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João de Sousa

Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Brinquedos proibidos

A obra do cinema clássico francês “Jeux Interdits”, a série “Black Mirror”, da Netflix, o romance japonês “Mil Grous” e a animação “The Critic”.

Eu vi o filme “Jeux Interdits” de René Clément em 1957, numa sessão no Teatro do Parque, no Recife. Revi hoje nessa madrugada de uma quinta-feira. É incrível como se pode gostar de um filme e se continuar gostando com quase 65 anos de diferença. É uma obra do cinema clássico francês e foi assim condenada pelo então crítico do Cahier du Cinèma, François Truffaut. Ele, que seria um dos principais participantes da Nouvelle Vague como cineasta, diretor, chegou a dizer que o filme de Clément era um ‘caldo raso’. Uma enorme besteira, pois depois, como sabemos, Truffaut brigou com Jean-Luc Godard e fez obras narrativas só mais ou menos boas.

Minha visão de “Brinquedos Proibidos” que eu me lembro foi numa sessão especial no Teatro do Parque, e também me lembro que estava acompanhado de uma amiga e colega do curso de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco, Brites Gondra. E me lembro ainda que ela me incentivou para falar e dizer o que eu estava pensando e ela também. Do quanto a gente estava adorando o filme de Clément, a sua imagem, a carinha maravilhosa de Paulette representada na atriz Brigitte Fossey, que quando representou para as filmagens deveria ter uns 7 ou 8 anos. E conseguiu, certamente que pela elaboração técnica de Clément, transmitir a sensação de profunda tristeza. Acima de tudo, o filme tem toda essa densidade que se mistura com imensa sensação de desprendimento passado pelas feições dessa menina. Michel, vivido por Georges Poujouly, também é um momento de grande cinema, mas a principal imagem vem da menina.

Cena do filme “Brinquedos Proibidos”, de René Clément

O roteiro musical criado pelo músico Narciso Yepes com uma canção sonora, executada em harpa, traz outro ponto fundamental para que o filme seja tão belo.

Fazer um filme que falasse sobre o drama das famílias atingidas pelas bombas nazistas durante a invasão da França, realmente não seria difícil para o cineasta René Clément. Mas o mais importante era conseguir transformar esse drama numa história real em torno de duas crianças, e também mostrar quem na verdade eram aquelas pessoas que estavam sendo destruídas pelos nazistas alemães. Com a estória que se desenvolve depois que Paulette vai viver no interior da França, o cineasta mostra com naturalidade quem eram os franceses e me parece que esse conhecimento continua importante, também necessário de ser conhecido nos dias atuais. Os camponeses eram aquelas pessoas que se importavam mais com o preço das cruzes que haviam colocado no cemitério do que mesmo com a verdade de cada ser humano. Enquanto Paulette e Michel viviam um intenso drama pessoal humano, os outros somente entendiam as meras circunstâncias familiares. E o filme consegue transpor toda essa dimensão psicológica e também social.

O pessoal da Nouvelle Vague estava pensando principalmente em criar uma nova forma de construir o cinema, o filme, e assim não conseguiram ter olhos para ver a dimensão especial do filme de Clément.

“Jeux Interdits” está à disposição no portal Making Off. Existem duas cópias colocadas por pessoas diferentes. Uma delas com o título em francês está com o som funcionando. E a outra está sem som.

Olinda, 01. 07. 2021


 

Uma série da Netflix

Série “Black Mirror”, da Netflix (Divulgação)

Há algumas semanas eu estou vendo uma série que está passando há tempos na Netflix, mas que Marco Queiroz e minha filha Isabela Lins me indicaram, “Black Mirror”. Eles gostaram e Isabela me disse que a série mostra um mundo em comportamento no futuro próximo com a existência de tanta tecnologia. Eu já vi quase dez episódios. Mas ainda não me convenci da qualidade estética/filosófica da série. Ainda vou continuar a ver, pois são estórias interessantes como ação cinematográfica. Embora violentas na maior parte.

Olinda, 03. 07. 2021


 

Mil Grous, romance de Kawabata

Romance Mil Grous, de Yasunari Kawabata (Divulgação)

Entre outras coisas, me ocupei a ler nos últimos dias o romance de Yasunari Kawabata, “Mil grous”, considerado pela crítica e realmente uma joia da produção literária do século passado no Japão. Um trabalho de criação literária incrivelmente belo. Não estou me referindo à estória. Estou pensando apenas na linguagem criada por Kawabata. É um trabalho de grande expressão artesanal. Não é só contar uma pequena estória de um rapaz e suas relações. É o mais importante, criar uma linguagem. Como delicadamente descobrir as palavras fundamentais para se contar uma estória. Dá gosto de ler. Imaginemos o que não deverá ser no próprio original japonês.

E a estória também é especial. O leitor não conhecerá apenas os quatro personagens que a circulam. Saberá sobre como se comportava a família japonesa. Como um rapaz de vinte anos após a morte do pai passa a de alguma maneira substituí-lo. E a se relacionar com as pessoas que o cercavam. Yasunari Kawabata é, foi sem dúvida um grande mestre. E o que me parece maior é como ele extrai de pequenos personagens toda uma vida e também a vida social do seu país.

Estranho na vida das pessoas como os fatos se encontram. No meu estudo de inglês, leio pequenos exercícios que são pequenas estórias. E agora justamente, enquanto estava lendo a estória de Kawabata, li uma que conta um casamento nos dias atuais nos Estados Unidos. Claro que é um texto literário de valor apenas estudantil. Mas ganhou importância para mim quando pude comparar um casamento onde a mãe do noivo conhece a mulher do filho, pensando que a estava apresentando para um possível romance. E no começo do século XX ainda, a estória de um possível casamento tem a complexidade do que nos narra Yasunari Kawabata.

Olinda, 27. 06. 2021


 

Brinquedos permitidos

Cena da animação “The Critic”, de Ernest Pintoff

Um filme não tem nenhuma relação com o outro, mas sem dúvida se aproximam. Eu me refiro ao “Jeux Interdit” de René Clément e ao curta “The critic” de um cineasta norte-americano, pouco conhecido, Ernest Pintoff. É um pequeno filme de animação, que recebeu o prêmio Oscar de Melhor Filme de Animação nos anos 1960. E por que seria proibido? – Pelo fato de aparentar uma crítica forte ao próprio cinema. Mas é tudo uma brincadeira. Um desenho animado de quatro minutos e na plateia está o famoso cineasta ator Mel Brooks falando alto e dizendo que aquilo, aquelas imagens não podem ser cinema, pois não é possível pagar 2 dólares para assistir àquela porcaria. E os outros espectadores pedem para ele calar a boca. Também está em exibição no site Making Off.

Olinda, 04. 07. 2021


por Celso Marconi, Crítico de cinema mais longevo em atividade no Brasil. Referência para os estudantes do Recife na ditadura e para o cinema Super-8  |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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