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Terça-feira, Junho 22, 2021

Cai a civilização diante da chacina dos que ainda sonham com vida digna

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Esta seleção de cinco canções fundamentais para quem insiste em sonhar com outra vida possível, marca a revolta contra mais uma chacina promovida pelo braço armado do Estado sem sentimento pelo povo pobre.

É duro ver a morte estampada na TV e em vídeos pela internet de maneira tão cruel, tão vil, tão covarde. Sempre na favela, contra os mais pobres. Onde o Estado não leva as políticas públicas necessárias para melhorar a vida desse povo. Mas leva balas, tiros, brutalidade, desrespeito, humilhações, mentiras e morte. Até quando?

Junto a esse humilde protesto, canções que marcam o 1º de maio – Dia do Trabalhador – a Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974, em Portugal, mas principalmente, a dor que se arrasta e insiste em matar pessoas das favelas, sem nenhuma piedade. Execução sumária. Onde está a Justiça?

 

Gonzaguinha

Um dos grandes nomes da MPB, o carioca, Luiz Gonzaga Júnior, Gonzaguinha (1945-1991), tem uma obra fundamental para a compreensão da alma do Brasil. “Um Home Também Chora” foi escolhida para celebrar o Dia do Trabalhador, pela candura e pela mensagem de valorização de quem vive do trabalho.

Mas as pessoas choram também quando veem pessoas sendo assassinada brutalmente. Uma barbárie sem limites. A civilização chora. O mundo exige justiça.

“O homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se marta
Não dar pra ser feliz”

Um Homem Também Chora (1983), de Gonzaguinha

 

 

Caetano Veloso e Gilberto Gil

Os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil dispensam maiores apresentações. Aqui a música “Haiti” para marcar a hipocrisia racista, fascista. A luta de classes estampada no sangue dos pobres nas ruas, nas suas casas, nas favelas, nas execuções que mancham a bandeira brasileira com o sangue da gente humilde e pobre. Cada dia fica mais difícil. Justiça agora, já!

“Na TV se você ver um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização do ensino
De primeiro grau
Se esse mesmo deputado defender a adoção de pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
Sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina”

Haiti (1993), de Caetano Veloso e Gilberto Gil

 

 

Seu Jorge

Outro nome importante na MPB, o carioca Seu Jorge e seus parceiros retratam a dureza da vida do povo negro. Em geral, habitantes das periferias, das favelas, dos morros. Os corpos sempre encontrados pelas “balas perdidas” ou não. Balas que saem de gatilhos apertados por dedos de verdadeiros capitães do mato a serviço de seus senhores contra seu próprio povo.

“A carne mais barata do mercado
É a carne negra
Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
Que vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos”

A Carne (2015), de Seu Jorge, Ulises Capelleti e Marcelo Fontes do Nascimento; canta Elza Soares

 

 

Zeca Afonso

O português José Afonso, também conhecido como Zeca (1929-1987), compôs Grândola, Vila Morena em 1971. Sua canção foi escolhida pelo Movimento das Forças Armadas para pôr os revoltosos nas ruas contra a ditadura salazarista, em Portugal.

A Revolução dos Cravos, antifascista e anticolonialista, tomou as ruas no dia 25 de Abril de 1974 e Grândola, Vila Morena se tornou o hino da Revolução. Voltou a ser cantada pelos portugueses em manifestações por direitos e liberdade em 2013.

“Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, Vila Morena
Terra da fraternidade”

Grândola, Vila Morena (1971), de Zeca Afonso

 

 

Criolo

O paulistano Criolo fez uma versão para a canção Cálice (1973), de Chico Buarque e Gilberto Gil. Gravou com Chico. Essa canção mostra a dor de um povo que vive do seu trabalho e não quer morrer nem matar. Quer somente viver em paz.

A segurança pública que o Brasil precisa é a implementação de um projeto de desenvolvimento que envolva toda a sociedade e permita vida decente para todo mundo. Trabalho com direitos, casa, comida, educação, saúde e tudo o necessário para se viver bem.

“Como ir pro trabalho sem levar um tiro
Voltar pra casa sem levar um tiro
Se as três da matina tem alguém que frita
E é capaz de tudo pra manter sua brisa
Os saraus tiveram que invadir os botecos
Pois biblioteca não era lugar de poesia
Biblioteca tinha que ter silêncio,
E uma gente que se acha assim muito sabida

Há preconceito com o nordestino
Há preconceito com o homem negro
Há preconceito com o analfabeto
Mas não há preconceito se um dos três for rico, pai.

A ditadura segue meu amigo Milton
A repressão segue meu amigo Chico
Me chamam Criolo e o meu berço é o rap

Mas não existe fronteira pra minha poesia, pai.
Afasta de mim a biqueira, pai
Afasta de mim as biate, pai
Afasta de mim a cocaine, pai
Pois na quebrada escorre sangue, pai.

Pai
Afasta de mim a biqueira, pai
Afasta de mim as biate, pai
Afasta de mim a coqueine, pai.
Pois na quebrada escorre sangue”

Cálice (1973), de Chico Buarque e Gilberto Gil, na versão de Criolo, em 2010


Texto em português do Brasil

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