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Domingo, Julho 3, 2022

Convenção tucana será festa de avestruzes

Tereza Cruvinel, em Brasília
Tereza Cruvinel, em Brasília
Jornalista, actualmente colunista do Jornal do Brasil. Foi colunista política do Brasil 247 e comentarista política da RedeTV. Ex-presidente da TV Brasil, ex-colunista de O Globo e Correio Braziliense.

A convenção que o PSDB realiza neste sábado terá uma única serventia: elegendo Alckmin para a presidência do partido, os tucanos  deixam de ter Aécio Neves como ocupante licenciado do cargo desde a eclosão do escândalo JBS. Não querem nem que ele apareça no evento.   Fora isso, o encontro estará mais para uma festa de avestruzes, aquelas aves que, diante de situações arriscadas, enterram a cabeça na areia.  O principal motivo para a convocação da convenção foi o desembarque do governo Temer mas este assunto saiu de pauta e não será discutido. Seguirão os tucanos amarrados ao dilema de ser ou não ser um partido apoiador do governo golpista de Michel Temer. E quanto mais se enrolam em suas dúvidas, mais isoladas vão ficando no campo da própria centro-direita.

Temer e seus outros aliados já não contam com os tucanos para votar a reforma previdenciária – se é que será votada na penúltima semana do ano – e não param de enviar sinais de que poderão não apoiar Alckmin – embora isso também seja blefe, pois nome capaz de enfrentar Lula eles também não têm.

A tão falada pacificação do partido também é parcial. Com a escolha de Alckmin para a presidência da sigla, acabou-se apenas o risco de uma cisão, a partir de um confronto agressivo entre as alas que apoiavam para o cargo o senador Tasso Jereissati e o governador de Goiás Marcone Perilo. Ambos agora vão integrar a nova direção, com vantagem para Perilo, que será um vice-presidente com bastante poder, cabendo a Tasso a presidência do Instituto Teotônio Vilela, uma fundação destinada à formulação teórica. O conflito interno, entretanto, vai se manifestar de forma aguda no debate sobre a forma de escolha do candidato a presidente. O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, vai exigir uma deliberação  aprovando a realização de prévias para a escolha, com a participação de todos os filiados. Ele pretende disputar com o governador paulista, frustrando a planejada “aclamação” de Alckmin.

Enquanto o candidato não estiver escolhido, o partido estará impedido de avançar em costuras sobre alianças, inclusive com o PMDB e com os partidos do Centrão, cuja irritação com os tucanos cresceu muito diante da recusa do partido em fechar questão a favor da reforma previdenciária. Alianças  são discutidas e fechadas em torno de um nome. Se o nome é incerto, não há conversa.  Com apenas 6% nas pesquisas (Datafolha mais recente), e um tempo exíguo de televisão, a candidatura de Alckmin (ou de qualquer outro) tem pouco futuro se ficar isolada, sem o apoio do PMDB, do DEM ou dos partidos do Centrão.

E assim a convenção tucana vai produzir, além de muito lixo, como todas as festas do gênero, apenas a escolha de um novo chefe partidário.  Não haverá decisão nem sobre a saída do governo nem sobre a escolha do candidato, ainda que informal, pois que a lei prevê para junho as convenções que farão a escolha oficial.

Nós, contribuintes, vamos pagar a festa, como pagamos também as convenções de outros partidos. Os gastos de R$ 1,5 milhão para levar todos os convencionais a Brasília  e bancar a infraestrutura sairão do fundo partidário, alimentado por nossos impostos.

A autora escreve em Português do Brasil

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