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Segunda-feira, Abril 15, 2024

Cinema espanhol perde Carlos Saura

Na véspera de receber o maior prêmio de honra do cinema espanhol, Saura se despede do seu país, com um legado de luta contra o franquismo.

Neste sábado, Carlos Saura iria receber o Goya de Honra, o terceiro da história da Academia Espanhola de Cinema, em homenagem a sua obra de 50 filmes. Com sua morte nesta sexta-feira na sua casa na serra de Madrid devido a insuficiência respiratória, o prêmio em vida passa a ser póstumo. Deixou sete filhos de quatro companheiras. Ele havia completado 91 anos em 4 de janeiro, em pleno vigor intelectual.

“Por sua extensa e altamente pessoal contribuição criativa para a história do cinema espanhol desde o final dos anos 1950 até hoje.” Esta justificativa para o prêmio, escrita pelo presidente da instituição, Fernando Méndez-Leite, é pouco diante da obra e do homem. Mas Saura recebeu tantos prêmios quanto é possível para reconhecer a importância de um artista. Foram 64 anos de arte, com o lançamento de seu canto do cisne em 3 de fevereiro, As paredes falam. Um documentário sobre a evolução da arte mural, das cavernas pré-históricas aos grafites atuais.

Num país dominado pela censura e empobrecido pela ditadura, Saura conseguiu se tornar referência para o cinema de autor europeu, mesmo não sendo tão prolífico quanto outros cineastas do continente. Conseguia ser político e nacionalista sobre seu país, mas também universal no modo como investigava a existência humana. Com sua narrativa clássica, conseguia divertir também com grandes históricas que mexiam com o povo. Um privilégio para poucos, fazer o que quer e conversar com seu público.

Saura é considerado um dos mestres do cinema espanhol, junto com Luis Buñuel, Luis García Berlanga e Pedro Almodóvar. Seu cinema tem a marca do rigor e da narrativa seca, sem firulas, plenamente compreensível e universal. Quase uma abstração. Uma espécie de tomografia da alma espanhola e suas doenças diagnosticadas pela câmera precisa de Saura.

Nascido em 1932, em Huesca, vinha de uma família próxima do governo republicano, ​​atingido pela Guerra Civil. Seu irmão mais velho, Antonio, por sua vez, se tornaria um dos pintores espanhóis fundamentais do século XX. As memórias da guerra comparecem no curta Rosa, rosae, lançado em 2022.

”Aquele padre, esses atentados, esses assassinatos, fazem me identificar com o assunto. Com o filme exorcizei essas memórias. A Guerra Civil ainda não foi tratada adequadamente no cinema. Se alguma coisa, um pouco. Muitos dos meus falam daqueles anos, é verdade. Mas eles estão desaparecidos. Meu medo atual é que esse confronto ocorra novamente na Espanha. Pelos conflitos que existem entre as partes, pela violência que se expressa oralmente… Isso me assusta. Não aprendemos nada.”

Sempre com uma câmera no pescoço ao longo de sua vida, também tinha marcadores e lápis à mão para a pintura. Da mistura das artes, nasceram seus fotosauros. “Eu tenho uma profissão muito estranha: fazer o que eu quero. Fora alguns anos em que as circunstâncias me obrigaram a cumprir tarefas que me deram para viver, para cuidar dos filhos. Mas eu gosto de muitas coisas. Eu teria gostado, por exemplo, de tocar um instrumento musical”. Muitos dos seus filmes focam na dança.

No Instituto de Pesquisas e Experiências Cinematográficas de Madri (IIEC), onde se formou em direção de cinema, e assistiu às Conversas de Salamanca de 1955, que revolucionaram o cinema espanhol. “A marca que a obra de Buñuel deixou em mim é definitiva. É a primeira vez que vejo a essência do nosso futuro cinema refletida na tela grande: o humor, mas um humor indireto, amargo e sem piada […]; um profundo amor por esses seres que a sociedade tende a repudiar, e a luta que Buñuel mantém constantemente contra a hipocrisia e a mentira”.

Seu primeiro longa-metragem, Los golfos (1960), filmado quando tinha apenas 27 anos, alcançou uma turnê internacional com seu apogeu em Cannes, onde Saura conheceu Buñuel pessoalmente. É também o início de sua dolorosa relação com a censura franquista, que o proibiu de diversos roteiros, atrasou o lançamento de muitos de seus filmes e sempre o teve na mira.

A caça (1966), Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim, era considera seu melhor filme, por muitos anos. Saura confessou: “Há quem diga que é o meu melhor filme. Tudo bem, mas acho que não. Às vezes sinto a necessidade da violência aparecer nos meus filmes, depende do meu estado de espírito. É verdade que A Caça pode ser considerada uma metáfora da Guerra Civil. Mas a que mais corresponde a esse episódio é Oh, Carmela!”.

Seu primeiro roteiro solo, Cría cuervos (1976), teve dois roteiros proibidos, e no terceiro, depois de filmado, foi visto por seis ministros antes de receber sua aprovação final.

O musical veio em 1981 com Bodas de sangue e a dança flamenca. Muitos colegas torceram o nariz. A trilogia flamenca se completa com com Carmen (1983) e El amor brujo (1986) e a colaboração do coreógrafo Antonio Gades. Outros tantos filmes dançantes e dramáticos viriam, assim como peças teatrais, óperas e exposições fotográficas.

Deixou seus herdeiros. Muitos que nunca se assumiram como tal, e aqueles que reivindicam a influência como Carla Simón , Paco Plaza ou Carlos Vermut. Mas, aos 91 anos, Saura não pensava na morte, nos herdeiros ou na saudade. Continua produzindo como se houvesse muito tempo para a frente.


por Cézar Xavier | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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