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Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

Cultivar as sementes para que as crianças cantem livres sempre e sem medo de nada

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Como não poderia deixar de ser, a seleção musical desta semana trata da questão da exploração do trabalho infantil crescente no Brasil e no mundo.

A situação degradante da vida da classe trabalhadora que a pandemia agravou, torna a necessidade de se combater essa prática com ainda mais tenacidade.

Certamente, em primeiro lugar, vem à cabeça “Criança Não Trabalha” (1998), de Arnaldo Antunes e Paulo Tati. Afinal essa linda canção se tornou um clássico e uma das principais referências musicais sobre a questão do combate ao trabalho infantil, mas desta vez não.

Emicida e Drik Barbosa

A primeira música destacada é “Sementes”, de Emicida e Drik Barbosa, feita especialmente para a campanha da Rede Nacional de Combate ao Trabalho Infantil, de 2020, para denunciar essa triste exploração em uma sociedade cada vez mais pobre.

Principalmente agora que o desgoverno federal defende que o trabalho infantil faz bem ás crianças. Crianças pobres evidentemente. Mas como diz Railton Souza, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, seção Goiás, essa “ideia de que trabalhar faz bem para a criança tornar-se uma pessoa adulta mais responsável caiu por terra, porque as consequências do trabalho infantil são drásticas e podem ser irremediáveis para o futuro. Lugar de criança é na escola, nos parques e em segurança em suas casas”.

“Trabalho infantil é um crime e tem cor e endereço
Prioridade nossa é assegurar que cresçam e floresçam
Alimentar a potência delas
A liberdade delas não tem preço
Merecem o mundo como um jardim e não como uma cela”

Sementes (2020), de Drik Barbosa e Emicida

 

Taiguara

O cantor e compositor Taiguara (1945-1996) nasceu em Montevidéu, no Uruguai, mas adotou o Brasil como seu. Conta com grandes obras na música popular brasileira, sendo um dos mais censurados pela ditadura (1964-1985) com 68 canções inteiramente proibidas.

Aqui, talvez a sua música mais conhecida, “Que as Crianças Cantem Livres” feita nos anos de chumbo da ditadura. Permanece na memória como um grito pela liberdade, pelos direitos humanos e em defesa de uma sociedade onde não haja discriminações, desrespeito e que as pessoas possam sonhar.

“E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer…”

Que as Crianças Cantem Livres (1973), de Taiguara

 

Milton Nascimento e Wagner Tiso

Milton Nascimento e Wagner Tiso dispensam apresentações tamanho o talento e a importância desses dois músicos de Minas Gerais. “Coração de Estudante” foi gravada quando a ditadura fenecia. Uma chamada à esperança e à necessidade de se cuidar para que a juventude tenha condições de se expressar livremente. Um ano antes da campanha das Diretas Já, que levou multidões às ruas pelo direito de se votar diretamente para a Presidência da República.

“Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê
Flor, flor e fruto”

Coração de Estudante (1983), de Milton Nascimento e Wagner Tiso

 

Caetano Veloso

Também entre os maiores nomes da música popular brasileira, nenhum tema fugiu à obra de Caetano Veloso. “O Leãozinho” é um canto da delicadeza e da defesa da vida em liberdade. Para que as crianças possam sonhar e exercitar toda a sua imaginação criativa.  E “ficar ao sol” sem a preocupação de ter de levar dinheiro para casa.

“Gosto de ficar ao Sol, leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você e entrar no mar”

O Leãozinho (1977), de Caetano Veloso

 

Chico Buarque

A última canção selecionada é “O Meu Guri”, de Chico Buarque, que também dispensa apresentações. Escolhida para homenagear a trabalhadora doméstica Mirtes Renata Santana de Souza, mãe de Miguel Otávio Santana da Silva, morto pelo descaso de sua patroa que deixou o menino de apenas 5 anos entrar sozinho no elevador do condomínio onde mora, quando a mãe da criança passeava com o cachorro da família empregadora.

“O Meu Guri” é a voz das Mães de Maio e de todas as mães, pretas na maioria, que têm seus filhos assassinados todos os dias por uma polícia violenta e racista ou pelos traficantes, dos quais são reféns pela ausência do Estado e de políticas em favor de suas vidas nas periferias abandonadas pelo poder público.

Aqui interpretada lindamente e com a emoção que a música requer por Elza Soares.

“Chega no morro com carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assalto está um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente, acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí!”

O Meu Guri (1981), de Chico Buarque


Texto em português do Brasil


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