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Quinta-feira, Junho 13, 2024

Chegou a Banca Social

Mendo Henriques
Mendo Henriques
Professor na Universidade Católica Portuguesa

… – visa acrescentar as dimensões ambientais, culturais e sociais à análise de aplicação de recursos próprios, sejam eles provenientes de capitais ou de depósitos.

Agora, a 26 de novembro, a Banca Social chegou a Portugal através da criação da FESCOOP, uma cooperativa com finalidades parabancária e que resulta da consolidação de um sonho de várias entidades e pessoas agrupadas na Associação CELTUS e em que se destacam João Gil Pedreira, Fabrice Génot e Emídio Ferra.

A FESCOOP deve muito a esse sonho da CELTUS, uma entidade sem fins lucrativos com vista à criação e ao desenvolvimento de respostas nas áreas dos serviços financeiros, das moedas complementares e alternativas e das relações económico-produtivas solidárias e sustentáveis.

O dinheiro está nas mãos da banca. Dos bancos ditos resgatados. Dos bancos ditos bons e dos bancos ditos maus. Dos bancos alimentados pelo Banco Central Europeu e que se comportam como zombies na conjuntura. O sistema bancário e financeiro em Portugal contribuiu com mais de 20,6 mil milhões de euros em dívida soberana e com mais de 12,6 mil milhões de euros de deficit nos orçamentos de Estado entre 2007 e 2015.

Por tudo isso, Portugal carece de um exemplo de uma banca que, através do compromisso e da transparência, possa vir a ser a vaga do futuro. A banca social poderá vir a desempenhar um papel fundamental de retorno à confiança. É como o carro com motor elétrico: ainda não está massificado, mas já sabemos que é o futuro.

A confiança criada pela banca social resulta da transparência com que funciona, face às aplicações ou créditos concedidos; qualquer acionista ou depositante tem acesso ao destino das suas aplicações e depósitos; sabe como é utilizado o seu dinheiro. Que não vai para offshores, nem alimenta fábricas de armas, nem tráfico de órgãos. O acionista ou depositante pode comprovar se o propósito social e ético está a ser cumprido, e pode intervir através de modelos de governança participativos, que garantem uma ponte entre acionistas, depositantes e o banco social.

O exemplo trazido a Portugal pela FESCOOP tem antecendetes próximos na segunda assembleia da área Fiare e Banca Popolare Etica, em Março de 2014 em Barcelona, duas entidades das mais significativas respostas bancárias e parabancárias ao nível social e ético do sul da Europa.

A questão central da banca ética ou social é a economia a criar, acelerar e desenvolver com o nosso dinheiro. A transparência é o princípio de base, para que a comunidade envolvida possa visualizar como a sua vontade, o seu querer e o seu propósito se materializam nesta nova forma de pensar os serviços financeiros.

O dinheiro faz girar o mundo? Sim, até eu começar a perguntar como o aplico. Ao perguntar por que compro, ganho consciência sobre quem sou e o que pretendo fazer. Ao perguntar o que compro, começo a interrogar-me sobre o que se passa no planeta. Ao perguntar a quem compro, ganho informação sobre a sociedade. Em tudo isto, ganhamos consciência de que, além de consumidores, participamos na dimensão cultural, social, política, económica e ambiental da sociedade.

Com o dinheiro depositado nos bancos, o questionamento é semelhante Ao interrogar-me o que o banco faz com o dinheiro que nele deposito, estou a interrogar-me se as aplicações do banco têm um cariz social e ético; se o banco tem propósitos transparentes; assim inicio a mudança social, mudando os meus comportamentos.

A Banca social ainda será estatisticamente insignificante na Europa, mas é já o sinal de que existem alternativas: algumas com capitais na casa dos muitos milhões de euros como o Triodos. E apresenta resultados mais sustentáveis do que os dos bancos convencionais. A sua taxa de incumprimento é muito baixa.

O Grameen Bank, a primeira instituição financeira do mundo em microcrédito, surgiu em 1976 em Jobra, no Bangladesh, fundado por Muhammad Yunus. Em 1983, o Grameen Bank adquiriu o estatuto formal de banco. Hoje, o Grameen Bank recebe de volta cerca de 98,85% dos empréstimos que concede como empresa privada lucrativa e que ajuda os mais carenciados e desfavorecidos. O contra exemplo ideal face aos “bancos resgatados” da Europa

Por tudo isto, devemos saudar a edificação em Portugal no passado dia 26 de novembro de uma entidade parabancária com propósitos adequados aos desafios sociais e económicos, como seja o resgate de famílias e empresas sobreendividadas e o financiamento do terceiro setor associativo, cooperativo e comunitário.

A FESCOOP propõe-se estar ao lado da agricultura biológica e biodinâmica, da permacultura, das energias limpas e renováveis, das comunidades auto-sustentáveis, das entidades de comércio justo, entre outras representativas de um novo paradigma.

Agora resta desejar a melhor sorte do mundo aos seus fundadores. Eles estão do lado do futuro saudável, numa Europa farta de soluções bancárias doentias.

Este artigo respeita o AO90

Nota do Director

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