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João de Sousa

Sábado, Junho 22, 2024

Chocante

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Talvez este seja o termo que melhor define os tempos que vivemos, com uma evitável guerra inevitável (inevitável para a percepção russa e claramente evitável se a UE tivesse assumido outro papel que não o de fiel seguidor dos interesses norte-americanos), a aproximação de nova crise de origem espúria (enganadoramente atribuída à guerra, tal como a anterior, a das dívidas soberanas, foi atribuída ao despesismo dos Estados da Europa do Sul), que está a ser usada para as mais diversas (e perigosas) chicanas políticas.

Também aquele foi o termo usado por Ana Gomes para comentar a estratégia governativa de controlo dos preços da energia, que propõe pagar 3 mil milhões de euros às empresas do sector energético, em vez de aplicar uma efectiva política de controlo de preços, tanto mais justificável quanto é ideia generalizada que vivemos em clima de guerra e, como recentemente muito bem defendeu Joseph Stiglitz num seminário realizado em Viena e subordinado ao tema «Os desafios de Inverno da Europa: energia, economia e política» quando disse que, se “…os países estão em guerra, não deixam as economias como se estivessem em tempos de paz. As economias em guerra e em paz são diferentes. Continuam-se a utilizar os mercados, mas regulam-se muito mais”.

A solução nacional mimetiza a já anunciada opção alemã para travar o impacto dos preços do gás e, salvo a dimensão (o governo alemão estimou um valor de 200 mil milhões de euros a disponibilizar para a ajuda às famílias e às empresas), reproduz a ideia de subvencionar famílias e empresas, sem em nada beliscar os interesses e lucros do sector energético. O que torna a solução alemã ainda mais chocante é que o valor anunciado, que representa mais de 5% do PIB alemão (valores de 2021), deverá ser financiado por um fundo de estabilização económica e, à semelhança dos 100 mil milhões de investimento já destinados ao rearmamento e de acordo com a reconhecida prática de utilizar truques contabilísticos, excluído do orçamento ordinário, não se traduzindo assim num aumento da dívida pública. Isto vindo do país que exige rigor financeiro aos parceiros europeus, nunca cumpriu a regra de limitação dos seus superavits comerciais e onde há uma década se ouviram vozes sugerindo aos gregos a venda das suas ilhas como solução para a crise financeira que Atenas então enfrentava.

Numa conjuntura político-económica profundamente marcada pela incerteza e no contexto da necessidade de combate à inflação, é desagradável e profundamente inconsequente lermos comentadores a criticarem as políticas que há uma década aplaudiram e a que então concederam efeitos salvíficos; classificando agora de toleima as anunciadas subidas de juro pelo BCE, como o fez Luís Delgado na sua VISÃO, é continuar sem compreender que o verdadeiro papel dos bancos centrais é o da protecção dos sistemas financeiros (não o das populações) e atribuir a paternidade da crise à Rússia (por mais condenável que seja a opção por ela escolhida) é esquecer que as subidas da inflação e do preço do crude antecedem a crise ucraniana (como se confirma nos quadros seguintes, a tendência de subida da inflação data de 2021 e dos primeiros sinais de recuperação pós-Covid, tal como o preço do crude começou a subir em Novembro de 2021, possivelmente em reacção ao aumento da procura alimentada por aqueles sinais) e que com a especulação que tem inflacionado os preços da energia alguns países europeus, como a Noruega (exportadora de gás) e a Holanda (sede da bolsa de Amsterdão), estão a ver acrescidos os seus ganhos a expensas dos restantes.

 

É assim de assinalar (e de registar para memória futura) ouvir agora a Alemanha esperar “solidariedade” dos países menos dependentes do gás russo. Mesmo não advogando sentimentos revanchistas, é impossível não lembrar o dogmatismo e a inflexibilidade germânica (e dos demais parceiros austeritários, agora eufemisticamente chamados de frugais) durante aquele que foi talvez o primeiro grande sinal de desagregação na EU – a crise das dívidas públicas – agora que voltam a pairar novas ameaças e quando continuam a soçobrar as tentativas de criação de um mecanismo europeu de solidariedade.

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