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Quinta-feira, Dezembro 2, 2021

Debates no Whatsapp e no Facebook

Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e jornalista do site Radio Peão Brasil. Escreveu o livro "O mundo do trabalho no cinema", editou o livro de fotos "Arte de Rua" e, em 2017, a revista sobre os 100 anos da Greve Geral de 1917

Dia desses li em um grupo de Whatsapp uma mensagem que ressaltava as vantagens de um grupo que se destina apenas a sugerir notícias sobre um assunto, em detrimento da aporrinhação de grupos onde as pessoas debatem.

São “brigas de torcida”, dizia a mensagem. Respondi que embora aquele grupo tivesse uma finalidade específica, debates também são importantes porque nos ajudam a amadurecer ideias.

Já ouvi muitas pessoas, que acho que apreciam uma boa conversa, desdenhar de debates em grupos de Whatsapp e de discussões em redes sociais. Uma observação muito comum neste sentido é o anúncio de que vai “sair da rede” para viver a “vida real”.

Espantam-me essas observações e o desprezo pelo debate vindo de pessoas prestensamente esclarecidas e bem informadas.

Nas eleições de 2018, que levou Bolsonaro à presidência da República e seus três filhos à mandatos importantes no legislativo, observamos na prática o quanto as redes sociais interferem e são capazes de direcionar nossas vidas.

Sabe-se que a campanha bolsonarista usou e abusou do Whatsapp e afins, inclusive de forma irregular. Sua equipe foi eficiente e certeira em um marketing que atingiu em cheio uma massa de eleitores pouco acostumada a discussões aprofundadas sobre temas políticos, sociais e econômicos.

Ainda assim, há quem continue desdenhando da importância de aprofundar debates e emitir opiniões com bons embasamentos nas redes. Ainda assim, há quem vire as costas para isso e diz que vai viver a vida real no melhor estilo propaganda de margarina.

Amigos, tudo é vida real. Tudo isso faz parte. E as construções de opiniões e pensamentos são armas contra a manipulação, a doutrinação, a repetição impensada de deliberações alheias, sejam da igreja, do partido, do sindicato, sejam de uma empresa. É também papel dos movimentos sociais fomentar um ambiente de debates onde diferentes pontos de vista são confrontados. Um ambiente onde conhecemos opiniões alheias e somos provocados a buscar argumentos para defender opiniões que, de tão cristalizadas, temos como incontestáveis.

Já entrei em muitas discussões virtuais. Debates sobre homofobia, aborto, pena de morte, sobre o pensamento da filósofa Judith Butler, sobre a legitimidade da grande comoção social acerca da morte da cadela Manchinha, sobre partidos de esquerda apoiarem a candidatura do deputado Rodrigo Maia para presidência da Câmara, sobre a postura do Ciro Gomes no segundo turno das eleições, sobre o projeto político do Jair Bolsonaro, enfim… Quase todas essas discussões foram muito acirradas e cansativas, ao ponto de me deixar com uma dor de cabeça real, não virtual. E elas não se encerram quando desligamos o celular. Ficam martelando em nossas mentes.

Você pode pensar que essas discussões são improdutivas uma vez que não chegam a nenhuma conclusão. Entretanto, por mais que não consigamos convencer o interlocutor das nossas ideias, e por mais que não sejamos convencidos das ideias dele, conseguimos expor nosso pensamento. Demonstramos e aprendemos que convicções não são incontestáveis. Semear raciocínios é o mais importante, e isso já é uma grande coisa. O exercício intelectual, a capacidade de abstrair nos engrandece e nos faz mais humanos, nos diferenciando dos outros animais.

as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”

Hostilidades podem acontecer. Mas lidar com isso é parte do aprendizado. Nada é mais nocivo para o ambiente social do que o desprezo, a ridicularização e a postura soberba com relação às ideias alheias. O hábito de se mostrar indisposto ao debate, em larga escala, é um dos pilares que sustenta a ignorância de um povo e todo o mal que dela se desdobra.

O escritor Umberto Eco disse que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Acho que não preciso dizer quanta discriminação há nesta sentença. Ela se assemelha à frase do nosso fanfarrônico ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez que diz:

A ideia de universidade para todos não existe. (…) As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica”.

É preocupante quando um intelectual renomado e, pior ainda, um ministro da educação defendem que a inteligência é atributo de poucos. Infelizmente posturas como estas tem amesquinhado o debate justamente quando mais precisamos dele. Quanto menos conseguirmos refletir conjuntamente sobre nosso país e nosso mundo, menos amadureceremos essa prática e mais os debates, que porventura surgirem, parecerão brigas de torcida.


Texto em português do Brasil


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