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João de Sousa

Quarta-feira, Julho 6, 2022

O cordão sanitário

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

O cordão sanitário não se instituiu, começou por se insinuar através de notícias avulsas de comentaristas da imprensa institucional com acesso aos corredores do poder, e foi ganhando peso à medida que foram anunciadas medidas como a de separar matéria institucional – onde todos os partidos seriam recebidos – e matéria de incidência governativa, de onde se excluiu o Chega.

Já antes se tinha posto a circular a ideia de garantir que não haveria vice-presidente do Chega, medida que teria mesmo ganho a adesão do actual líder do PSD em posição contestada no interior do partido.

O grande argumento que tem sido usado para defender o cordão sanitário é o de o Chega representar o regresso à ditadura, com o 28 de Maio, a celebração de Salazar e o Deus, Pátria e Família, a que se junta o Trabalho.

As razões pelas quais a medida não se me afigura apropriada, no plano das ameaças à liberdade em Portugal, é que não creio que seja possível regressar ao Portugal dos Pequeninos, orgulhosamente sós, da ruralidade e da polícia política de Salazar, e que esta retórica saudosista serve mais para esconder a falta de projectos e ideias do que uma alternativa credível. Bastante mais premente e realista parece-me ser a ameaça das petro-ditaduras islamistas, que tem como protagonista maior entre nós a Dr.a Ana Gomes, para quem ninguém pediu ainda um cordão sanitário, o que se deve, entre outras coisas, à cortina de silêncio feita pela imprensa portuguesa sobre a actividade de lobista do regime iraniano dessa senhora quando era suposto representar Portugal no Parlamento Europeu.

É certo que em algumas circunstâncias se justifica não tratar extremistas como outro partido qualquer, como foi feito com o empossar do governo minoritário Nazi em 1933, mas não creio que tenhamos lá chegado.

O cordão sanitário sofre ainda do mesmo vício de hipocrisia com que foi torneado nos Açores após as eleições de 2020. Os cinco partidos da coligação governativa de direita açoriana não fizeram um acordo único, mas um sistema de múltiplos acordos que o representante do senhor Presidente da República nos Açores argumentou para nomear o Presidente do Governo Regional sem que esse sistema de acordos fosse integralmente tornado público.

O Chega tornou-se assim no partido charneira do Governo Regional dos Açores pela mão do senhor Presidente da República com uma notável falta de transparência de métodos.

A ciência política transborda de análises sobe o populismo e a polarização tóxica, em regra pouco consistentes no domínio teórico e pouco robustos no teste à realidade empírica, e compreendo que os nossos políticos a ignorem, mesmo se nalguns casos ela é instrutiva.

O que me parece não ter qualquer sentido é ignorar a experiência em França, onde a política foi praticada durante décadas e acabou no oposto do objectivo que pretendia: desastre do aparelho político tradicional de esquerda e direita, redução das opções colocadas ao eleitorado entre uma coisa que não se sabe bem o que é, o Macronismo, e a extrema-direita que tinha sido alvo do cordão sanitário.

Neste domínio, há que realçar que a hecatombe é especialmente severa à esquerda. Se há cinco anos o candidato do ‘islamo-esquerdismo’, dos insubmissos de Mélenchon, uma versão francesa para pior do BE, ainda figurava no rol dos presidenciáveis, hoje a multitude de candidatos identificados à esquerda, mesmo se somados, não chegam sequer aos 25%, sendo certo que a soma destes seria impossível.

O candidato comunista, Fabien Roussel, embora assumindo a generalidade da bagagem da velha esquerda, marcou as distâncias ao ser o único candidato presidencial (esquerda, ou direita) a simultaneamente render homenagem pública às vítimas do Charlie Hebdo e a condenar o terrorismo islâmico como o responsável pelo crime. A ousadia valeu-lhe a inclusão na ‘fachoesfera’ pelas eminências pardas do islamo-esquerdismo que dominam a esquerda francesa, mostrando assim como a soma de votos na esquerda entre os verdadeiros antifascistas e os pró-fascistas pintados de vermelho seria impensável.

Esta política francesa de cordão sanitário levou agora a que dos quatro candidatos presidenciáveis, um seja de direita, outro é Macron, e os dois outros sejam da extrema-direita clássica, que tinha sido submetida ao dito cordão sanitário.

Dir-me-ão que estamos longe ainda de um cenário deste tipo em Portugal, e é verdade, creio que ainda estamos longe, mas o problema é saber se para lá caminhamos ou não.

Nas recentes eleições legislativas – ganhas pelo PS por maioria absoluta – constatou-se uma apreciável diminuição de votos nulos ou brancos e de votos em micropartidos (os que não tinham representação parlamentar) conjuntamente a um aumento de participação, movimento que foi engolido pelos partidos da direita do espectro político. A alternativa ao ‘sistema’ passou a ser a da extrema-direita, não a da extrema-esquerda.

Há que pensar a sério neste tema com uma preocupação de longo prazo e não apenas no contexto do ciclo eleitoral. O combate político tem de ser feito com base em ideias projectadas em acções e não com base em complots administrativos sem transparência como o dos cordões sanitários.

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