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Quinta-feira, Julho 7, 2022

Boicote de Biden a petróleo russo pune o mundo todo e amplia conflito

A economia global pode estar enfrentando um dos maiores choques de fornecimento de energia de todos os tempos, alertam especialistas em petróleo.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou nesta terça-feira a proibição das importações russas de petróleo e gás para os Estados Unidos em retaliação à ofensiva militar da Rússia na Ucrânia, injetando mais incerteza sobre como o conflito e a crise de energia serão resolvidos. Apesar de seu consumo representar apenas 1% do petróleo russo, os EUA contribuem para a inflação de combustíveis em todo o mundo.

Os parceiros europeus dos EUA seguiram com sua própria pressão. O Reino Unido disse que eliminaria gradualmente as importações de petróleo e derivados russos até 2022, enquanto a União Europeia disse que reduziria as importações de gás russo para a Europa em 66% até o final do ano.

A Rússia desempenha um papel fundamental no fornecimento global de energia e a desestabilização pode enviar ondas de choque pela economia global – que já está sofrendo com a escassez de oferta, gargalos e pressões de preços causadas pela pandemia de coronavírus.

Corte de 1% nos EUA

Os EUA importaram uma média de 209.000 barris por dia (bpd) de petróleo bruto e 500.000 bdp de outros produtos petrolíferos da Rússia em 2021, segundo a American Fuel and Petrochemical Manufacturers.

Apenas um por cento das exportações de petróleo da Rússia foi para o mercado dos EUA em 2020, de acordo com a Administração de Informações sobre Energia dos EUA. Para os EUA, esse volume representa 8% de seu consumo total de petróleo. Mas analistas alertam que isso pode ter consequências mais profundas, pois a Rússia poderia retaliar reduzindo ainda mais as exportações ou cortando as exportações para aliados dos EUA. Além disso, a China pode acabar desempenhando um papel crucial na absorção de petróleo que os EUA proibiram.

Na terça-feira, após os comentários de Biden, o petróleo Brent de referência global subiu 7,35%, para US$ 132,27 o barril, enquanto o US West Texas Intermediate subiu 7,26%, para US$ 128,07. Na terça-feira, o Brent atingiu uma alta de US$ 133,15 e o WTI se aproximou de US$ 130 por barril. Não faz muito tempo que os analistas se perguntavam se o petróleo chegaria a US$ 100 o barril.

Os consumidores americanos já estão sentindo a dor na bomba. Os preços da gasolina atingiram um recorde desde que a Rússia lançou sua invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro. A inflação dos EUA em 7,5% – a maior em 40 anos – pode piorar.

A indústria de petróleo e gás da Rússia foi omitida nas sanções iniciais que o Ocidente impôs a Moscou, com o objetivo de prejudicar os setores financeiro e de tecnologia da Rússia e pressionar uma mudança nas políticas do presidente russo, Vladimir Putin.

As gigantes do petróleo British Petroleum e Shell haviam dito na semana passada que estavam retirando negócios da Rússia. A Shell deu um passo adiante na terça-feira, anunciando que deixaria de comprar petróleo russo.

Punição para o mundo todo

Enquanto as hostilidades na Ucrânia continuam em meio a três rodadas de negociações malsucedidas e o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy pede mais ações do Ocidente, analistas alertam que punir a Rússia pode ter um impacto econômico de longo prazo no resto do mundo.

O petróleo é uma commodity básica, peça-chave do transporte e comércio global, afetando a fabricação de produtos e interferindo em toda a cadeia produtiva. O indicador dos custos globais de alimentos saltou para um recorde, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.

O aumento dos preços dos alimentos está afetando desproporcionalmente os países pobres do Oriente Médio e da Ásia. O ritmo da inflação de alimentos também está ameaçando o valor da moeda das economias emergentes.

A Rússia reagiu, ameaçando na terça-feira retaliar as sanções ocidentais, interrompendo os fluxos através do Nord Stream 1, um gasoduto que fornece gás à Europa.

A Rússia fornece 40% do gás da Europa. A Alemanha, que expressou relutância em proibir as exportações russas de energia, depende da Rússia para quase 50% de seu gás natural.

Os 4,3 milhões de bpd de importações de petróleo dos EUA para o Ocidente da Rússia em janeiro de 2022 não serão rapidamente substituídos por outras fontes, disse a Rystad Energy, uma empresa de pesquisa sediada na Noruega, em nota após os comentários de Biden.

“Dado o papel fundamental da Rússia no fornecimento global de energia, a economia global poderá em breve enfrentar um dos maiores choques de fornecimento de energia de todos os tempos”, alertaram analistas do Goldman Sachs na terça-feira.

Mesmo que os países liberem suas reservas estratégicas de petróleo – petróleo bruto que pode ser explorado em tempos de emergência – e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) bombeie mais petróleo, os preços provavelmente permanecerão altos.

Para ajudar a estabilizar os preços, os EUA têm capacidade para aumentar sua produção de óleo de xisto, que tem extração mais complicada que o petróleo. Exige mão de obra, areia de fraturamento, que está extremamente cara. Existem componentes logísticos e de infraestrutura associados à ativação da produção de xisto nos EUA, o que pode atrasar a extração.

Parceiros no Golfo

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait poderiam aumentar a produção em 2,1 milhões de barris por dia em relação aos níveis atuais dentro de alguns meses, estima o Goldman Sachs. Mas Biden não teve grande sucesso em encorajar parceiros no Golfo – os sauditas, os Emirados Árabes Unidos, a colocar mais barris no mercado.

A Arábia Saudita terá que aproveitar sua capacidade ociosa, que Riad trata como uma prioridade de segurança nacional. Também há o Irã e a Venezuela ricos em petróleo, adversários aos quais os EUA se voltaram nas últimas semanas.

Alcançar um acordo nuclear com os iranianos poderia trazer barris extras ao mercado. O levantamento das sanções dos EUA sobre as importações de petróleo da Venezuela também pode ajudar a tapar o buraco do petróleo.

Em relação a absorção do petroleo proibido pelos EUA, a infraestrutura de oleodutos da Rússia para a China existe, mas se ela pode ou não lidar com esse fluxo de suprimento adicional não se sabe.


por Cézar Xavier | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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