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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

A crise da teocracia iraniana

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

A crise da teocracia iraniana está aberta, e apesar do apoio que lhe dá a nova administração Biden, apesar das aliciantes propostas feitas pelo mandarinato, apesar da aliança russa, a sua sobrevivência está longe de ser segura.

Coincidindo com a declaração de cessar-fogo na guerra com o Iraque, o Ayatollah Khomeini produziu uma fatwa pela qual todos os presos políticos do principal movimento político de oposição (outras fatwas foram dirigidas a partidos marxistas) deveriam ser imediata e sumariamente executados, independentemente de estarem a aguardar julgamento, a cumprir pena ou de terem sido condenados.

A única formalidade necessária à execução era a de o acusado não se arrepender da sua posição política, e na prática, bastava-lhe não designar o nome do partido pelo termo pejorativo dado pelo regime (hipócritas) para se ser condenado.

Como assinala o Conselho Nacional da Resistência Iraniana, em mil e quatrocentos anos de história islâmica do país, não há registo de uma sentença feita nestes moldes, que na verdade atropelou o sistema de justiça existente.

Para gerir o massacre foram nomeados os chamados comité da morte, integrando em cada caso um juiz, um procurador e um membro da polícia política, num macabro processo descrito com algum pormenor por um relatório da Amnistia Internacional.

Um dos mais proeminentes carrascos, Procurador-Geral adjunto de Teerão e que nessa qualidade substituiu em vários casos o Procurador-Geral no comité da morte de Teerão, Ebrahim Raisi, foi agora catapultado para o posto de Presidente da República onde vai tomar posse em agosto, 3. O seu perfil é a imagem precisa daquilo que é a teocracia iraniana.

Nascido em Dezembro de 1980 no seio de uma família clerical do Norte do país que se levantou contra a reforma agrária promovida pelo regime do Xá contrária aos interesses da classe latifundiária (largamente coincidente com o clero), foi seminarista em Qom e daí passou para a militância na revolução islâmica de onde nunca saiu até hoje, conseguindo no entanto uma miraculosa progressão de seminarista a ayatollah.

De acordo com a investigação do ‘IranWire’ Raisi não terá passado do primeiro nível do seminário em Qom e o seu ‘doutoramento’ e graus religiosos que permitem a sua designação de ‘ayatollah’ não têm qualquer credibilidade. Raisi, tal como o guia espiritual do país Khamenei, é um ayatollah de aviário cujo percurso é típico da oligarquia iraniana.

O título de ayatollah só passou a ter uso sistemático no clero xiita em meados do século XX, tendo o clero criado algumas regras de avaliação necessárias à concessão de títulos religiosos para lhe dar alguma credibilidade. Mesmo antes da revolução que abastardou completamente qualquer critério teológico na concessão do grau, a distinção era já sujeita a critérios políticos de circunstância.

O passo que tornou Raisi mais poderoso foi a sua nomeação em 2016 como figura cimeira da fundação Astan Quds Razavi, uma das mais ricas fundações religiosas do país. O essencial da estrutura económica do país está nas mãos destas fundações religiosas ou dos guardas revolucionários islâmicos.

Raisi é, portanto, alguém sem qualquer formação escolar ou religiosa digna desse nome, que toda a vida se limitou a ser um carrasco do regime e que foi por essa via promovido religiosa, política e sobretudo financeiramente.

Ao selecionar Raisi para presidente, dispensando toda a encenação que comoveu muita gente de uma luta entre fações liberais e conservadores, o guia espiritual clarificou que estamos perante uma ditadura sedenta de poder sem qualquer legitimidade política ou mesmo religiosa e levou assim a um boicote eleitoral generalizado seguido de greves, manifestações e protestos que, um mês depois da farsa eleitoral não parecem querer terminar.

Os protestos têm sido particularmente violentos nas partes do país habitadas pela minoria árabe (que o Ocidente denominou de Arabistão, os árabes chamam Ahwaz e os iranianos Khuzistão) e pela minoria baluque (Baluquistão iraniano).

A crise de legitimidade do regime é agora total, porque ninguém no Irão o leva a sério, ninguém acredita nos seus fundamentos religiosos, nas suas justificações políticas ou mesmo nas promessas de boa gestão, sendo óbvio para todos que o regime estás nas mãos de uma mafia cleptocrática sem escrúpulos disposta a cometer todos os crimes para continuar a exploração do seu povo.

A única coisa que mantém o regime é a força bruta, a repressão dos manifestantes a tiro, as repetidas prisões e execuções, o Estado policial. O ditador iraniano Ali Khamenei retém de Maquiavel o célebre princípio de que reformar uma ordem estabelecida é a coisa mais perigosa que um dirigente pode fazer, e por isso eliminou agora toda a veleidade reformista.

Mas a alternativa, com a sua substituição por alguém que mais se assemelha a si como Raisi, ou dinasticamente pelo seu filho, como alvitram alguns analistas, é de sucesso menos seguro ainda, para um regime que mantém já um considerável império no Líbano, Síria, Iraque e Iémen, que o quer alargar ao Afeganistão e que manobra um pouco no mundo inteiro.

A crise da teocracia iraniana está aberta, e apesar do apoio que lhe dá a nova administração Biden, apesar das aliciantes propostas feitas pelo mandarinato, apesar da aliança russa, a sua sobrevivência está longe de ser segura.

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