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Segunda-feira, Julho 22, 2024

Carta aberta a Olivier Vandecasteele

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Caro Olivier Vandecasteele

Li com muita satisfação  a sua carta aberta datada de 1 de junho, carta em que, justamente, celebra os seus ‘cinco dias de liberdade’ após a sua ‘prisão arbitrária de quinze meses’, incluindo ‘treze meses consecutivos em isolamento’.

Cito aqui as palavras que deixei registadas no sítio web da organização que dirijo ‘Aliança para Renovar a Cooperação na Humanidade‘ e que foram proferidas numa manifestação promovida em Bruxelas pela comunidade bélgico-iraniana diante do Ministério dos Negócios Estrangeiros:

‘Gostaria de expressar a minha mais sincera solidariedade para com Olivier Vandecasteele, cuja libertação da prisão como refém, em regime de isolamento no Irão, foi apresentada pelo Governo belga como a razão do acordo bélgico-iraniano.

Como afirma a sua família, como afirmam os serviços de segurança belgas, e como a prática comum do regime iraniano confirma, ele é, sem dúvida, apenas uma vítima inocente da bárbara teocracia.

Todos os reféns inocentes do regime iraniano, como qualquer outra vítima destas impiedosas autoridades, merecem a maior atenção por parte dos seus representantes eleitos – neste caso, da Bélgica, um país livre e humanitário. Como todos os defensores dos direitos humanos, penso que a Bélgica não poupará esforços para defender os direitos deste cidadão. E esses direitos, no caso em apreço, traduzem-se na sua libertação incondicional e imediata.’

São palavras que me regozijo ver estarem em consonância com as que leio na sua carta aberta:

‘Continuemos os esforços para libertar outros reféns inocentes em todo o mundo. Apoiemos ativamente projetos que transportem os valores da humanidade, da solidariedade e da esperança.

Este mundo, infelizmente muitas vezes terrivelmente cínico, precisa dele agora mais do que nunca.’

Alerta-nos também na sua carta para o facto de precisar de tempo para reconectar com a realidade e agradecer a todos os que que lutaram pela sua liberdade. Permita-me, nesse contexto, que lhe sugira que se lembre dos iranianos que tão cruelmente foram esquecidos pelas autoridades europeias e belgas e que, surpreendentemente, não merecem uma única palavra nesta sua missiva.

A prisão arbitrária, a tortura, o terrorismo e o assassínio são a constante da acção do regime iraniano, e a generalidade das vítimas são os iranianos, bem como os povos das regiões limítrofes.

Quero também dizer-lhe que compreendo que, diplomaticamente, estenda o seu agradecimento às autoridades belgas. Contudo, penso que não é possível encontrar imagem mais clara do cinismo de que fala a sua missiva do que a apresentação da sua libertação como resultado do tratado bélgico-iraniano, quando há hoje provas insofismáveis de que estamos perante a situação contrária: a sua prisão foi a consequência e não a causa das negociações bélgico-iranianas para a libertação do terrorista iraniano.

A libertação – contra as regras de um Estado de Direito, e através da captura de reféns – do cérebro do que poderia ter sido o mais mortífero dos ataques terroristas realizados no solo europeu, na era contemporânea, incentiva a continuação do terrorismo e a captura de reféns, ou seja, vai contra tudo o que a sua carta defende.

Pela leitura que faço do seu compromisso com os valores humanitários universais sugiro, como forma de ultrapassar esta omissão, que aproveite a oportunidade criada pela realização da reunião anual das comunidades iranianas exiladas – prevista para dia 1 de julho em Paris, precisamente cinco anos após aquela que foi alvo desse plano terrorista – para manifestar a sua solidariedade com todas as vítimas do regime iraniano, sejam estas reféns não iranianos ou iranianos, presos, torturados ou executados, bem como com a luta dos iranianos para acabar com esse regime despótico.

 

Com os melhores cumprimentos,

 

Bruxelas, 2023.06.03

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