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Sábado, Setembro 25, 2021

Custa muito viver num mundo de mortos

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Somos volúveis. Mudamos de opinião e desdenhamos a nossa história. Por isso, não só deixámos de cultivar a memória, como se esta fosse um agente agressor da abstração que, aliás, também temos vindo a perder, como sofremos a ameaça permanente do esquecimento: veja-se a doença mais ativa do início do século, a mais irreversível e incontrolável, o Alzheimer, cuja característica principal é, pelo caminho da demência, o esquecimento.

Nessa nossa volubilidade celebramos mais a morte do que a vida. Em matéria de pensamento, andamos sempre a constatar o que matámos: da morte de Deus, na modernidade, à morte do homem, na pós-modernidade.

Se fizéssemos uma viagem ao passado, pelo portal do tempo da ficção científica ou outro mais inacessível, e parássemos nos pródigos anos 60 das contestações europeias, ou ocidentais de modo geral, mesmo que nos cruzássemos na rua (que prazer!) com Sartre, Foucault, Beauvoir ou outros dos que puxavam pela cabeça, lá andava a morte como epíteto, nas bandeiras de luto das causas, consagração da vida como projeto fracassado: a morte do racionalismo, a morte do humanismo, a morte da moral (sobretudo da moral vitoriana), a morte dos valores (pelo menos dos valores tradicionais), a morte das ideologias, das ideias, dos filósofos, das utopias…

O longo corso carnavalesco da morte em tantas feições.

Como Lisboa, construída sobre mortos (sim, os do terramoto de 1755 de onde renasceu como uma Fénix ou os da Guerra Colonial que nenhuma história perdoará ou… tantos outros) também a contemporaneidade e o século XXI caminham sobre cadáveres e não sabem ainda como enterrá-los e seguir em frente.

A moda hoje é dizer que os valores da Modernidade – onde se inscrevem a Liberdade, a Democracia, a Tolerância, a Diversidade – estão esgotados, tornaram-se opressivos, são, pela sua prática, redutos de falsidade.

Desorientados, os povos da pós-modernidade fizeram de nós aquilo que somos, figuras patéticas que, sem memória, aplaudem o populismo, abrem as portas aos nacionalismos, pedem por favor, deliberadamente, nas urnas e nas redes sociais para serem esmagados: ordem, repressão, totalitarismo, isso sim!

Venha a ausência de cor e as garras do fascizante. Abaixo a razão e o progresso, esses mitos desconcertantes que nos levam para a convicção absurda de que merecemos a felicidade – e que se estabeleça em seu lugar a sala gradeada, o muro alto, as armas nas ruas, a censura nas bocas, as filosofias totalizantes, a austeridade económica e o triunfo dos mercados – e, é claro, as visões religiosas que reduzem a carne ao pecado que a oprime!

Bifronte, é a sociedade que faz escola, portanto, entre a morte – que nos é ensinada quotidianamente nos órgãos de comunicação – e a vida, que, perdido o seu valor, é uma questão não prioritária.

Durante o século XIX houve a tentação de criar redutos inexpugnáveis de certezas, das ideologias ao novo divino: o conhecimento científico e até o homem, esse novo deus omnipotente que, desde que tenha internet e um telemóvel, não precisa de estudar, sentir, pensar, ou mesmo agir.

Se nos anos 60 e 70 do século passado, a cultura estava no palco – pop, rock, hippies, beatnicks, pobre ópio substituído pela erva, haxixe, heroína, cocaína, anfetaminas, LSD, crack, em suma, droga, loucura, morte como alavancas do sistema capitalista para emancipar o pessimismo radical e deixar os povos sossegados, aptos a serem manipulados – o palco dos nossos dias é a própria cultura onde até a mentira ganhou novo estatuto (sim, agora badalada pós-verdade, um apelo às emoções que nos restam para criar e modelar uma opinião pública que sente deficientemente, desconectada da sua mais profunda sensibilidade. Analfabetos emocionais, que o somos, engrossamos com alegria ingénua esse caudal de falsificação da verdade em que se tornou a propaganda dos nossos dias).

A lógica já não revela o ser. O impuro tornou-se o sinal, a matriz, a tatuagem.

Viver custa muito, em especial porque o fazemos num mundo de mortos. Basta recordar os cenários de guerra, tantos são, ou os nossos momentos mais sensíveis (que escasseiam).

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

Nota do Director

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