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Domingo, Outubro 24, 2021

Defesa de golpe revela aliança do sistema financeiro com fascismo

Em relatório economista do banco Santander pactua com ataques à democracia do Brasil: “É possível especular sobre um golpe para evitar o retorno de Lula. Ele era inelegível até outro dia, por exemplo. Pode voltar a sê-lo”.

O sistema financeiro costuma ser o mandante de golpes executados por terceiros contra governos do mundo todo. Faz isso sem sujar as mãos, responsabilizando peixinhos da política ou mobilizando circulação financeira para que não se saiba de onde veio a pancada. O ódio à política e o respeito à finesse de banqueiros e especuladores pelo cidadão comum é proporcional a essa estratégia sutil. Aparentemente, o jovem economista Victor Candido está mais familiarizado com o padrão “elefante na loja de cristal” do bolsonarismo, do que com as estratégias subterrâneas e transnacionais dos bancos para impedir a chegada da esquerda ao poder.

Em relatório distribuído pelo rapaz, que sumiu das redes e colocou o banco espanhol em maus lençóis, o banco Santander mostra que conversa internamente em tom de ameaça e golpismo para evitar a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022. Embora tente desvencilhar-se culpando o economista, o banco distribuiu o comunicado entre seus melhores clientes para conhecimento.

A reação de diversos setores foi no sentido de repudiar o claro ataque contra a democracia ao conspirar contra a eleição legítima de um candidato, antes sequer que este se candidate. Políticos de esquerda foram rápidos em pontuar a análise feita acima sobre a dinâmica da economia bancária e a governança global .

O neoliberalismo financista demonstra não ter qualquer apreço pela democracia, pelo contrário, senão quando pega mal para o marketing da responsabilidade social. De outro modo, é mais útil ter um governo fantoche dos bancos, mesmo que não tenha sido eleito.

Análise rústica

Enviado a clientes e operadores financeiros do banco espanhol no Brasil, numa clara atitude formalizada do banco, o comunicado diz: “Se o sistema político e judicial, se o establishment político brasileiro acha cômico o governo Bolsonaro, o retorno de Lula e seus aliados representa uma ameaça bem mais séria. Hoje, Lira é o presidente da Câmara, mas sob um governo do PT, seria um modesto aliado abrigado em um cargo menor”.

Em seu trecho inicial, o executivo afirma que “(…) é preciso reconhecer um problema na eleição de 2022: a perspectiva de retorno ao poder da máquina de corrupção do governo Lula”. Na perspectiva do comunicado, desde o impeachment de Dilma, o Brasil saiu do mapa da corrupção internacional.

O economista do Santander vai além: “Em suma, ninguém apoiará um golpe em favor de Bolsonaro, mas é possível especular sobre um golpe para evitar o retorno de Lula. Ele era inelegível até outro dia, por exemplo. Pode voltar a sê-lo”.

O relatório provocou indignação no PT, no momento em que Lula lidera todas as pesquisas de intenção de voto, desde que foi inocentado de todas as acusações contra ele e teve seus direitos políticos restabelecidos.

Repercussão

A primeira reação da presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffmann (PR), foi num tom de ataque ao mercado e suas inclinações fascistas. “Declaração de economista do Santander sobre barrar Lula mostra como o mercado está de mãos dadas com o golpe pretendido por Bolsonaro e cia. É a junção do capitalismo selvagem com o fascismo, a pior combinação possível e a sociedade que se dane. Deplorável!”, disse nas redes sociais a deputada federal e dirigente partidária.

Pesquisa PoderData de 2 a 4 de agosto de 2021 com projeção para eleições de 2022

Num segundo momento, ela relata que foi procurada pelo Santander, sem deixar de cobrar do banco um atitude firme em relação à circulação desse tipo de opinião internamente. O banco teria dito que a posição sobre o golpe para tirar Lula das eleições é de consultoria independente e não reflete sua visão, “e que não censuram textos” . “Divulgar opinião é ser corresponsável. Só medida firme em relação à consultoria demonstrará que não concordam com ataques à democracia”, cobrou ela.

Já o deputado federal Alencar Braga (PT-SP) considera a situação criminosa e anunciou que vai denunciar formalmente o economista que sugere golpe contra o processo eleitoral. “A democracia não pode tolerar Bolsonaro e não pode tolerar Victor Cândido, que era criança quando Lula foi eleito e não viu o melhor governo da história”, diz o parllamentar.

Assim, foi assinada representação ao Ministério Público Federal (MPF) pelos deputados Elvino Bohn Gass, Alencar Santana e Reginaldo Lopes que pede que o economista do Santander Victor Candido seja investigado e punido por, “na condição de economista do Banco Santander, enviou um relatório a clientes e operadores da referida Instituição bancária, onde defende, sem maiores preocupações, talvez substanciado nos exemplos diários que partem inclusive do Chefe da Nação, um golpe de Estado no País, para evitar o retorno, pelas vias democráticas, que se avizinha, do Presidente Lula”.

O deputado José Guimarães (PT-CE) considerou um escândalo a notícia do comunicado circulando livremente em tom de golpismo. “Esse casamento entre o liberalismo e o fascismo está matando o Brasil. Sem nenhum pudor, pregam golpes, retiram direitos, renda e emprego do povo”, lamenta.

Já o escritor Frei Betto defendeu o boicote ao Santander, por conta de sua manifestação que flerta com o fascismo: “Pra não financiar o golpismo, mudem de banco”. A hashtag #SantanderGolpista ocupou destaque nas redes sociais convocando a boicotes de correntistas e devedores do banco.

“Vale lembrar que, em julho de 2014, o Santander enviou a seus clientes de alta renda um extrato que dizia que a economia iria piorar caso Dilma fosse reeleita. Portanto, o que aconteceu agora está longe de ser a primeira vez que o #SantanderGolpista tenta se intrometer nas eleições do Brasil”, escreveu a ativista feminista Lola Aronovich, lembrando episódio controverso durante a eleição.

A deputada Erika Kokay (PT-DF) se manifestou explicando o sentido prático da atitude do banco. “O golpe que economista do Santander defende contra Lula é um golpe para que o povo brasileiro continue excluído do orçamento e o Estado siga capturado pelos interesses do capital financeiro vadio!” A deputada refere-se ao modo como o orçamento foi sequestrado pelo sistema financeiro após o golpe de 2016, por meio do Teto de Gastos, do ajuste fiscal, das privatizações e reformas conservadoras.

O lucro do Santander no Brasil foi de R$ 4,1 bilhões apenas no segundo trimestre. Apesar das graves crises de saúde, social e econômica que o país atravessa. Segundo a imprensa, após a notícia do golpismo, as ações do banco subiram no mercado financeiro, mostrando que os donos do dinheiro ficam felizes em saber que seu banco está disposto a medidas heterodoxas em defesa de seus lucros.


por Cezar Xavier  | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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