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Sexta-feira, Dezembro 9, 2022

“Quem Governa o Mundo?”

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Chomsky

Tenho sempre presente a velha frase de um professor, desses que marcam e que legam, isto é, desses que ensinam, que a leitura pela leitura traz sempre dividendos, mas a nossa capacidade de seleção dessa leitura terá resultados mais eficazes.

Assim sendo, não é a consulta de todos os conteúdos propostos por todas as prateleiras da biblioteca mais próxima mas a atenção aos livros que elegemos da nossa (por vezes dolorosamente conseguida) biblioteca que aguçará o nosso sentido crítico. E este, o sentido crítico, está muito longe da comezinha emissão de juízos de valores, tão em voga nos nossos dias.

Amnésia histórica, o fenómeno mais perigoso que enfrentamos

Basta espreitar as redes sociais para perceber que todos nós, nesta civilização do pós-humano, temos opinião. Mas basta ler a nossa opinião para verificar, sem grande sapiência ou medida analítica, como andamos tão enganados e que desperdício é o caudal de pensamento em que nos afogamos impunemente.

Dos pensamentos que parecem dignos dessa classificação – não porque necessariamente concordemos com eles mas porque se alicerçam em anos de uma coerência mantida e crescente – destacam-se em muitas horas aqueles que Noam Chomsky produziu – e produz, apesar dos seus recentemente celebrados 88 anos (nasceu a 7 de dezembro de 1928).

Chomsky trabalha sobre uma matéria privilegiada: a sociedade. Todavia, circunscreve a análise à matriz humana, sobretudo como vê à sociedade norte-americana – que condiciona o mundo pelo seu despudor imperialista -, mas também à postura de cada um face aos conflitos que o menorizam, e finalmente, ao modo como é urgente resistir perante os Estados e entre estes os mais sufocantes do cidadão.

Os verdadeiros atores

ChomskyPara Chomsky os verdadeiros atores nos assuntos mundiais são alguns Estados, as superpotências, que condicionam todos quando condicionam as suas decisões e as relações que estabelecem entre si. Não é espantoso portanto que um dos livros de Noam Chomsky, que acaba de ser editado em Portugal, parta, como título, de uma interrogação que muitos de nós, pelo menos os que já perceberam que o pó fascina mais do que a luz, já teremos feito: Quem governa o Mundo?

A verdade – se é que há uma verdade em metérias tão sensíveis quanto as que definem o homem – parece residir nos impactos: a capacidade de reação dos povos àquilo que mais profundamente os afeta.

A lentidão inexorável dessa reação leva-nos a mundos condenados. Estamos em extinção por indiferença? Pelo desinteresse que encontramos em nós e no outro? Simplesmente pela falta de interesse – o sentido da vida encurralou-nos? Para além do raciocínio imediato individual, Chomsky aponta como os grandes atores nos assuntos mundiais, os Estados, produzem o ritmo dessa extinção. Chomsky vai mais longe porque adverte que esse raciocínio, simplista, possa ser redutor.

Sejamos protagonistas

Propõe assim que se apure o instinto e se aprofunde a análise – mexa-se pela sua saúde, diria o anúncio, e não deixa de aplicar-se, ironicamente, a todos os empurrões que a obra de Chomsky nos tem dado: sejamos, diz ele, protagonistas do que somos.

Escutemo-lo: os Estados têm, naturalmente, estruturas internas complexas, e as escolhas e decisões da liderança política são fortemente influenciadas pelas concentrações internas de poder, enquanto a população em geral é muitas vezes marginalizada. Isso é verdade mesmo para as sociedades mais democráticas, e, obviamente, para os outros.

ChomskyNão podemos ter uma compreensão realista de quem governa o mundo, ignorando os “mestres da humanidade”, como Adam Smith lhes chamou: “Tudo para nós e nada para outras pessoas” – é uma doutrina conhecida sempre em detrimento do povo do país de origem e do mundo.

Na ordem global contemporânea, as instituições dos mestres realizam um poder enorme, não só na arena internacional, mas também dentro dos seus Estados de origem, da qual eles dependem para proteger o seu poder e para fornecer apoio económico por uma grande variedade de meios.

Os programa neoliberal da geração passada concentrou riqueza e poder em muito menos mãos, enquanto minou a democracia, mas eles têm uma vantagem: despertaram a oposição, e novos modelos de oposição – requalificando os centros de poder global.

A crítica consistente

A União Europeia (UE), um dos desenvolvimentos mais promissores do período pós-Segunda Guerra Mundial, acabou no espetáculo medíocre de hoje: cambaleante por causa do efeito duro das políticas de austeridade durante a recessão, condenados até pelos economistas do Fundo Monetário Internacional numa só aparente contradição.

A democracia tem sido prejudicada, como a tomada de decisão deslocada para a burocracia de Bruxelas, com os bancos do norte lançando sua sombra sobre seus trabalhos.

Do ocidente ao oriente, do médio-oriente ao golpismo brasileiro, o livro de Chomsky é uma grelha possível para ajudar-nos a diminuir os nossos juízos de valor engrandecendo-os com massa crítica capaz de produz crítica consistente.

Este artigo respeita o AO90

Informação adicional

Coleção: Biblioteca do Século
Nº na Coleção: 43
Data 1ª Edição: 08/09/2016
Nº de Edição: 2ª
ISBN: 978-972-23-5896-5
Nº de Páginas: 352
Dimensões: 150x230mm

Noam Chomsky faz uma incisiva e profunda análise à influência atual dos centros de poder.
Focando-se em particular no papel dos Estados Unidos da América, bem como da China, Estados do Médio Oriente e da Europa, Chomsky mais do que limitar-se a analisar a conjuntura mundial desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mostra como se distribuem os poderes no mundo, expondo-os do ponto de vista político, económico e militar. Impetuoso, claro, arrebatador e meticulosamente bem documentado, este livro proporciona um entendimento indispensável aos temas centrais do nosso tempo.
Quem Governa o Mundo?

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