar as utopias, as distopias e as heterotopias.

É o que iremos tentar com mais de 60 especialistas, reunidos entre 24 a 26 de Novembro, por iniciativa dos Centros de Estudos da Faculdade de Ciências Humanas, da Católica, em colaboração com entidades como o CLEPUL, a Professional Women’s Network, e o CF António Sérgio.

Em conjunto iremos promover o Congresso Internacional Tomás Moro e os Horizontes de um Mundo Melhor, por ocasião dos 500 anos da publicação da obra Utopia, a fim de questionar de que modo a mensagem de Tomás Moro continua presente nos caminhos da cultura, da política, da economia, da religião e da reivenção da sociedade .

Após décadas de falsas utopias, de que iniciativas de imaginação criadora seremos ainda capazes?

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores.

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