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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Do fiasco de Charlevoix às esperanças de Singapura

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Em 1974, data da revolução portuguesa, data do final do meu curso do Colégio Militar e entrada informal na Faculdade – organizávamos então cursos livres alternativos ao serviço cívico decretado então – muito se pensava no fim do mundo tal como o conhecemos.

  1. O anunciado findar do mundo

Em 1974, data da revolução portuguesa, data do final do meu curso do Colégio Militar e entrada informal na Faculdade – organizávamos então cursos livres alternativos ao serviço cívico decretado então – muito se pensava no fim do mundo tal como o conhecemos.

O colapso do império colonial português e a queda generalizada do que dele resultou na esfera de influência soviética (chinesa no caso de Timor Leste) era apenas mais uma peça do xadrez em que sobressaía a progressiva derrota americana na Indochina e o colapso da convertibilidade do dólar em ouro.

Não foi a primeira nem a última vez que se terá erradamente sentido o fim de um mundo que, pouco depois, iria na verdade encontrar um novo fôlego. Mais, como apenas os mais clarividentes analistas percebiam então – o recém-falecido Bernard Lewis, com o seu “O regresso do Islão” de 1976 foi o principal – estávamos mais perto do colapso do que da vitória do império soviético e a força emergente era antes a do fanatismo islâmico.

Ao olharmos para a cimeira do G-7 que decorreu a 8 e 9 de Junho em Charlevoix, dificilmente deixamos de ter de novo a noção de que o mundo que conhecíamos – em que havia um mundo ocidental coeso onde se concentrava o poder político e económico – está acabado.

O grupo dos 7 foi formado nos anos setenta, agregando os países que na altura representavam a esmagadora maioria do poder económico, um considerável poder político e militar, feito pelos EUA, França, Reino Unido, Alemanha, Japão a que depois foram agregados a Itália e o Canadá. Na época áurea pós-soviética o grupo passou a contar com a Rússia até que, com a invasão da Crimeia, ela deixou de ser convidada.

A presente cimeira não podia ter corrido da pior maneira. Trump começou por propor a reintrodução da Rússia nas cimeiras – proposta que apenas agradou aos novos representantes italianos – recusou participar no debate sobre as mudanças climáticas e invectivou da mais anti-diplomática das formas a presidência canadiana e os parceiros europeus pelas suas políticas comerciais.

Macron – que até recentemente tinha tentado fazer a ponte entre os dois lados do Atlântico – sugeriu a expulsão dos EUA do G-7, colocando-se a par dos seus parceiros europeus no confronto com os EUA, num clima de alta tensão que mesmo as fotografias oficiais confirmam e levando a que nem um comunicado final fosse acordado.

Se isso não fosse suficiente, a China – que é o óbvio rival aos EUA na liderança mundial – reunia simultaneamente à sua volta do “Clube de Shangai” (uma espécie de G-7 chinês) vários líderes mundiais, incluindo a Rússia e a Índia.

Não terá sido o fim do mundo, mas foi sem dúvida o mais estridente partir de loiça a que me lembro de assistir no mundo ocidental e que nos leva a perguntar-nos o que temos realmente pela frente.

  1. De Montebello a Charlevoix

O site da presidência canadiana do G-7 faz um historial das presidências canadianas, que começaram em 1981 em Montebello, Ottawa, e dá-nos os temas da agenda, que são “as mudanças climáticas” a “igualdade de género” “construir um mundo mais pacífico e mais seguro” o “crescimento que funcione para todos” e “preparar os empregos do futuro”.

O vocabulário, as expressões, e os temas, expectavelmente, são o que sabemos, e que somos obrigados a ler um pouco por todo o lado, num mundo virtual que parece ter como principal propósito recitar slogans e ignorar a realidade, ou seja a guerra, as ambições totalitárias, as ameaças consistentemente ideológicas aos valores humanos ou os confrontos comerciais.

Trata-se de uma espécie de missas dos tempos modernos, em que ritualmente se proferem palavras celestiais e etéreas que visam em larga medida fazer esquecer a realidade do quotidiano.

Aparentemente, a igualdade de género foi tema para pequeno-almoço. No documento de base, é em vão que se pode procurar qualquer referência às mulheres yazidis feitas escravas pelo jihadismo e que continuam por libertar, à mutilação sexual feminina e a todos os horrores a que o jihadismo submete as mulheres, abundando os clichés e as mais ou menos preocupações do mundo desenvolvido. Podemos imaginar como correu olhando para a fotografia que nos mostra a directora do FMI lado a lado do presidente Trump.

Nada na agenda falava da questão global mais importante neste momento, que é a da ameaça de proliferação nuclear para Estados totalitários sem escrúpulos como o são a Coreia do Norte e o Irão, na véspera da cimeira entre os EUA e a Coreia do Norte.

A elite político-financeira ocidental está cada vez mais afastada da realidade do nosso mundo e os seus debates fazem-nos lembrar o célebre debate sexo dos anjos de Constantinopla.

Quebrar com este estado de coisas parece-me salutar, tudo dependendo agora de saber o que vamos ter em sua substituição, sendo certo que a noção popularizada por Trump de que o mundo pode dispensar regras e princípios e mover-se apenas na base dos interesses de cada um.

  1. A cimeira com a Coreia do Norte

Até agora, o ponto mais positivo da presidência de Trump foi o do quebrar com a política dos seus antecessores de apaziguamento da agressão nuclear do Irão e da Coreia do Norte, e é aflitivo ver como toda a imprensa e elite política que fizeram a apologia da submissão aos ditadores, defenderam acordos falhados e mentiram descaradamente à opinião pública.

Os dirigentes políticos ocidentais que foram responsáveis pelo armamento nuclear norte-coreano querem escamotear as suas responsabilidades tentando confundir a realidade desta matéria.

Nada naturalmente garante que a Coreia do Norte vai cumprir os acordos que agora fizer, tudo dependendo da firmeza da comunidade internacional para dar sequência ao caminho que agora se abriu.

Se a Coreia do Norte for obrigada a cumprir, isso terá naturalmente consequências internas, sendo impossível que o regime se mantenha tal como está. Tão ou mais importante do que isso será o efeito que o fim do programa nuclear norte-coreano terá sobre as ambições nucleares iranianas.

O presente abalo às estruturas e aos métodos que regem a ordem internacional é uma condição importante, mas em qualquer caso, é seguro que é necessária uma ordem internacional humana, estável e racional.

Será que isso virá a ser possível sem que a desordem do ordenamento internacional se transforme em desordem generalizada, conflitos e ameaças totalitárias?

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