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Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023

Burcas e Descobrimentos

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

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Estudar as matérias que a ciência das religiões oferece induz a alguns compromissos: em primeiro lugar a disponibilidade para entender e aceitar as religiões fora do quadro religioso, isto é, de um modo não confessional – o que implica maturidade científica e sentido crítico e a tranquilidade de uma postura incapaz de consagrar a inutilidade de convicções erradas como a estipulada pela velha querela: “ a minha religião é melhor do que a tua”.

Entender as religiões é um esforço de compreensão do Homem enquanto ser plural e (também) espiritual

Um ateu pode ser um profundo conhecedor de religiões, e um pastor, um padre e um imã podem não entender nada de religião, embora lhes pertença o domínio dos seus dogmas.

O que vemos no século XXI são alguns efeitos especiais que precisamos identificar: movem-nos (a nós, povos), o entendimento do Estado como unidade, como conjunto de instituições ao nosso serviço (ou contra nós, porque controlar e administrar uma nação nem sempre é favorável aos controlados e administrados da mesma, como aliás a história tem vindo a demonstrar).

Entendido o Estado, há que entender a Religião, que em casos extremos é absorvida pelo Estado, sendo o próprio Estado. Nesses exemplos, os equívocos estabelecem-se. E o primeiro é dizer que um Estado confessional é um Estado Teocrático. Difícil? Nem tanto. Os teocráticos são Estados dependentes da Religião: teocracia (do grego Teo: Deus + cracia: poder) é um sistema de governo em que as ações políticas, jurídicas e policiais são submetidas às normas de (algumas) religiões.

O Estado confessional tem uma religião – e muitas vezes é uma religião de Estado

Os que não possuem uma religião oficial chamam-se laicos. E este é um dos três vértices da pirâmide em análise: o Laicismo (sim, os outros vértices são o Estado e a Religião). Os estados laicos não são contra. Em particular, não são contra a religião. Pelo contrário, devem ser promotores do pluralismo religioso e da cidadania. Mas não chega.

Ser promotor do pluralismo não implica aceitar sem peias o plural. E apostar na cidadania pode não ser suficiente para gerar o intercultural (o modo efetivo de vivermos as nossas diferenças como um coletivo que se entende, no mesmo espaço e ao mesmo tempo).

Estamos portanto à distância de muito trabalho para aceitar verdades inegáveis: que o homem é um ser religioso e espiritual, mesmo quando as suas crenças nada tenham a ver com religiões instituídas ou estruturas de crença reconhecidas e que um ateu pode ser tão complexo e completo como um guru do hinduísmo ou do siquismo, um monge tibetano, um pastor evangélico ou uma freira de Fátima… (e demais exemplos semelhantes).

A garantia das liberdade deve vir à cabeça. A começar pela liberdade individual, cultural, de aceitar que se tenha religião e que se pratique a mesma. Há nesta passagem dois temas que se confundem: o laicismo – e a laicidade. O primeiro é princípio; uma ideologia de matriz claramente humanista. Valoriza as dimensões mais universais do ser humano, entendido na sua individualidade plural, tem um sentido contrário ao etnicismo ou, melhor, aos etnicismosregionalismos, nacionalismos, etc. – que, acima de tudo, valorizam as diferenças e os particularismos por que se podem afirmar os diferentes grupos humanos.

Ser laico é uma opção humana, que promove o indivíduo (menos do que o individualismo). É consagração respeitadora do Humanismo.

Laicidade, por seu turno, designa os diferentes modos concretos desse princípio ser levado à prática e opõe-se à etnicidade que releva muito especialmente as diferenças e as identidades de grupo.

Disse que voltaria ao tema burquini – e mesmo que tal não pareça, é o que faço agora

Escrevi neste mesmo jornal que a maior parte da Humanidade não sente ter problemas filosóficos – e felizes são os que não se questionam, ou simplesmente acreditam em formatos que os confortam. É verdade. Notei isso nas reações ao artigo – as mais entusiastas foram produzidas por um hebreu e por dois muçulmanos, em comentários de grande amizade e acerto. Concordam comigo que o que está em causa não é o formato religioso – mas o político. Que a sociedade de tipo laico tem muito a aprender com o que se passou (e que as sociedades fundamentalistas estão a anos-luz dessa compreensão e falta-lhes, entre outras aprendizagens, o respeito e a sabedoria de uma cultura do género.

Quando os filósofos de Alexandria, no Egito, promoveram o sincretismo de Ísis e Palas Athena, a deusa grega da Sabedoria, o seu templo, em Saís, passou a ostentar uma máxima que veio a tornar-se clássica: “Eu sou tudo o que é e o que sempre será. Mortal algum jamais erguerá meu véu!” Ora, na condição de simples mortal, isto é, de profano não iniciado nos Mistérios, o aspirante permaneceria à margem do conhecimento, até que este lhe fosse revelado pela abertura dos “olhos espirituais”.

O mundo em que vivemos precisa de apostar numa cultura revolucionária. Dessas em que os iniciados aprendem sempre – por exemplo, a viverem as suas diferenças.

Voltarei ao tema (para a semana).

Este artigo respeita o AO90

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